As indústrias do futuro

Os mercados e os modelos que estão redefinindo os negócios, por Alec Ross

Publicado em 21 de dezembro de 2020

Ideias centrais:

1 – Há que investir em áreas de crescimento, como a robótica, mas também num enquadramento social que garanta que aqueles que perdem seu posto de trabalho conseguem manter-se à tona até que arranjem novas funções em outros setores.

2 – Há um lado negro da genômica: uma das principais apreensões é que, além de ajudar na luta contra o cancro e outras doenças, a genômica pode dar início a um processo de criar bebês sob medida, com sérios riscos para a ética.

3 – A bitcoin nasce de uma comunidade que não confia na ordem antiga. Procura estabelecer um sistema financeiro baseado na confiança mútua, sustentando-se em algoritmos e na encriptação.

4 –A cibersegurança tornou-se uma função tão essencial que todos os presidentes dos conselhos de administração das empresas Fortune 300 devem garantir que um dos administradores é um ciberespecialista.

5 – Muitos acreditam que, contrariamente à concentração em Silicon Valley, os big data servirão de ferramenta de ampla aplicação que todas as indústrias existentes podem utilizar em benefício de seu crescimento.

Sobre o autor:

Alec Ross é grande especialista em inovação. Durante quatro anos foi consultorsênior para Inovação na Secretaria de Estado, sob Hilary Clinton. Atualmente, é Distinguished Visiting Fellow da Universidade Johns Hopkins.

Introdução

Este livro explora as indústrias que serão a força motriz dos próximos 20 anos de mudança nas nossas economias e sociedades. Os seus capítulos estão estruturados em torno das indústrias-chave do futuro (robótica, ciências da vida avançadas, codificação do dinheiro, cibersegurança e big data), bem como dos contextos geopolíticos, culturais e geracionais, dos quais estão a nascer. Estas indústrias foram selecionadas, não apenas porque são importantes por direito próprio, mas também porque são igualmente simbólicas de tendências globais mais abrangentes e simbióticas entre si.

Ao longo de todo o livro, exploramos a competitividade – o que é preciso para as sociedades, as famílias e os indivíduos prosperarem. Entre os países e empresas mais inovadoras do mundo está a emergir um consenso cultural sobre a melhor forma de fortalecer o seu recurso mais crítico: as pessoas. E não existe maior indicador de uma cultura inovadora do que a capacidade das mulheres. Integrar plenamente e capacitar as mulheres, tanto a nível econômico como político, é o passo mais importante que um país ou empresa pode tomar para fortalecer a sua competitividade.

Por fim, este livro assume uma perspectiva de futuro, explorando as intervenções que podemos operar na vida dos nossos filhos para os preparar da melhor forma para serem bem-sucedidos num mundo de crescente mudança e concorrência. Podemos tirar partido da sabedoria dos inovadores que abordamos nestas páginas para nos prepararmos, a nós e aos nossos filhos, para o que está para vir na próxima economia – para a economia que começa agora.

Capítulo 1 – Os robôs estão chegando

As empresas japonesas rivais Toyota e Honda estão a fazer uso dos seus conhecimentos em engenharia mecânica para inventar a próxima geração de robôs. A Toyota construiu uma assistente de enfermagem chamada Robina, um modelo baseado na Rosie, a ama-robô e governanta da série de desenhos animados Os Jetsons – no âmbito da Partner Robot Family, uma linha de robôs com o intuito de cuidar da crescente população geriátrica mundial. A Robina é um robô “mulher”, pesa 60 quilos, tem 1,2 metros de altura e consegue comunicar usando palavras e gestos. Tem olhos grandes, um penteado redondo com franja e até uma ondulante saia metálica.

Robô astronauta em missão

Em resposta, a Honda criou o robô ASIMO (Advanced Step in Innovative Mobility), um humanoide totalmente funcional com a aparência de um astronauta de 1,20 m que ficou preso na Terra. O ASIMO é suficientemente sofisticado para interpretar emoções humanas, movimentos e conversas. Equipado com câmaras que funcionam como olhos, o ASIMO consegue seguir comandos de voz, dar apertos de mão e responder a perguntas, acenando com a cabeça ou com voz. Até se curva para cumprimentar as pessoas, demonstrando conhecer as boas regras de educação japonesas.

O Japão já é o líder mundial em robótica, operando 310.000 dos 1,4 milhões de robôs industriais existentes em todo o mundo. Está a dirigir a sua atenção para os robôs de cuidado a idosos, em parte porque tem de o fazer e, em parte, porque tem a singularidade de estar numa excelente posição para impulsionar a sua avançada tecnologia industrial e a aplicar na longa linha de montagem que é a vida humana. Mas será que os robôs conseguem mesmo cuidar dos humanos?

