Brasil é top five em interesse de investidores em digital health

Em cinco anos, mercado de telemedicina deve movimentar até US$ 8 bilhões no país.

Publicado em 17 de julho de 2019

Wearables, biossensores, inteligência artificial e IoT (Internet das Coisas). Os termos do mundo digital invadiram a medicina e prometem revolucionar a área em um futuro próximo. O Brasil já teve um boom de startups ligadas à saúde nos últimos três anos e o mercado não para de crescer.

Estima-se que mais de 200 novas empresas do segmento ou com um braço no setor, além de aplicativos, atuem no país, atraindo investimentos na ordem de US$ 1 bilhão em 2018, de acordo Guilherme Hummel, head mentor do eHealth Mentor Institute, entidade que faz mentorização corporativa a investidores, provedores e empresas consumidoras de eHealth, com atuação em 9 países (Brasil, Estados Unidos, Alemanha, Espanha, Israel, Chile, Suiça, Reino Unido e Portugal).

“O Brasil é um dos cinco países do mundo mais interessantes para se investir na área de digital health, porque tem demanda por serviço e produto. São mais de 203 milhões de habitantes com assistência clínica de baixa qualidade, pública e privada, e de baixa efetividade. Isso significa uma grande oportunidade de investimento”, afirma Hummel, que também é coordenador científico do HIMSS@Hospitalar, congresso de Digital Healthcare da Hospitalar, maior evento do setor de saúde na América Latina.

Este cenário abre inúmeras possibilidades para a telemedicina, como as consultas online.

Estimativa da OMS (Organização Mundial de Saúde) mostra que 60% dos problemas relacionados ao primeiro atendimento poderiam ser encaminhados via online.

No Brasil, há uma previsão de que até 2022, de 20% a 25% de todas as consultas médicas realizadas sejam feitas de maneira remota.

“Nos próximos 5 anos a área de telehealth deve movimentar entre US$ 7 e 8 bilhões de dólares somente no Brasil, sendo que a grande porta de entrada para transformações em larga escala será o modelo de consultas online ”, explica Guilherme Hummel.

Sangue “digitalizado”



De olho neste nicho, algumas startups também apostam no diagnóstico à distância. É o caso do Hilab, da startup paranaense de tecnologia médica Hi Technologies. O laboratório portátil conectado à internet oferece serviço de exames laboratoriais com uso de inteligência artificial. Com o Hilab, o paciente pode fazer exame de sangue em uma farmácia e ter o resultado em minutos. O método já está disponível em algumas das maiores redes de farmácias do País, como Nissei, Panvel, Araújo, São Bento e Pague Menos.

O exame é simples. Um profissional de saúde treinado faz um pequeno furo na ponta do dedo do paciente para coletar algumas gotas de sangue. A amostra é colocada em contato com os reagentes dentro de uma cápsula, inserida em um pequeno dispositivo. O aparelho cria uma “versão digital” da amostra que é transmitida instantaneamente, via internet, para a equipe de biomédicos em um laboratório físico, localizado em Curitiba, no Paraná. Com o auxílio de algoritmos de Inteligência Artificial própria, o laudo sai em minutos e é enviado ao paciente pelo smartphone, via SMS, ou no app Hilab.

O serviço já está disponível em 67 cidades de 17 Estados e tem mais de 1.000 profissionais de saúde cadastrados para fazer a coleta. Os custos caem drasticamente: os preços variam de R$ 15 a R$ 90. Alguns exemplos: o exame de Perfil Lipídico (colesterol) fica em torno de R$39,00 e o exame de TSH (Hipotireoidismo) sai em média R$32,00. O da Zika, que custa na maioria dos laboratórios particulares cerca de R$ 400, cai para R$ 90 no Hilab. O mais procurado é o de gravidez (R$30).

“Justamente porque as mulheres quando desconfiam de uma possível gravidez vão até a farmácia comprar o teste de urina. É nessa hora que elas conhecem o Hilab e acabam optando por realizar um exame de sangue e receber o laudo em apenas alguns minutos”. [autor]Marcus Figueredo, CEO da Hi Technologies.[/autor]

Os exames sazonais, como o de Dengue, ficam em segundo lugar entre os mais procurados.

Segundo Figueredo, os exames feitos via Hilab são tão seguros quanto os feitos em laboratórios, seguindo padrões de qualidade, com certificação da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Tem ainda a Controllab como fornecedora de ensaios de proficiência e controles internos.

Inteligência artificial também está no foco da gigante GE Healthcare. Apresentada no RSNA, maior evento de radiologia e diagnóstico por imagem do mundo, em Chicago (EUA), em novembro de 2018, a Plataforma Edison da GE é composta por aplicativos e dispositivos que permitem a integração e a assimilação de dados de fontes distintas, resultando em análises avançadas e mais rápidas, por meio de inteligência artificial.

Na prática, a plataforma transforma dados em informações clínicas valiosas e ajuda médicos a melhorar a consistência nos exames, bem como detectar e priorizar casos mais graves. “Aplicações nas áreas de radiologia, cardiologia e cuidados críticos já estão em uso pelo mundo por conta da atuação global da companhia”, comenta Paulo Banevicius, diretor de Soluções Digitais da GE Healthcare para a América Latina. Para o Brasil, a introdução dos aplicativos baseados na plataforma Edison ainda está em fase de planejamento pela GE Healthcare.

“O maior desafio é a educação para a adequada adoção. Como toda nova tecnologia, é comum haver uma certa desconfiança e resistência no início, mas que com a devida maturidade transformará a forma que o sistema de saúde opera”, reforça Banevicius.

Texto: Andrea Martins

Imagens: Unsplash