7 lições de Giovane Gávio sobre liderança e alto desempenho

Monica Miglio Pedrosa
A carreira de um atleta é marcada por altos e baixos e cada conquista ou dificuldade traz aprendizados que ampliam seu repertório. Bicampeão olímpico pela Seleção Brasileira masculina de vôlei, Giovane Gávio encerrou o Fórum CEO Brasil 2026 com uma palestra sobre superação, resiliência e lições que também se aplicam à gestão de empresas.
Eleito o melhor jogador de vôlei do mundo em 1993, Giovane precisou aprender, anos depois, a encontrar seu valor no banco de reservas. Apesar de treinar intensamente, tinha poucas oportunidades de entrar nas quadras. Depois de conversar com Bernardinho sobre a situação, ouviu do técnico que sua dedicação era uma referência para os mais jovens e elevava a exigência sobre os titulares durante os treinos. Compreender o que o treinador esperava dele fez toda a diferença e levou Giovane a recomendar aos líderes que comuniquem com clareza o papel de cada integrante e sua contribuição para a equipe.
Esse é o primeiro dos sete ensinamentos que ele trouxe em sua palestra. Leia os detalhes a seguir.
1) No trabalho ou nos esportes, pressão na medida certa
Giovane apresentou uma analogia sobre a cobrança por resultados ao segurar uma bola de vôlei nas mãos. Ele disse que, quando a bola está com muita pressão, fica dura demais e pode estourar. Com pouca pressão, ela fica murcha e não executa a trajetória esperada. O mesmo cuidado deve orientar a exigência que os líderes colocam sobre eles mesmos e sobre suas equipes. Giovane diz que é preciso estimular o desempenho e reconhecer o ponto em que a cobrança começa a comprometer a capacidade de resposta.
Alta performance não é ausência de pressão, é acostumar-se com a pressão.”
Giovane viveu essa realidade quando foi jogar no Padova, na Itália, aos 20 anos. Além de enfrentar alguns dos melhores jogadores do mundo, passou a receber as bolas decisivas do jogo. Quando ele não desempenhava tão bem, a imprensa o associava à derrota. O dono do time aumentava a cobrança da mídia ao dizer que aplicaria multas pelas derrotas. Mesmo assim, Giovane lembra desse período como uma “experiência mágica”.
Atualmente, Giovane reconhece os limites dos métodos de sua geração. Treinos exaustivos, pouco espaço para questionamentos e colegas que abandonaram a carreira por lesões ou por não aguentarem lidar com tamanha pressão. Ele acredita que a abertura para que os times expressem suas dificuldades exige dos líderes novas habilidades, como comunicação e construção de relações de comprometimento.
2) Habilidade nata sem técnica não decola
Com 2,15 metros de altura e impulsão de até um metro do chão, Giovane alcança bolas a 3,6 metros. Essa habilidade nata era sua vantagem e despertou o interesse do Banespa, um dos melhores da época. O convite para jogar no time veio aos 16 anos. Ao chegar ao clube, percebeu que precisava desenvolver sua técnica para aproveitar todo seu potencial. Apesar de alcançar bolas altas, Giovane não conseguia encaixar a mão na bola no ataque e sua manchete ainda não tinha controle. A orientação do técnico japonês Nobuhiro Imai deu direção ao esforço.
Giovane usa essa experiência para destacar a importância de reconhecer as próprias habilidades e trabalhar diariamente para desenvolvê-las. O talento abre a porta para oportunidades, mas é o preparo que permite aproveitá-las em todo seu potencial.

3) Nunca abandone o básico bem-feito
Nenhum atleta gosta de treinar toque e manchete, porque julga dominar essas habilidades. Só que 66% do jogo de vôlei é composto por toque e manchete. A qualidade desses toques determina as condições em que o atacante poderá decidir o ponto sobre o adversário. Giovane conta que os técnicos brasileiros treinavam toque e manchete com tanta intensidade que outras seleções passaram a contratar brasileiros para incorporar essa metodologia.
A importância da base também aparecia nos exercícios de fortalecimento das pernas, cruciais para executar uma boa manchete. Ao levar esse aprendizado para os negócios, Giovane chamou a atenção para aquilo que sustenta a operação das empresas. Mesmo em equipes experientes, as atividades básicas precisam ser praticadas e aperfeiçoadas continuamente.
O básico bem-feito dá a base e suporta a operação.”
4) O autocuidado sustenta a performance
O técnico italiano Silvano Prandi usou uma comparação entre uma Ferrari e um Fusca para chamar a atenção de Giovane para o autocuidado. Enquanto é possível colocar o pé no acelerador do Fusca e chegar a 100 km por hora em uma descida, quando o carro quebra é possível remendar ele “com um arame” e andar mais um milhão de quilômetros. Já a Ferrari daquela época não suportava uma acelerada forte por não ter controle de tração, o carro rodopiava e batia. Se o condutor não passasse a marcha no tempo certo, o câmbio quebrava. Silvano falou: “Giovane, você tem tudo para ser uma Ferrari. Mas se não aprender a se cuidar, vai quebrar.”