China entrando no circuito

Alguns países começaram desde já a estabelecer-se como sociedades líderes em termos de robótica. Cerca de 70% das vendas totais de robôs ocorrem no Japão, na China, nos Estados Unidos, na Coreia do Sul e na Alemanha – conhecidos como os “cinco grandes” da robótica. O Japão, os Estados Unidos e a Alemanha dominam a paisagem dos robôs industriais e médicos de elevado valor, ao passo que a Coreia do Sul e a China são grandes produtores de robôs menos dispendiosos e orientados para o consumidor. Embora o Japão registre o valor mais elevado em vendas de robôs, a China representa o mercado em mais rápido crescimento, vendo as suas vendas aumentar 25 por cento todos os anos desde 2005.

Robôs e a questão dos empregos

Há que investir em áreas de crescimento, como a robótica, mas também num enquadramento social que garante que aqueles que perdem o seu posto de trabalho conseguem manter-se à tona durante tempo suficiente para se voltarem para as indústrias ou funções que oferecem novas possibilidades. Muitos países, em especial no Norte da Europa, estão a reforçar a rede de Segurança Social para que os trabalhadores deslocados mantenham a esperança de reemergir numa nova área. Isto implica pegar em alguns dos bilhões de riqueza que serão gerados no domínio da robótica e reinvesti-los na formação e no desenvolvimento de competências de taxistas e empregados de mesa arrebatados ao seu espaço.

Capítulo 2 – O futuro da máquina humana

A investigação genômica tem avançado a passo acelerado, ainda desde Gregor Mendel, um monge checo que descobriu as bases da hereditariedade em meados do século XIX. Mas a grande descoberta que colocou a genômica em rota de colisão com a medicina ocorreu em 1995, quando se sequenciou pela primeira vez o genoma de um organismo vivo – a Haemophilus influenza, uma bactéria que provoca infecções graves, normalmente em crianças.

Sequenciação do cancro

Inicialmente, Bert Vogelstein e Luis Diaz conseguiram progressos  respeitáveis nos seus esforços, mas, para poderem avançar para uma fase em que o seu trabalho tratasse de muitas pessoas que dele precisavam, não se limitando a funcionar no laboratório para fins acadêmicos, constataram que precisavam apelar às forças do mercado privado. Assim, em 2009, Diaz e alguns colegas da Johns Hopkins lançaram a Personal Genome Diagnostics, a PGDx, na qual Vogelstein trabalha como “consultor científico fundador”. A PGDx oferece agora uma sequenciação do cancro semelhante à aplicada a Lukas Wartman e possui igualmente uma seção de investigação.

Diaz é absolutamente franco: “Vamos ter muito boa compreensão das vias ativadas pelo cancro e esperamos vir a ter fármacos modificados que consigam derreter o cancro até desaparecer. Esse é que é verdadeiramente o objetivo… E vamos demorar cerca de vinte a trinta anos, se não menos.”

Genômica: criar bebês à medida?

Há um lado negro da genômica, reconhecido até pelos cientistas mais envolvidos nesta área. Uma das principais apreensões, e algo que preocupa pessoalmente Luis Diaz, é que, à medida que for ficando mais sofisticada, a genômica dê início a um processo de criar bebês à medida. “A sequência [genômica] vai informar as pessoas acerca dos riscos que transportam. E esses perfis de risco dir-lhes-ão, bom, tens uma predisposição para doenças do coração”, conta Diaz. “Dir-lhes-ão que vão ter 1,65 m de altura. Vais ter provavelmente cerca de 80 quilos. Vais ser um dos melhores corredores de pista da tua categoria. Vais jogar basquetebol. Vais ter talento para matemática.”

Telecomunicações móveis para a vida

Uma das formas mais interessantes de utilizar as telecomunicações móveis para fazer face a problemas de saúde no mundo e desenvolvimento tem origem uma empresa chamada Medic Mobile. Tive a oportunidade de conhecer Josh Nesbit, com 37 anos de idade e CEO da Medic Mobile, quando estávamos numa empresa no meio de uma selva na Colômbia, no último reduto dos guerrilheiros das Farc. Josh era o especialista em comunicações móveis que havíamos trazido para participar num programa do Departamento de Estado em colaboração com os militares colombianos e estava a formar intervenientes locais sobre o modo de utilizar dispositivos móveis para mapear minas terrestres na zona e reduzir a perda de vidas e de membros.

