Startup

Na Alice, tecnologia para uma saúde integral, sem “fatiar” o paciente

Guilherme Azevedo, cofundador Alice

Por Françoise Terzian

Aos 48 anos, o administrador de empresas paulistano Guilherme Azevedo tem duas certezas. A primeira é que a Alice, plano de saúde empresarial que cofundou em 2019, será seu último emprego na vida. A segunda é que sua cervicalgia – dores localizadas na região do ombro e pescoço – pode, como já foi, ser resolvida com tratamentos específicos e sem cirurgia e tende a continuar assim se Guilherme fortalecer continuamente a região com exercícios indicados.

Essa visão holística do problema de saúde do paciente é o diferencial da Alice, que pretende mudar a forma como funciona o sistema de saúde privado no Brasil, com médicos especialistas que não se conversam e levam a um aumento de custo, muitas vezes sem necessidade. De acordo com Guilherme, o paciente é visto de forma integral, e não “fatiado”, com médicos cuidando especificamente de cada parte e sem olhar o todo. Em outras palavras, no app da empresa, os médicos ou hospitais conveniados conseguem ver o paciente por inteiro: do histórico de saúde ao último atendimento.

Para isso, tecnologia é um dos pilares que sustentam o negócio. Da fundação da empresa até hoje, a Alice já investiu R$ 300 milhões em TI. E os aportes não devem parar por aí, uma vez que a empresa cresce rapidamente. Depois de faturar R$ 100 milhões no ano passado, a previsão é fechar 2023 com faturamento anualizado de R$ 300 milhões.

Em maio, a Alice fez uma movimentação estratégica, comprando a carteira de 16 mil clientes da QSaúde e mais do que dobrando o número de vidas. Hoje, são 27 mil no total e previsão de fechar o ano com 30 mil, com uma rede de mais de 400 hospitais pelo país. O crescimento por meio de aquisições, no entanto, não está nos planos da Alice, conforme explica Azevedo ao longo da entrevista à [EXP]:

[EXP] – Guilherme, você não é um novato no setor de saúde. Cofundou a Doutor Consulta e, posteriormente, a Alice. O que te levou a esse novo projeto?

Guilherme Azevedo – Eu conheci um modelo de saúde na Califórnia que se chama Kaiser Permanente, um consórcio de gestão integrada de saúde gigante, com mais de 16 milhões de vidas. Lá, fui impactado ao ver um modelo que tem a atenção primária como ponto central de contato. No Brasil, o cliente vai direto para o especialista, já que não tem um médico generalista, um médico da família. Nos EUA, esse é o ponto central. Você sempre vai no médico generalista, no enfermeiro. Eles resolvem a maior parte dos problemas e, se não resolvem, te encaminham para um especialista. Isso permite um uso mais racional e mais efetivo do custo do sistema. No Brasil a gente não tem isso no sistema privado, só no sistema público. Eu diria que esse foi um embriãozinho, a semente para o que viria a ser a Alice.

Esse desenho é tão bom para o paciente quanto é para o plano de saúde?

Se você perguntar aos pais e avós, verá que era muito comum o médico da família. O sistema veio mudando e a gente começou a fatiar o nosso corpo e a ter um médico para olhar a cabeça, outro para o pé, outro para a mão, outro para o coração, e por aí vai. As pessoas desejam ter alguém que as conheça por inteiro.

E por que você acha que os planos tradicionais não pensaram nisso? Não poderia ser uma saída nesse momento em que os custos estão superando as receitas dessas empresas?

Sim, mas o sistema de saúde que a gente vive aconteceu muito por uma questão mercadológica. O assunto do reembolso acabou dirigindo as duas últimas décadas da saúde no Brasil. Quanto maior o reembolso, maior a quantidade de consultas. Uma pessoa vai em seis especialistas que não se conversam, não sabem seu histórico e solicitam diversos exames. Sem ter conhecimento técnico, a pessoa faz mau uso do sistema. Isso gera custo e muito desperdício. Muitas vezes, o seu problema não precisava daquela ressonância, não precisava daquele exame, não precisava daquela cirurgia, seu problema era muito mais simples. O reembolso é uma jabuticaba brasileira. Eu converso com vários gestores do sistema de saúde de diversos lugares do mundo e, ao explicar como funciona o nosso sistema, o queixo deles cai.

