CHROs debatem o custo do endividamento dos colaboradores para as organizações

Monica Miglio Pedrosa
Mais da metade dos trabalhadores (53%) chega ao fim do mês sem dinheiro suficiente para pagar as contas e 47% das pessoas nessa situação recorrem a recursos adicionais para tentar equilibrar o orçamento. Entre os trabalhadores que possuem crédito consignado, 83% têm praticamente toda a renda comprometida com essa dívida.
Os dados são da edição 2026 da Pesquisa da Saúde Financeira e Bem-estar do Trabalhador Brasileiro, da Serasa Experian, e foram apresentados por Ricardo Natale, CEO do Experience Club, na abertura do painel que reuniu os líderes de pessoas Fernando Meller, Tina Barcellos, da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) e Rodrigo Ladeira, da Athena Saúde, para discutir o tema.
O endividamento é hoje um dos temas mais sensíveis para as organizações brasileiras, já que afeta diretamente a produtividade e a saúde mental dos trabalhadores. Para as empresas, seus efeitos podem incluir desatenção, acidentes de trabalho e aumento do turnover e do absenteísmo. As faltas costumam ocorrer a partir do meio do mês, quando o dinheiro do salário já acabou e muitos trabalhadores precisam buscar renda extra em atividades paralelas, como dirigir para aplicativos ou prestar pequenos serviços.
Confira, a seguir, os melhores momentos do debate.
Sobre o cenário de endividamento
[Fernando Meller] Esse não é um assunto novo para as organizações. Quando 83% das pessoas com crédito consignado têm mais de 80% da sua renda comprometida com o pagamento da dívida, o que sobra no final do mês? Nada ou quase nada. Nós temos um desafio gigantesco de produtividade que se tornou ainda maior com a recente mudança da escala de trabalho [a aprovação do fim da escala 6×1, que deve entrar em vigor em 60 dias]. O assunto produtividade nunca foi tão importante no Brasil como agora.
[Rodrigo Ladeira] Esse tema vai muito além do endividamento dos colaboradores. Estamos com um risco econômico e operacional que talvez não esteja devidamente precificado nas organizações. Um problema muito sério, que ainda está aparecendo como custo invisível. Aqui na Athena Saúde, essa questão do endividamento apareceu como um problema de futuro. Estamos levando esse risco para o conselho. Cada vez mais o pilar da saúde mental e da produtividade, o pilar da educação e o da gestão financeira dos colaboradores está afetando a longevidade do nosso negócio.
[Tina Barcellos] Esse é um tema importante e delicado, pois não está 100% na mão da empresa resolver, mas tem um impacto muito grande em produtividade. Esse risco precisa ser apresentado para o conselho com dados e algumas ações que enderecem a solução. Deve haver um acompanhamento contínuo e ajustes de rota, quando necessário. Essa preocupação já está chegando por meio dos próprios conselheiros, impactados com o endividamento causado pelas bets no Brasil. Isso só aumentou o tamanho do problema.

Indicadores e mecanismos de atuação
[Meller] O desafio de toda empresa é maximizar seus resultados. Para isso, os colaboradores precisam estar focados, trabalhando com o máximo de produtividade e qualidade. Turnover, absenteísmo e reclamatória trabalhista são alguns dos indicadores que nos permitem acompanhar o impacto no resultado do negócio. Nos últimos meses, notamos um aumento no absenteísmo em determinados momentos. As pessoas faltam para fazer alguma atividade paralela, geralmente a partir do meio do mês. Já a reclamatória trabalhista passou a vir com um pedido de rescisão indireta, quando o colaborador entra na Justiça pedindo para ser desligado.
Os dados mostram que o endividamento é, em média, dez vezes o salário do colaborador. Com juros que já chegaram a 19% ao mês, hoje regulado em 5,9%, é difícil sair desta situação sozinho. Quando ele pede para sair do emprego, tem a falsa ilusão de que vai se livrar da dívida com o dinheiro da recisão, o que nem sempre é verdade.
[Tina] Temos duas grandes barreiras neste tema. A primeira é a vergonha de admitir o endividamento. A outra é o medo do que pode acontecer se a empresa descobrir o nível da dívida. Outra questão é que dependemos da livre iniciativa do colaborador para pedir ajuda nesta questão. Aí é que entra a educação financeira, no sentido de as pessoas entenderem o que é um planejamento financeiro, o que é um comprometimento de dívida, o que são os juros da dívida. O colaborador normalmente só olha se a parcela vai caber no orçamento.
A outra frente é atuar de forma mais individualizada, porque a pessoa não sabe como sair dali. Isso não é um assunto para o gestor, pois quem está endividado fica com ainda mais receio de falar com o líder direto. É preciso ter canais onde as pessoas se sintam confortáveis em falar sobre isso. Também é comum precisar envolver a família, porque às vezes a origem do endividamento está lá.
[Ladeira] A uberização do trabalho é uma das respostas dos colaboradores ao endividamento. Uma vez peguei um Uber, durante um deslocamento de trabalho, e descobri que o motorista era um profissional nosso que deveria estar em home office. Imaginem a situação. Vai ser cada vez mais normal isso acontecer, porque a partir do 15º dia do mês o colaborador endividado busca novas fontes de renda para equilibrar o orçamento. É preciso entender o contexto, que é crítico. Mas isso não justifica a pessoa estar trabalhando em outro lugar, é preciso uma medida disciplinar por parte da instituição quando isso acontece. Sem dúvida é algo preocupante e que faz parte do dia a dia do nosso negócio.
[Meller] Nosso custo de turnover é algo em torno de R$ 25 mil por colaborador. Fazendo uma conta simples, se temos cerca de 40 milhões de empregados de acordo com dados do CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), com 40% de turnover ao ano temos 16 milhões de pessoas que trocam de emprego todos os anos. Isso dá um custo de turnover de R$ 400 bilhões. Diminuir o endividamento e derrubar as taxas de juros podem ajudar as pessoas a permanecerem mais tempo no emprego.

