Depois do recuo estratégico, o salto em escala da Cortex

Companhia recebeu no final de 2020 a maior rodada de investimento em big data e AI da América Latina e pretende dobrar de tamanho em 2021

Publicado em 7 de julho de 2021

Apontada como uma das 17 startups candidatas a unicórnio pelo Distrito – ecossistema que monitora mais de 13 mil startups na América Latina – a Cortex é a martech (startup da área de marketing) que recebeu a maior rodada de investimentos em big data e inteligência artificial da América Latina. Softbank, Riverwood e Redpoint investiram R$ 170 milhões na scale-up, no final de 2020, e deram impulso extra ao negócio.

Dona de uma plataforma de software as a service (SaaS) de big data analytics, a Cortex provê soluções de inteligência de crescimento (growth intelligence) para as áreas de marketing, comunicação e vendas de grandes empresas. Entre seus clientes estão Unilever, Roche, Visa, Claro e L’Oreal.

“Hoje, as soluções para inteligência de vendas já representam 30% de nossa receita, mas a aquisição recente da start-up ITB360 veio para impulsionar ainda mais esta oferta”, conta Daniel Pires, fundador e CoCEO da Cortex, que este ano planeja dobrar de tamanho.

Para de chegar ao estágio atual de desenvolvimento e velocidade de crescimento, no entanto, a empresa teve que tomar decisões difíceis e arriscar uma posição confortável no mercado, conta o empresário.

Em 2012, a Cortex era uma consultoria de serviços, com cerca de 80 funcionários e grandes clientes. Mas perecebeu, em um programa de duas semanas no Vale do Silício, que tinha na nova economia oportunidades muito maiores do que as exploradas até então.

“Para deixar de ser uma empresa de serviço e virar uma empresa de produto tivemos que tomar decisões difíceis. Abrimos mão de clientes que geravam R$ 3 milhões ao ano para a construção de um futuro mais escalável e focado”, conta Pires.

Confira a seguir os principais insights da entrevista com o empresário:

1 – Família e universidade atiçaram veia empreendedora

“Sou formado em engenharia elétrica pela PUC-RJ e tenho MBA pela COPPEAP/UFRJ. Meu pai é músico e minha mãe produtora de cinema e de eventos esportivos”.

“Desde cedo, comecei a trabalhar com eventos esportivos, como vôlei de praia e a maratona do Rio de Janeiro. Mas foi na PUC-RJ, onde tive a experiência de gerir a empresa júnior da universidade e trabalhei com meu sócio, Leonardo Costa Rangel, que começou a gênese da Cortex”.

“Iniciamos como uma empresa de serviços de consultoria na área de inteligência de mercado. Já tínhamos tecnologia proprietária para automatizar e sistematizar o monitoramento de informações e análise de dados externos para tomada de decisão de grandes empresas.”

2 – Oportunidade de mercado

“Em 2004, não existia ainda Big Data, mas já trabalhávamos com dados externos desestruturados na internet. Na universidade, as tendências de mercado são discutidas com antecedência, mas poucas vezes viram um business consolidado”.

“No caso da Cortex, vimos demanda por parte das empresas, que costumam ter dificuldades em estruturar os dados internos e extrair inteligência deles. Quando se fala em dados externos então é muito mais desafiador”.

“Nessa época, já existiam softwares transacionais – ERP, CRM e BI – mas o mundo externo estava ficando cada vez maior e mais complexo, a Internet se popularizando e o volume e variedade de dados disponíveis crescendo exponencialmente”.

“Foi aí que vimos a oportunidade de simplificar a complexidade de dados desse mundo externo para extrair tendências de mercado que auxiliam os negócios.”

3 – A grande transição de modelo de negócio

“Na primeira etapa da Cortex, estávamos consolidados e escalando como consultoria de serviços com grandes clientes. A equipe tinha cerca de 80 funcionários e crescíamos de forma consistente ao longo dos anos”.

“Até que fomos selecionados para passar duas semanas no Vale do Silício, em 2012, por meio de um programa para startups da Microsoft. Lá veio a fagulha da mudança. Entramos em contato com um ecossistema onde as empresas recebiam muito dinheiro de venture capital e queimavam caixa antes de consolidar o modelo de negócio”.