O técnico queria saber como ele se cuidava fora dos treinos e da quadra. Ele dizia que a performance estava ligada diretamente a como ele se cuidava fora dela. A dedicação aos treinos precisava ser acompanhada por hábitos que sustentariam aquele nível de exigência.
Dormir bem, alimentar-se adequadamente e fortalecer o corpo fazem parte da preparação para trabalhar melhor. Ele também destacou a importância de fazer pausas, respirar e abrir espaço para novas ideias. Para Giovane, o cuidado fora do trabalho passou a incluir a convivência com a família, a escrita de poesias e atividades como o golfe, ampliando as fontes de satisfação para além das conquistas esportivas.
5) Prepare-se para decisões em momentos de tensão
Mesmo depois de chegar à seleção brasileira, Giovane se incomodava por não receber as bolas mais importantes do jogo. A transferência para a Itália mudou essa situação. Na equipe de Padova, ele e o russo Fomin eram os dois estrangeiros que assumiam a responsabilidade pelos ataques decisivos. A oportunidade de jogar um dos campeonatos mais fortes do mundo exigia aprender a responder nos momentos de maior cobrança.
Como é que a gente aprende a decidir? Tendo oportunidade para decidir”.
A experiência também lhe ensinou a lidar com o desconforto que acompanha essa responsabilidade. A cada partida, Giovane ampliava seu repertório e construía referências para escolher como agir diante de novos desafios, como um bloqueio adversário.
A preparação apoiava essas escolhas. Giovane relacionou o treinamento esportivo à organização de uma reunião com um cliente, que envolve conhecer o mercado, dominar o assunto e antecipar possíveis perguntas da conversa. Para o bicampeão olímpico, esse trabalho prévio melhora a execução e fortalece a confiança de quem precisa decidir.
6) Lidere com clareza e dê sentido ao papel de cada um
Ao retornar à seleção brasileira sob o comando de Bernardinho, Giovane precisou construir uma nova relação com a equipe. O treinador o incentivou a deixar as glórias anteriores no passado e mostrar o que poderia oferecer dali em diante. Ele abraçou a proposta, treinava intensamente e fazia até mais repetições do que lhe eram pedidas. Ainda assim, permanecia na reserva, sem compreender por que tanto esforço não se traduzia em tempo de jogo.
O incômodo o levou a procurar Bernardinho. Na conversa, Bernardinho explicou que a contribuição de Giovane era muito maior do que jogar. Sua dedicação servia de exemplo aos mais jovens e, ao enfrentar os titulares nos treinos, ele exigia que os companheiros também elevassem seu desempenho. “Você é o meu exemplo, você faz o que eu acredito”, disse o treinador. Esperava que Giovane ajudasse a sustentar aquele padrão de preparação e estivesse pronto para assumir seu lugar em quadra quando a equipe precisasse. Ao entender o que era esperado dele, Giovane passou a enxergar sentido em um papel que, até então, lhe parecia uma perda de espaço.
A história mostrou a importância do feedback para que os liderados compreendam o valor de seu trabalho. Giovane também destacou a proximidade do técnico Zé Roberto Guimarães, que construía cumplicidade em conversas e cafés com os atletas. Com estilos diferentes, os dois técnicos marcaram sua trajetória pela capacidade de orientar, criar confiança e extrair o melhor de cada integrante da equipe.
7) Faça o seu melhor e ajude o time a brilhar
Depois de compreender sua importância para a seleção, Giovane passou a se definir como o “melhor reserva do mundo”. Nos treinos, enfrentar jogadores como Giba, Serginho e Nalbert lhe dava a oportunidade de se aperfeiçoar e exigir mais dos titulares. Também passou a celebrar as boas jogadas dos companheiros, incentivá-los no que fosse necessário, inclusive oferecendo água durante as partidas. “Aprendi a servir.”
Essa disposição vinha acompanhada da preparação para entrar em quadra. Na final do Mundial de 2002, Giovane marcou os três últimos pontos da conquista brasileira. A participação foi breve, mas decisiva, fruto do trabalho que manteve mesmo sem ser titular. O episódio mostrou que a contribuição de um jogador pode ganhar dimensões diferentes ao longo de uma competição.
Para explicar essa relação entre indivíduo e equipe, Giovane apresentou a metáfora de um diamante de 12 faces. Cada jogador representa uma delas. Algumas recebem mais luz e aparecem mais, mas todas pertencem à mesma pedra e influenciam seu valor. “Não adianta a gente brilhar sozinho”. O compromisso coletivo envolve aperfeiçoar a própria atuação e ajudar os demais a fazer o mesmo, para que o resultado seja fortalecido pela contribuição de todos.
-
Aumentar
-
Diminuir
-
Compartilhar