Capítulo 3 – Codificação do dinheiro, dos mercados e da confiança

Com o Square, os clientes podiam pagar (e os comerciantes podem vender) usando telemóveis ou tablets. A primeira iteração envolvia um pequeno dispositivo quadrado que se podia inserir no telefone para processar um pagamento com cartão de crédito – bastava passar o cartão num leitor do Square. As novas iterações do Square nem sequer têm uma ranhura onde inserir o cartão no dispositivo com o formato que lhe dá o nome. Tudo o que temos de fazer é segurar o telemóvel para que seja lido por um dispositivo da caixa; não é preciso abrir a carteira. Muitas empresas de marca, ansiosas por reduzir os tempos de espera dos clientes, adotaram esta tecnologia. Entre em qualquer Starbucks e veja como os sucessivos consumidores de café usam o Square para entrar, sair e reabastecer de cafeína mais rapidamente.

Alibaba encarando Paypal

Embora o eBay e o PayPal representem as manifestações americanas originais desta tendência, o que está para vir será muito mais global. Uma das primeiras será a Alibaba, com sede em Hangzhou, na China,que conta atualmente com mais de 26.000 colaboradores em todo o mundo e opera em 48 países de toda a Ásia, África, Europa, Américas e Médio Oriente. O seu sistema Alipay realiza 2,85 milhões de transações por minuto, assumindo assim uma maior dimensão do que o PayPal ou o Square.

África e a tecnologia digital

O programa M-Pesa, no Quênia, é um exemplo acabado destas novas tecnologias que nos mostram o crescente poder do dinheiro e dos mercados codificados. Pesa significa “dinheiro” em suaíli, e o “M” significa móvel. Em comunidades em que é raro haver contas bancárias, com o M-Pesa os clientes podem enviar e receber pagamentos através dos telemóveis. No Quênia, o M-Pesa teve um sucesso imenso. Em 2012, haviam sido criados 19 milhões de contas M-Pesa num país com 43 milhões de pessoas, e cerca de 25 por cento do PIB do Quênia passava por esta rede.

Será que uma moeda conseguiria quebrar este elo tradicional com o Estado-nação? Poderia a tecnologia digital ir ao ponto de substituir os bancos ou os governos como árbitros da confiança e de criar um novo protocolo para a realização de negócios em todo o mundo?

Bitcoin: moeda digital

A bitcoin, uma nova moeda transnacional lançada em plena crise financeira em 2008-2009, oferece um caso de estudo para o futuro da moeda, à medida que se intensifica a codificação do dinheiro. A bitcoin é uma “moeda digital” – uma moeda que é armazenada em código e transacionada online. É também uma “criptomoeda”, um termo usado com frequência de forma intermutável com “moeda digital”, mas que significa que a moeda utiliza métodos critptográficos numa tentativa de a tornar segura.

A bitcoin tornou-se a primeira criptomoeda do mundo a conseguir um uso generalizado. Embora existam dezenas de criptomoedas, é atualmente a maior e a mais influente. À primeira vista, a bitcoin é bastante parecida com o PayPal pelo fato de proporcionar uma forma de pagamento de bens online, sem necessidade de interação física. A bitcoin desenvolveu uma nova comunidade em torno de uma moeda online, tentando contornar as instituições estabelecidas.

Confiança em algoritmos e encriptação

A bitcoin representou um esforço diferente de recuperar a confiança no sistema financeiro. No modelo antigo, as instituições instaladas funcionavam como agente de confiança, protegendo as partes envolvidas contra a fraude. A bitcoin nasce de uma comunidade que não confia na ordem antiga. Procuram estabelecer um sistema financeiro baseado na confiança mútua, sustentando-se em algoritmos e na encriptação.

Capítulo 4 – A belicização do código

O Shamoon [ciberataque] foi concebido para apagar a memória do sistema informático da Saudi Aramco. Geralmente quando um ficheiro [arquivo] é apagado de um computador, é possível a sua recuperação. Para apagar permanentemente o conteúdo dos discos rígidos, o Shamoon escreveu novos dados inúteis sobre os dados originais, o que impediu a recuperação de quaisquer dos ficheiros afetados. Ao invés, quando uma pessoa tentava  abrir um ficheiro afetado, veria apenas um ícone de uma bandeira norte-americana a arder. Como medida adicional, o Shamoon também escreveu por cima do master boot record da Saudi Aramco, impedindo assim os computadores de reiniciarem.

Os líderes empresariais do mundo inteiro tomaram devida nota deste acontecimento. Se era possível a maior empresa do mundo sofrer um ciberataque enquanto funcionava num ambiente seguro, poderia na verdade acontecer em qualquer lugar e a qualquer um.

