A Fórmula Softbank

A Fórmula Softbank

Com "visão de 300 anos” e diversificação de negócios, do Alibaba à Boston Dynamics, império de Masayoshi Son avança na América Latina

Publicado em 23 de abril de 2019

No antigo jargão da informática, cluster é um sistema de computadores que funcionam conjuntamente, como se fossem um único, com o objetivo de fazer grandes trabalhos de processamento de dados. Masayoshi Son, fundador da Softbank, tomou o termo emprestado para exprimir o objetivo de seu conglomerado, cujos interesses se espraiam em numerosos segmentos que dependem de alta tecnologia, como semicondutores, comunicações e serviços de internet. Ou robôs, como o “Pepper”, da francesa Aldebaran, que ilustra abertura deste REPORT.

Nas palavras do próprio Son, a estratégia da Softbank é tornar-se um cluster de companhias número 1, sobretudo as dedicadas a desenvolver produtos e serviços com inteligência artificial, de modo que se complementem e, ao mesmo tempo, criem oportunidades de negócio entre si.

Qual é a fórmula para fazer essa engrenagem funcionar? Não ter receio em pensar grande, ter visão de longuíssimo prazo e conquistar a confiança de parceiros com fôlego financeiro de sobra para assumir grandes riscos. Mesmo quando se trata de diversificar grandes quantias de capital em tecnologias muito incipientes, que podem dar em nada em pouco tempo.

A obsessão de Masayoshi Son é tornar a Softbank a maior empresa do mundo desde o dia em que a fundou, em 1981, em Tóquio, como uma distribuidora de programas para computadores.

Daí vem a origem do nome de sua companhia, que remete a banco de software e, ainda hoje, contamina a percepção da área de atuação do agora colosso corporativo com participação em algumas das mais importantes firmas de tecnologia do globo, cujas áreas de atuação abrangem desde infraestrutura e serviços de comunicações, robótica, compartilhamento de carros, autogestão, biomedicina, energia limpa, agricultura, seguros e, inclusive, finanças.

Dinheiro alheio

A percepção de que a Softbank é uma instituição majoritariamente financeira também se disseminou em outubro de 2016, quando Son instituiu o Softbank Vision Fund e convenceu a Arábia Saudita a entrar com US$ 45 bilhões na empreitada — cujo valor total somou US$ 100 bilhões —, depois de uma negociação que durou 45 minutos. “A conversa rendeu US$ 1 bilhão por minuto”, gabou-se Son, à época. Entre os projetos estão pesados investimentos em energia solar no deserto saudita.

O Vision Fund aplica seus recursos em empresas de tecnologia de ponta. A participação saudita se deu por meio de seu fundo soberano. A Softbank pôs US$ 28 bilhões no negócio; o fundo Mubadala, do governo de Abu Dhabi, acrescentou US$ 15 bilhões; e um punhado de empresas completou o montante de US$ 100 bilhões, incluindo a Apple e a japonesa Sharp, que investiram US$ 1 bilhão cada uma.

Muitas participações acionárias de propriedade da Softbank foram transferidas para o Vision Fund, entre as quais as detidas na WeWork (empresa de compartilhamento de espaço de trabalho), Nvidia (fabricante de chips), Uber, Grab, Ola e Didi (de aplicativos de transporte de passageiros). E especula-se que já esteja em gestação o Vision Fund 2, igualmente com aporte de US$ 100 bilhões.

América Latina

Fato ou não, Son continua atento a oportunidades de diversificação, com especial atenção ao mundo emergente. Em março de 2019, a Softbank anunciou o lançamento do Softbank Innovation Fund, voltado exclusivamente a negócios de tecnologia na América Latina.

A ideia é intercambiar parcerias entre as companhias já inscritas em seu Softbank Vision Fund e as que receberão aporte no continente latino-americano, ampliando o alcance tecnológico e geográfico de todas elas. A companhia injetou US$ 2 bilhões de recursos próprios no Innovation Fund, mas estima chegar a um total de US$ 5 bilhões.

“Talvez será necessário rever rapidamente esse volume, dadas as potencialidades da região”, afirmou Marcelo Claure, o executivo boliviano que assumiu a presidência da recém-criada Softbank Latin America, na ocasião do lançamento.

Flávia Bendelá, coordenadora do Núcleo de Inovação do Ibmec RJ, acredita que a Softbank conseguiu enxergar uma grande oportunidade no mercado, pois o investimento de risco na América Latina, principalmente no Brasil, é extremamente pulverizado e tímido: “Há um gap deixado pelos grandes investidores locais que não estão familiarizados com esse tipo de investimento, além do receio e desconhecimento de como fazer a gestão de um portfólio de empresas dessa categoria”.