“China precisa fazer parte do curriculum escolar no Brasil”

“China precisa fazer parte do curriculum escolar no Brasil”

Ricardo Geromel, sócio e líder da StarSe na China, alerta para urgência do país em saber mais sobre o gigante asiático

Publicado em 7 de outubro de 2019

Há dez anos vivendo entre Hong Kong e os principais polos econômicos da China insular, Ricardo Geromel é um dos brasileiros com mais profundo conhecimento sobre a cultura e a visão de desenvolvimento do gigante asiático. Sócio e líder da StarSe na China, além de colaborador da revista Forbes desde 2011, Geromel acredita que o Brasil não pode mais se manter tão distante do que acontece do outro lado do mundo.

“Mesmo tendo feito um excelente colégio, tudo o que eu aprendi da China na escola foi sobre a Guerra do Ópio. Eu acho que a China deveria fazer parte do curriculum escolar básico”, destacou Geromel, em apresentação no CFO Lab realizada pelo Experience Club em 7 de outubro, na Casa Charlô, em São Paulo. Para ele, executivos de grandes organizações e empreendedores também não podem mais se dar ao luxo de ter uma visão superficial do país, que acaba de celebrar 70 anos da revolução comunista com uma colossal demonstração de força em desfile na Praça da Paz Celestial, em Pequim (foto no alto).

“Nós compramos o sonho americano, mas não temos ideia do que seja o sonho chinês”.

Um dos fatores mais importantes para o entendimento da China é como uma parte significativa da economia do país está orientada ao empreendedorismo digital. Enquanto as startups chinesas recebem investimentos equivalentes a 1,5% do PIB – e a Índia não fica distante, com 1,2% – o Brasil não passou ainda de 0,2%.

Não é por acaso que a China possui mais de 200 unicórnios, sendo mais de 20 fintechs, ainda não surgiram nem 10 unicórnios Made in Brazil.

Escala e Execução

Convidado para um debate com Geromel, Eduardo Gouveia, ex-presidente de diversas empresas, como a Cielo, e atualmente investidor e presidente do conselho da status Hands, comentou sobre sua experiência recente na China. “O que mais me chamou a atenção é como a cultura chinesa está orientada à escala, como seria natural, mas com muito foco na execução”, afirmou.

Na visão de Geromel, esse é outro fator de difícil entendimento para os ocidentais em geral, o conceito de trabalho 996: carga horária das 9h às 21h, seis vezes por semana. “O ritmo é muito mais intenso, rápido e orientado aos negócios do que aqui”.

O desafio agora do governo chinês é estimular o consumo, para que o país enfrente o processo de desaceleração de uma economia baseada em infraestrutura para um modelo que reforce o mercado interno e o poder de compra dos trabalhadores e da classe média, estimada em diferentes critérios em algo entre 200 milhões e 600 milhões de chineses.

As enormes diferenças, assim como a complementaridade das economias, fazem com que o Brasil tenha muito a aprender com a China, sem perder a sua identidade, avalia Gouveia. “O modelo chinês não será o modelo para o Brasil. Nós temos que ir lá para saber hoje como será o futuro daqui a cinco anos, voltar e adaptar esse aprendizado para a nossa cultura”.

Texto: Arnaldo Comin

Imagens: Marcos Mesquita | Experience Club e Xinhua Press