Conselhos com ciberespecialista

A cibersegurança tornou-se uma função tão essencial que todos os presidentes dos conselhos de administração das empresas Fortune 300 devem agora garantir que um dos administradores é um ciberespecialista. Há pouco mais de dez anos, tornou-se praticamente obrigatório todos os conselhos de administração incluírem um elemento especializado em auditorias. No espaço de apenas cinco anos, qualquer conselho de administração que não inclua um elemento especializado em cibersegurança será alvo de desconfiança quanto às suas capacidades de governo societário.

Tipos de ciberataque

Existem atualmente três tipos de ciberataque: ataques à confidencialidade, à disponibilidade e à integridade de uma rede. Os ataques que comprometem a confidencialidade visam roubar ou divulgar informação protegida, como números de cartões de crédito ou da segurança social, de um determinado sistema, de forma ilícita ou não autorizada. O retalhista Target foi vítima de um ataque à confidencialidade durante o período de Natal de 2013. Piratas acederam aos sistemas de pagamento da Target e conseguiram roubar números de cartões de crédito e de débito de mais de 40 milhões de clientes.

O segundo tipo de ciberataque afeta a disponibilidade da rede – trata-se de ataques normalmente conhecidos como ataques de negação de serviço (DoS, denial-of-service) ou ataques distribuídos de negação de serviço (DDoS, distributed denial-of-service). Os ataques de negação de serviço pretendem deitar abaixo uma rede, inundando-a com uma quantidade maciça de pedidos que tornam o sítio inoperável.

Por fim, os ciberataques podem também afetar a integridade de uma rede. Estes ataques assumem uma natureza mais física. Alteram ou destroem código informático, e a sua finalidade é normalmente causar danos em hardware, infraestruturas ou sistemas do mundo real… O ataque do Shamoon foi um exemplo de um ataque à integridade.

Capítulo 5 – Dados: matéria-prima da era da informação

A digitalização multiplicou as possibilidades de recolha de dados de uma forma impressionante. Noventa por cento dos dados digitais do mundo inteiro foram gerados nos últimos dois anos. Todos os anos, a quantidade de dados digitais cresce a um ritmo de 50 por cento. A cada minuto do dia, são enviados 204 milhões de e-mails, 2,4 milhões de conteúdos são publicados no Facebook, 72 horas de vídeo são publicadas no YouTube e 216.000 novas fotografias são publicadas no Instagram. As empresas industriais estão a incorporar sensores nos seus produtos para melhor gerirem as suas cadeias de fornecimento e a sua logística.

Quantidade e capacidade decisória

O valor dos big data depende em parte da quantidade de dados criados, mas tão ou mais importante é a nossa nova capacidade de tomar decisões mais inteligentes e mais eficientes. Os big data são ainda ajudados por novos desenvolvimentos na visualização dos dados, que permitem aos seres humanos ver e compreender padrões que poderiam  não ser perceptíveis numa folha de cálculo cheia de  números.

A história do impacto dos big data no mundo real até este momento consiste em grande parte em logística e persuasão. Tem sido ótima para cadeias de fornecimento, eleições e publicidade porque se trata geralmente de domínios com muitas ações pequenas, repetidas e quantificáveis – daí os “motores de recomendação” utilizados pela Amazon e pela Netflix.

Tradução, um produto de big data

A tradução automática de hoje é de longe mais rápida e eficaz do que o nosso antigo método do dicionário, mas ainda lhe falta rigor, funcionalidade e produtividade. Fundamentalmente, é pouco mais do que um problema de dados e processamento. Os tradutores profissionais argumentam que os dialetos locais, as inflexões e as nuances são demasiado complexos para que os computadores alguma vez venham a dar suficientemente conta do recado. Mas estão errados. As ferramentas de tradução atuais foram desenvolvidas mediante o processamento de mais mil milhões de traduções por dia para mais de 200 milhões de pessoas.

Agricultura: mais produção, menos poluição

A agricultura de precisão oferece uma solução alternativa. Em vez de cobrirmos um campo com uma quantidade fixa de fertilizantes, pesticida e herbicida, novos dados permitir-nos-ão reduzir significativamente a quantidade de químicos que colocamos nos campos agrícolas, o que por sua vez reduzirá a quantidade que acaba por ser lançada por sensores locais para determinar a quantidade exata de água e fertilizantes a utilizar, a agricultura de precisão encerra promessa de cultivo de mais alimentos com menos poluição, tudo com a ajuda de big data.