Então a forma como a saúde vem sendo conduzida, tanto do lado do médico quanto do paciente, está errada?

Saúde no mundo é um baita desafio. Nos Estados Unidos, a saúde representa 20% do PIB, foi de 10% a 12% para 20% em 30 anos. A expectativa média de vida do americano continua os mesmos 75, 76 anos, portanto a saúde custa o dobro. E 20% do PIB americano significa mais de dois Brasis inteiros. No Brasil, a saúde já representa 10% do PIB, sendo 60% da saúde privada e 40% da pública. Crise em saúde não é uma particularidade do Brasil, mas um problema mundial. Por isso, temos que ser propositivos, construtivos, positivos no pensamento e tentar fazer algo novo. É difícil falar porque o setor é assim, consigo te falar pra onde eu acho que ele deve ir.

E pra onde ele deve ir?

Para o custo/efetividade do sistema. Eu tenho cervicalgia e poderia ter feito uma cirurgia, mas não fiz. O médico me tratou com reabilitação, fisioterapia e fortalecimento. Hoje, tenho zero dor. Dependendo da conduta, eu poderia ter acabado numa cirurgia. Isso é custo/efetividade. A um custo pequeno e com um pouco de esforço meu, estou com uma qualidade de vida muito melhor, sem ter passado por uma cirurgia invasiva. Para controlar minha cervicalgia, sei que preciso fortalecer os músculos da região com a ajuda de exercícios. Uma cirurgia teria custado milhares de reais para o sistema inteiro e todo mundo pagaria por isso.

Como tem sido a receptividade dos pacientes e das empresas que oferecem Alice aos funcionários?

É muito rápido usar o atendimento dos nossos times de saúde, que é como a gente chama nossa atenção primária. Montamos uma operação própria para isso. Em 30 segundos, pelo app, você fala com o ser humano que é o enfermeiro que tem acesso ao seu prontuário eletrônico. Eu estava numa viagem e comi alguma coisa que me deu uma reação alérgica. Meu rosto começou a inchar 10 minutos depois. Começou a me dar taquicardia, fiquei preocupado. Acionei o Alice Agora, tirei uma foto minha e mandei para a enfermeira, que me respondeu dizendo que havia visto minha foto e meu prontuário e observou que eu nunca havia tido esse tipo de reação alérgica. Ela falou para eu seguir imediatamente para um pronto-socorro. Ela tem todo o contexto, porque meu histórico de saúde está na tela. Já aconteceu da minha filha ter febre de 39 graus no domingo à noite. Na dúvida entre ir ou não para o pronto-socorro, entrei no app e, 10 minutos após falar com a enfermeira, fomos atendidos por um médico que estava com o histórico dela em mãos e vendo sua imagem pela tela. Não precisei levá-la ao hospital.

Esses médicos e enfermeiros são parceiros prestadores de serviço ou são funcionários da Alice?

São da Alice. A gente trabalha com alguns parceiros, mas a grande maioria é de funcionários. Eles ficam logados no sistema. A Alice tem sistemas tecnológicos para tudo, como prontuário eletrônico, que é acessado pelos médicos da atenção primária, secundária e parceiros. Eles têm visibilidade, por exemplo, do meu estado ortopédico e do que foi prescrito pelo ortopedista. Todos os resultados de exames encontram-se no app, independentemente do laboratório onde foram feitos. As prescrições dos médicos entram na lista do sistema de ações, a exemplo do meu protocolo que traz perguntas, respostas, imagens, local da dor etc. Até no sistema de autorização, o autorizador é da Alice. Ele só valida o pedido solicitado. O resumo de alta de um hospital é integrado no prontuário do paciente. É muita construção de tecnologia. Desde a fundação da Alice, já investimos R$ 300 milhões em tecnologia, principalmente na equipe para construção do software. A empresa é totalmente data driven e conta com 150 funcionários que são engenheiros de software, pessoas de design e de produtos de tecnologia.