Propostas de saída
[Ladeira] Entendemos que saúde, educação e gestão financeira são três pilares fundamentais que impactam na performance. O planejamento do orçamento normalmente é feito em família. Por isso, percebemos que o alcance dos nossos programas de educação financeira é de certa forma limitado e estamos pensando em como compartilhar esse conhecimento com cônjuges ou pessoas que influenciam no orçamento familiar do colaborador. Muita gente sugeriu incluir os filhos nessa educação financeira. Outro ponto importante é a escolha dos parceiros que dão esses cursos. Eles devem ajudar as pessoas a serem mais autônomas, não devem vender produtos financeiros, o que agrava ainda mais a situação.
[Tina] Tem um aspecto importante nisso que quero trazer. Os temas produtividade e bem-estar tendem a ser pensados como coisas antagônicas. Se você foca em bem-estar é contra a produtividade e vice-versa. Eu acreditava, assim que assumi como líder, ainda jovem, que a pessoa tem que deixar os problemas pessoais fora da empresa. Isso é impossível, ninguém consegue separar o pessoal do profissional. A partir do momento que a pessoa está ali, a empresa se torna responsável pela segurança desse colaborador. Isso vira um problema de negócio. É preciso trazer soluções de baixo custo e alto impacto, como conhecimento sobre educação financeira e acesso fácil a crédito para quem já está com o problema instaurado.
[Meller] Em um cenário de alto custo de vida, dar mais peso ao benefício alimentação pode ser uma saída interessante. Hoje ele passou a ter um peso maior para os colaboradores, porque o dinheiro do salário dele já está comprometido. Ao poder levar mais alimentos para casa, aumenta sua percepção de valor.
[Ladeira] No caso da Athena, vimos que só o aumento salarial não resolveu o problema. Um decreto regulamentou o piso nacional para enfermagem, independentemente do custo de vida da região onde a pessoa mora. Mesmo com esse aumento, percebemos que o nível de endividamento aumentou. Não quero dizer que a remuneração não seja importante, mas é preciso pensar em outros mecanismos. Estamos trabalhando muito fortemente na educação financeira, no acesso ao crédito. Além disso, não são apenas as pessoas com salários baixos que estão endividadas. Colaboradores que ganham na faixa de R$ 20, R$ 25 mil também estão, por motivos diferentes. O cenário é crítico de verdade e as empresas ainda não estão precificando isso em seus modelos de negócio.

A importância da liderança
[Meller] Na indústria, quem está na frente da operação todos os dias é o supervisor. E ele é quem menos atenção recebe nos programas de desenvolvimento de liderança. O supervisor precisa conhecer seus liderados, sua história e entender o contexto em que ele está atuando. Quando uma pessoa está com baixa produtividade, ou desmotivada, pode estar passando por um problema muito sério em casa, seja de endividamento, seja uma questão de saúde familiar. Os programas de desenvolvimento precisam atuar mais fortemente na capacitação destes supervisores.
[Tina] Isso me lembra um saudoso amigo que falava que “contratamos o Robin e pedimos para ele ser o Batman”. Na indústria, como um supervisor irá cuidar de 100 pessoas, dar feedback para todos? Aí entra a responsabilidade da empresa de criar uma estrutura que gere condições para isso acontecer. A empresa precisa saber lidar com pessoas que estão emocionalmente abaladas por qualquer fator que seja, o endividamento é uma delas. Como criar um espaço em que ela possa levantar a mão e dizer que não está em condições de fazer o trabalho em um determinado dia? Em ambientes industriais isso pode ser uma ameaça à segurança dos colegas.
Papel transformador do RH
[Ladeira] A empresa não controla a finança do colaborador, mas essa discussão de hoje tornou evidente que as empresas têm uma responsabilidade social muito grande. Eu tenho absoluta convicção que é de dentro para fora das organizações que a gente vai transformar nosso país de fato. Temos uma chance muito grande de o RH assumir um protagonismo de verdade na transformação do país. Acredito que a transformação não virá de fora para dentro. Ela virá de comunidades reais como a desses líderes de RH que estão reunidos aqui no RH Experience. Está nas nossas mãos fazer algo muito grande e contribuir de maneira estratégica para o futuro.
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