Big data: limitações

Por maiores que sejam as capacidades dos big data, continua a haver algumas coisas que não fazem bem e para as quais não se vislumbram grandes hipóteses de alcançar melhorias consideráveis num futuro próximo. Não vejo desenvolvimentos nos big data que possam alterar velhas banalidades como o fato de as máquinas fazerem bem coisas que são difíceis para as pessoas (como, por exemplo, trabalhar 24 horas seguidas ou resolver rapidamente um problema matemático complexo) e de as pessoas fazerem bem coisas que são difíceis para as máquinas (como, por exemplo, a criatividade e a compreensão de contextos sociais e culturais).

Capítulo 6 – Geografia dos mercados vindouros

Por mais de 20 anos, a enorme maioria dos melhores cientistas informáticos do mundo tem estado sediada em Silicon Valley. Podem ter nascido em qualquer lugar do mundo, mas vieram para Silicon Valley para estudar (Stanford ou Berkeley), trabalhar (criando um ciclo autopromotor que concentra o talento) e investir (sendo a oferta de Silicon Valley de longe a que proporciona o melhor acesso a capital inicial em todo o mundo). E foram integrados numa cultura e numa comunidade que atribuía ao engenheiro informático o mais alto nível de estatuto social. Silicon Valley não se tornou um simples velho centro industrial, mas numa espécie de farol – um local que prometia, não só oportunidades, mas também um sentido de pertença – e que continua a atrair vagas e vagas de empreendedores ambiciosos.

Silicon Valley: centro único?

Levanta-se assim uma questão interessante que consiste em saber qual será o grau de distribuição das indústrias do futuro. Quando um tipo de vinte e poucos anos como Zac Townsend decide fundar uma empresa e determina o que fazer, esta tem de estar na Califórnia, gera-se um ciclo que se autoperpetua. Em termos mais latos, a decisão de Zac de sediar a sua nova empresa financeira orientada para dados em Silicon Valley reflete um debate controverso sobre o modo como se desenvolverão as competências especializadas na indústria dos big data e que efeito isto terá na economia global em geral.

Duas respostas

E os investidores estão a apostar bem alto em duas respostas muito diferentes. Será que os big data servirão para centralizar os negócios, arrastando mais sectores para o campo gravitacional de Silicon Valley? Ou será que permitirão que mais empresas inovem, onde quer que estejam sediadas, criando na verdade mais oportunidades, em mais locais por todo o mundo, do que era possível até agora?

Num dos lados do debate posiciona-se Charlie Songhurst, que encara Silicon Valley como um império global em expansão.

Big data como ampla ferramenta

Existe contudo um público cada vez maior que não partilha da opinião de Charlie Songhurst. Acreditam que os big data, em vez de absorverem e suplantarem outras indústrias, servirão de ferramenta de ampla aplicação que todas as indústrias existentes podem utilizar para impulsionar o seu crescimento. A ideia consiste em que os dados se tornarão utilizáveis de uma forma cada vez mais ampla e que serão suficientemente escaláveis ao ponto de não existir uma especialização semelhante à de outras indústrias de difícil acesso no futuro, como é o caso da genômica e da robótica.

Potencial do Brasil

O Brasil, que, devido à sua dimensão, tem o maior potencial de qualquer outro país daquele continente, está a tentar desenvolver o seu próprio modelo, mas, tal como a Índia, tem dificuldade em acertar no modelo mais adequado. No início do século XXI, o Brasil fez um trabalho impressionante ao criar uma trajetória que permitiu que mais de 35 milhões de pessoas transitassem da pobreza para a classe média, mas o país está ainda atrasado na possibilidade de um maior crescimento pelo seu elevado grau de mercantilismo – persiste um modelo econômico maníaco do controlo, que impõe tarifas rígidas às importações, e um controlo estatal sobre a atividade econômica que envolva não brasileiros.

Colaboração das mulheres

Tratar bem as mulheres não é apenas a atitude correta: faz todo o sentido sob o ponto de vista econômico. As mulheres compõem metade da população ativa de um país – ou da população potencialmente ativa. Para um país ser próspero e competitivo, é preciso que tenha acesso ao conjunto de trabalhadores com a melhor educação. Se um país cortar pela metade a sua potencial população ativa, está a colocar-se automaticamente fora da arena. Os países que procuram eliminar o fosso entre gêneros são competitivos; são as nações do futuro, que educam os rapazes e as raparigas e garantem que todos os seus cidadãos são qualificados e estão prontos para a economia global.

Resenha: Rogério H. Jönck

Imagens: Reprodução de Unsplash

Ficha técnica:

Título: As indústrias do futuro

Título original: The Industries of the Future

Autor: Alec Ross

Primeira edição: Editora Atual