“A inovação não pode aumentar a desigualdade social”

Fred Arruda, CEO do CESAR, fala da pandemia e dos desafios e planos do tradicional centro de inovação do Recife para 2021

Publicado em 10 de março de 2021

O pernambucano Fred Arruda sempre buscou em sua carreira desafios ligados à inovação e a novas tecnologias. Formado em ciências da computação, participou da primeira experiência de uso do cartão magnético usando um computador pessoal no Banorte e foi responsável, como gerente de produtos, pela implantação dos caixas eletrônicos no banco. Em 1996, Arruda recebeu um convite para alçar novos voos na área de tecnologia da rede varejista Bompreço. Mas recusou a proposta depois de uma conversa “encantadora e totalmente fora da caixa” que teve com o fundador do CESAR (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife), Sílvio Meira. “Me apaixonei pela visão de futuro do projeto e quis contribuir para tornar o Brasil mais competitivo ao fomentar a inovação. Comprei a ideia, mesmo sabendo que ia ganhar metade do salário que teria no novo emprego”, conta com orgulho.  

Foram nove anos na primeira gestão como CEO, antes de voltar ao mercado. Em 2016, quando atuava como diretor de operações de negócios da EMC, recebeu um convite para retornar ao CESAR, dessa vez como conselheiro. Em dezembro de 2018, assumiu novamente a posição de CEO, em um modelo colegiado com Eduardo Peixoto (Chief Designer Office) e Karla Godoy (Chief Operating Officer). Desde então, tem apresentado as novas ofertas do CESAR ao mercado: o TIL (Targeted Innovation Labs), o Go.In (Governança da Inovação) e o ICTd (Índice CESAR de Transformação Digital). 

Em entrevista ao Experience Club, Arruda avalia que 2021 será muito simbólico para a CESAR School, braço educacional do CESAR que formará suas primeiras turmas de graduação no final do ano. Quanto à pandemia, apesar do crescimento de 83% em novos negócios no período, afirma, de modo categórico: “foi um ano que eu preferia que não tivesse existido”. 

Veja a seguir alguns dos destaques da entrevista:

Inovação inclusiva 

“Trabalhar com inovação significa estar com a adrenalina alta o tempo todo. É desafiador, mas muito prazeroso. Normalmente nos relacionamos com pessoas de um nível intelectual bastante sofisticado e a cada dia temos que resolver novos problemas. Outra reflexão importantíssima é que nós, como agentes da inovação, temos que ter o cuidado de, ao inovar, não aumentar a desigualdade social. Devemos inovar incluindo e não segregando ainda mais quem já é excluído”. 

O ano da pandemia 

“Em relação aos negócios, 2020 foi fantástico: iniciamos novos projetos nos clientes que já atendíamos, crescemos 83% em novos negócios, fizemos o on-boarding de mais de 200 novos colaboradores. Mas esse foi um ano que eu preferia que não tivesse existido. No CESAR, acreditamos que a inovação começa pelas pessoas, que criam negócios, que mudam a vida de outras pessoas. Isso está na nossa missão. Então, não podemos celebrar os resultados, pois vivenciamos notícias muito tristes de pessoas próximas, de familiares de nossos colaboradores. No CESAR, a transição para o trabalho home office foi rápida. Os desafios técnicos eram poucos e foram rapidamente sanados. Mas o principal é que, em termos de cultura, estávamos prontos. Ao longo do ano, fizemos uma reforma nas nossas instalações para receber os funcionários de volta quando eles quiserem, se sentirem seguros e à vontade para isso”. 

Governança para inovação 

“O Go.In foi desenvolvido pelo Felipe Pessoa, consultor sênior do CESAR Labs. Identificamos essa lacuna no mercado e oferecemos um método para criar uma camada de governança que permite um olhar mais gerencial sob o portfólio de inovação das empresas. É uma instância da governança corporativa com o olhar específico para a inovação. Já temos alguns cases com bons resultados, estamos amadurecendo o processo e depois vamos escalar essa oferta”. 