No primeiro semestre deste ano, vocês compraram a carteira de clientes da QSaúde. Essa movimentação adicionou qual volume à base?

Compramos a base de 16 mil clientes, e mais do que dobramos a Alice. Hoje a gente tem quase 30 mil membros na carteira toda.

Podem vir outras aquisições daqui para frente?

Não. Eu acho que uma particularidade interessante da carteira da QSaúde, o que nos levou a fazer essa aquisição, foi a questão da atenção primária. Essas 16 mil pessoas compraram um produto que tinha atenção primária. Alice e QSaúde fazia um baita sentido, já que ambas têm a mesma proposta de valor da atenção primária. Para nós, era uma carteira interessante que tem a ver com a nossa filosofia. Daqui para frente é crescimento orgânico. Em agosto, por exemplo, a gente trouxe quase mil vidas novas para a carteira, das quais 70% são de empresas.

Vocês já estão com 3,5 anos de operação. Nesse tempo já deu para atingir o break even?

Ainda não. É algo que entre 1,5 ano e 2 anos, se a gente quiser, a gente faz. Depende do quanto você investe para crescer.

O chamado custo/efetividade que você menciona é sua principal estratégia para crescer ou há outros mecanismos?

A gente acredita muito em custo/efetividade. Tem muito desperdício no sistema de saúde. Estudos apontam que em torno de 40% do que é feito no mundo em termos de procedimentos no sistema de saúde é desperdiçado. Ou seja, não precisaria ser feito, em primeiro lugar. Isso significa que os planos de saúde poderiam ser entre 30% e 40% mais em conta, o que aumentaria a base de usuários. Acreditamos muito nessa visão de redução do desperdício e aumento do custo/efetividade.

Vocês têm investidores por trás da Alice. Quanto já levantaram com esses fundos?

Levantamos quase R$ 1 bilhão entre Seed até a Série C. A gente segue bem capitalizado. O setor de saúde tem problemas muito grandes. Sempre falo que onde há um problema muito grande, há muita oportunidade. A saúde é um dos três grandes problemas do mundo. Todos os investidores do mundo têm o olhar para o setor, principalmente o investidor de capital de risco. Aí é achar o time, a visão e a tese que eles acreditam para investir.

Você é muito jovem ainda. A Alice foi criada para crescer e ser vendida daqui um tempo ou você acredita na causa e quer ficar?

André (Florence), Matheus (Moraes) e eu somos muito claros em relação a ter este como um projeto de vida. Construímos a Alice para ser o nosso último emprego. Não queremos trabalhar em outro lugar que não seja a Alice. E a gente não vai parar de trabalhar. Queremos ficar velhinhos trabalhando aqui, de verdade. O problema da saúde é muito grande e não tem fim. Dá pra construir uma vida, décadas e décadas tentando resolver esse problema, fazendo pequenos progressos e melhorando. Nossa visão é que a Alice realmente transformará o sistema de saúde no Brasil no longo prazo.

Quem contrata hoje a Alice e quais os benefícios para uma empresa?

Quem contrata são, principalmente, as PMEs, de dois a mil funcionários. A empresa vê na gente, e eu já ouvi isso de muitos gestores de RH, a potência do nosso app, com o histórico da saúde do funcionário e o canal de comunicação direto. Dessa forma, o funcionário fala com a Alice de forma rápida e fácil sobre assuntos de saúde, questões operacionais, informações de boleto. Isso tira um fardo do RH porque, muitas vezes, o funcionário precisa acionar o RH para que ele acione o corretor de seguros, que vai então acionar a seguradora. Nós construimos um canal de comunicação direto. Isso traz eficiência. Outro ponto é o nosso portfólio de produtos, entre 5% e 15% mais em conta que produtos similares.

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