Mercado

Como transformar sinais geopolíticos em decisões de negócio

Daniel Lopez

Em meio às intensas transformações macroeconômicas e geopolíticas, como identificar, nas notícias, tendências capazes de antecipar riscos e oportunidades para os negócios? Para Daniel Lopez, jornalista, doutor em linguística e sócio da Mowe Investimentos, a resposta a essa pergunta passa pelo cruzamento de informações de fontes confiáveis e pela identificação de padrões. A inteligência artificial ajuda nesse processo, enquanto o ciclo OODA (Observar, Orientar, Decidir e Agir), oferece uma sequência para transformar a análise em decisões.

Daniel conheceu essa abordagem quando atuou como instrutor civil no Curso Avançado de Operações Psicológicas no Exército Brasileiro. Foi ali que ele estudou o ciclo OODA, desenvolvido pelo piloto militar norte-americano John Boyd. Para empresas e tomadores de decisão, a sequência ajuda a acompanhar mudanças e decidir como responder a elas.

Para ilustrar como aplica esse raciocínio, Daniel relembrou previsões que atribui ao próprio método. Citou um vídeo que ele gravou em agosto de 2018, em que alertou para a possibilidade de um atentado contra Jair Bolsonaro. Em outro, publicado no dia do segundo turno daquele ano, ele descartou fraude eleitoral nas eleições, antes mesmo delas acontecerem. Em janeiro de 2020, afirmou conseguir antecipar que o vírus da covid-19 era grave e se tornaria uma pandemia. Daniel contou que esses episódios reforçaram sua confiança na leitura de sinais e tendências.

Essas experiências, e o interesse em conectar a análise geopolítica à estratégia financeira e de investimentos o aproximou da Mowe Investimentos, que gere atualmente R$ 1,1 bilhão em custódia.

Sobre o contexto atual, Daniel avalia que está havendo uma transição para um mundo multipolar, com o crescimento dos BRICS, e a perda de hegemonia global que os Estados Unidos conquistaram após a Segunda Guerra Mundial. O analista explica que o presidente Trump está estabelecendo o que ele chama de Doutrina Monroe 2.0, na qual ele procura obter a primazia das Américas.

Na visão de Daniel, o fato de os principais executivos do Vale do Silício terem participado da posse de Trump representa uma transição de influência do Banco Central dos Estados Unidos para as big techs e a escolha de Scott Bessent como secretário do tesouro norte-americano, antigo aliado de George Soros, é representativo desse movimento. Ele conecta essa concentração de poder ao risco de uma bolha da inteligência artificial e aos ganhos bilionários de Soros com especulação financeira no passado. “O investidor ganhou bilhões quebrando países, agora vai ganhar trilhões quebrando o mundo. Anotem aí”, afirmou.

Daniel citou ainda o livro 1929, de Andrew Ross Sorkin, e comparou aquele momento ao mercado atual. Ele interpreta os US$ 400 bilhões em caixa de Warren Buffet como um sinal de que o investidor se prepara para comprar empresas abaixo do valor do mercado quando uma crise similar à de 1929 acontecer.

Quarta Revolução Industrial

As notícias que circulam em mídias como BBC e que incentivam a população a estocar alimentos e outros itens de sobrevivência para se anteciparem a um possível conflito global são interpretadas por Daniel como sinais da Quarta Revolução Industrial, que une o mundo físico e o digital por meio de tecnologias avançadas como IA, Internet das Coisas (IoT), robótica e outras.

Ele também se referiu ao “Grande Reset”, iniciativa lançada pelo Fórum Econômico Mundial que defende que a pandemia evidenciou as fragilidades do sistema econômico atual e que o mundo deveria aproveitar o momento para fazer uma reformulação do capitalismo. Apresentada por Klaus Schwab, fundador do Fórum de Davos, os pilares dessa mudança envolvem a aceleração de metas de sustentabilidade em uma transição para a economia verde e o uso de inovação tecnológica.

Daniel citou ainda o fechamento do Estreito de Ormuz, no Oriente Médio, como um fenômeno com forte impacto na economia global. Esse é um exemplo de como uma questão geopolítica impacta a economia global, influenciando no preço dos combustívelis, nos índices de inflação e na taxa de juros das economias locais e globais. Ele afirma que entender essas mudanças permite que empresas se posicionem antes dos impactos acontecerem. “Hoje o problema não é mais a falta de acesso à informação, mas informação demais”, finaliza.

  • Aumentar texto Aumentar
  • Diminuir texto Diminuir
  • Compartilhar Compartilhar