“Nós já éramos grandes, geradores de caixa e dávamos lucro. Ali vimos que tínhamos um potencial para ser globais e escalar de uma forma impressionante, mas para isso teríamos de mudar nosso modelo de negócio”.

“Ao voltar para o Brasil, eu e Leonardo conversamos muito para decidir se continuávamos do jeito que estávamos, com crescimento linear, ou arriscávamos tudo para construir algo realmente impactante a nível global. Decidimos arriscar.”

4 – Decisões difíceis

“Captamos uma rodada seed de investimentos e aplicamos 100% no desenvolvimento do produto. Já tínhamos um framework tecnológico que era customizado projeto a projeto, mas agora desenvolvemos um produto único, escalável e bem empacotado”.

“Para deixar de ser uma empresa de serviço e virar uma empresa de produto tivemos que tomar decisões difíceis. Abrimos mão de clientes que geravam R$ 3 milhões ao ano para a construção de um futuro mais escalável e focado”.

“A gestão do portifólio de clientes foi dura, tivemos que migrar o modelo de atendimento ou abrir mão do contrato. Mas a parte que mais subestimamos foi a virada de cultura e de time”.

“Achamos que precisaríamos de um ano, mas levou dois anos e meio. Tivemos que reescrever a estrutura organizacional, os processos, reavaliar o time, desenvolver novos skills ou abrir mão de profissionais ótimos que queriam continuar a seguir uma carreira de consultoria”.

“Isso tem um impacto brutal na cultura da uma empresa. Poucas conseguem fazer essa movimentação de forma bem-sucedida como nós.”

5 – Um passo atrás e dois para frente

“O ano de 2020 foi uma montanha-russa para a Cortex. No início do ano estávamos em um ciclo de crescimento muito grande e planejando uma nova rodada de investimentos quando a pandemia chegou e o mundo ficou em espera”.

“De um início de ano promissor, passamos a atuar em planejamento de guerra no segundo trimestre, com o objetivo de atravessar esse momento da melhor forma possível”.

“Neste momento não sabíamos se o aporte iria acontecer. O impacto da pandemia nos nossos clientes foi variado – alguns foram fortemente impactados e outros bateram as metas do ano em um trimestre. Olhamos forte para time, caixa e clientes”.

“Por outro lado, a pandemia provocou uma migração acelerada para o digital e trouxe um volume colossal de dados externos desestruturados. Extrair inteligência disso é o nosso negócio”.

“No final do terceiro trimestre, em setembro, recebemos a rodada de investimento com o Softbank e a Riverwood, seguida pela Redpoint, e saímos do modo guerrilha e voltamos a expandir novamente.”

6 – Aquisição ITB360 para inteligência de vendas

“Com o aporte, fizemos a aquisição da ITB360, startup especializada na coleta de dados de empresas para inteligência de vendas. Já trabalhávamos com eles em alguns projetos específicos e sabíamos que havia uma qualidade e abrangência de dados muito diferenciada”.

“A ITB360 tem 1 Tera de dados de empresas em mais de 150 países. Nossa primeira onda de atuação foi trabalhar com inteligência de mercado. Na segunda onda de nossa jornada aplicamos a inteligência de dados na comunicação corporativa”.

“Nossa terceira onda é a de suporte à inteligência de vendas e a ITD vem somar a essa oferta. Além disso, o time da startup é extremamente competente e se une à Cortex.”

7 – O melhor momento da Cortex

“Estamos em uma posição muito privilegiada em 2021. Acabamos de receber uma rodada muito expressiva de investimentos, de dois dos principais fundos que atuam na América Latina, Softbank e Riverwood”.

“Temos acesso à capital, parceiros que nos apoiam muito, e estamos em um mercado extremamente grande e com muitas oportunidades”.

“Nossa meta é dobrar de tamanho este ano e vamos firmar nossa posição de liderança em inteligência de dados na América Latina.”

Texto: Monica Miglio Pedrosa

Imagens: reprodução