Como o iFood está redesenhando o trabalho na era dos agentes de IA

Monica Miglio Pedrosa
“Existem duas posições no iFood para as quais a empresa não pretende mais contratar”. A afirmação de Diego Barreto, CEO do iFood, revela o grau de transformação provocado pelos agentes de IA na companhia. Sem abrir quais seriam essas posições, ele ressaltou que a decisão não foi tomada com o objetivo de demitir pessoas, mas porque a tecnologia consegue assumir completamente essas atividades e a companhia precisa do conhecimento daqueles colaboradores em novas funções.
Esse grau de sofisticação só foi possível porque, em 2018, após uma viagem dos executivos do iFood à China, a empresa decidiu colocar a IA no centro de sua estratégia. Neste ano, os projetos prioritários da companhia envolvem o redesenho end-to-end do negócio, a partir de uma lógica conhecida como AI First Principles. “Se você estivesse começando hoje, com todas as ferramentas e tecnologias que tem à mão, como faria isso?”, é o direcionamento de Barreto para essa reestruturação.
Entre os resultados concretos dessa abordagem está a criação de um módulo de back-end em apenas dois dias, trabalho que antes levava três semanas. O desenvolvimento, no entanto, não foi realizado por um engenheiro. Para Barreto, o exemplo mostra como parte da especialização técnica está sendo transferida para as máquinas, permitindo que profissionais de outras áreas executem atividades às quais antes não teriam acesso.
Essa transformação também altera as competências valorizadas pela empresa. Para Diego, o profissional precisa ir além do conhecimento especializado e compreender a dinâmica dos sistemas, combinando profundidade com uma visão mais ampla do negócio, o que exige aprender em ciclos cada vez mais rápidos.
Responsabilidade pelo aprendizado
Quando se trata da capacitação de colaboradores, Barreto é absolutamente contrário ao modelo de empresas que tratam a educação como um benefício condicionado ao tempo de casa ou apenas disponibilizam cursos, sem acompanhar a adesão e seus efeitos sobre o desenvolvimento profissional. “A responsabilidade por estudar é da pessoa. Se ela não entende isso, é porque errei na contratação”, afirmou.
No mundo atual, em que os ciclos tecnológicos e de negócios estão cada vez mais curtos, esperar meses ou anos para capacitar um profissional significa perder o timing de aplicar aquele aprendizado. “Nesse mundo que estamos vivendo, não é possível aprender as coisas daqui a um ano. Nossa régua de capacitação é muito alta. Não aceitamos algo medíocre”, contou.
Para Diego, o iFood é “fanático” por capacitação. A liderança sênior viaja duas vezes por ano para estudar com algumas das principais referências internacionais em gestão e tecnologia. Em setembro, um grupo de 20 executivos seguirá para Boulder, no Colorado, onde passará quatro dias em uma imersão com Jim Collins, autor de livros como Empresas feitas para vencer.
A empresa também estimula ciclos muito mais curtos de aprendizado. Barreto contou que, ao descobrir uma nova aplicação de inteligência artificial de auto research, passou parte da noite estudando a tecnologia e deixou um agente trabalhando durante a madrugada. Depois de analisar os resultados, enviou um e-mail convocando 150 pessoas para se reunirem no iFood, no sábado pela manhã, e aprenderem sobre o recurso.
No iFood, o alinhamento com a cultura da empresa começa na contratação. Para posições a partir do nível de gerência, o gestor responsável pela vaga não toma sozinho a decisão final. O candidato é entrevistado por um profissional de outra área, que conduz uma conversa específica sobre cultura. A disposição para estudar continuamente é um dos aspectos avaliados. Para Barreto, o que diferencia os profissionais não é o nível de inteligência, mas a capacidade de adquirir conhecimento e transformá-lo em ação.
-
Aumentar
-
Diminuir
-
Compartilhar