Índice Cesar de Transformação Digital  

“Desenvolvemos um questionário que faz um diagnóstico da Transformação Digital de uma empresa ou de um segmento a partir de oito eixos: modelos de negócio, processos, cultura e pessoas, consumidores, dados e ambientes regulatórios, concorrência, tecnologias habilitadoras e inovação. Esse serviço está disponível gratuitamente em https://transformacao.cesar.org.br/. Ele permite um diagnóstico inicial, a partir da análise das respostas dadas. Aos que se interessarem, podemos fazer um trabalho mais aprofundado, mapeando o conjunto de executivos e profissionais da empresa, que devem responder a esse questionário para que seja possível termos uma visão mais apropriada da organização como um todo. O resultado é um retrato de como a empresa está no momento. A partir disso, é possível traçar planos de ação nos eixos que não estão tão desenvolvidos. A análise pode ser feita periodicamente para medir os avanços obtidos. Aplicamos o ICTd dentro do CESAR continuamente, com ótimos resultados”. 

Targeted Innovation Labs (TIL) 

“O cliente nos traz um desafio, um problema complexo e atuamos com squads de oito a dez pessoas para construir cenários de soluções de como resolver aquele desafio. Construímos as possibilidades, prototipamos os caminhos e validamos a solução com nossos clientes. O TIL não precisa necessariamente ser uma solução de software. Temos dois casos com resultados bem interessantes, em uma rede varejista bem conhecida no Brasil e em uma indústria”.  

Nordeste em foco 

“Ainda é preciso fomentar as discussões sobre inovação e o uso de novas tecnologias na região Nordeste. As empresas não estão no mesmo grau de maturidade que vemos em São Paulo, por exemplo. Mas esse é um processo natural, existe muita oportunidade de desenvolvimento na região. O trabalho de organizações como o Experience Club ajuda a aumentar o nível de consciência dos empresários. Os setores mais promissores para inovação, de uma forma geral, são o varejo, a educação e o setor de saúde. A chegada da tecnologia 5G vai impulsionar muito a telemedicina, conectando médicos de localidades remotas a centros mais desenvolvidos, que podem dar suportes especializados no atendimento. Na educação, há muito espaço para desenvolvimento de novas soluções. Hoje, o ensino a distância (EAD) pressupõe apenas o uso de videoaulas. Acreditamos que o ensino à distância deve oferecer outros objetos educacionais, ofertas mais gamificadas, mais inteligentes e sofisticadas”. 

Novos passos na educação 

“Esse será um ano muito especial pois vamos formar as primeiras turmas de graduação da CESAR School, tanto em design como em computação. É algo muito simbólico para nós. Temos curso de mestrado há mais de 13 anos e iniciamos nosso curso de doutorado em 2020. Queremos expandir o pilar de cooperação e pesquisa e estamos obtendo a certificação de EAD do MEC para nossa graduação. Atuamos ainda em parceria com a área de responsabilidade social de empresas do setor privado, que investem em nossos cursos de capacitação em computação e design para estudantes de escolas públicas. É fascinante dar uma nova perspectiva a esses jovens e ver que, após essa experiência, eles criam suas startups ou são empregados em grandes empresas, depois de formados”.  

CESAR em 2021 

“Se a gente olhar no alto nível, os desafios são os mesmos. Diversificar no mercado com novas ofertas, aumentar a carteira de clientes e as fontes de recursos e reter talentos com o CESAR Experience, que procura dar a melhor experiência possível para nosso colaborador.  A pandemia acelerou uma realidade que já tínhamos identificado há dois anos: o dólar alto torna o profissional de TI do Brasil atrativo para empresas de fora, que faturam em euro ou dólar e podem contratar remotamente os profissionais a preço de ouro. Também perdemos profissionais para os bancos digitais, que pagam salários muito mais altos para o profissional de TI, pois encaram o desenvolvimento de tecnologia como investimento, não como operação. Então, precisamos focar no propósito, na perspectiva de carreira no CESAR e nos desafios que eles encontram aqui a cada novo projeto. Além disso, mantemos nossas duas grandes estratégias: não fugir da inovação e atuar preferencialmente em rede. Somos parte de ecossistemas de inovação como o Porto Digital e o Pólo Digital de Manaus. Antes de contratar novos colaboradores, vamos buscar nesses ecossistemas competências que podem se somar às nossas para oferecer uma proposta diferenciada para nossos clientes”. 

Texto: Monica Miglio Pedrosa

Imagens: Reprodução