Destrua você mesmo o seu negócio. Antes que alguém o faça.

Destrua você mesmo o seu negócio. Antes que alguém o faça.

Entrevista: Edisio Pereira Neto, CEO do Z.ro Bank, conta porque foi preciso criar um negócio que poderá matar uma operação do próprio grupo B&T

Publicado em 26 de novembro de 2020

Edisio Pereira Neto adora viver rodeado de moedas. Tudo começou quando ele tinha 16 anos e começou a administrar seu primeiro negócio: uma casa de câmbio em Recife (PE). Passados outros 16 anos, acumula no currículo a expansão dessa loja para uma rede, a Europa, sua venda, em 2014, para a maior corretora do segmento no país, a B&T, da qual se tornou sócio e diretor, e a criação de duas fintechs: a BitBlue, plataforma de vendas de criptomoedas,  e em setembro passado, o banco digital Z.ro Bank.

Se tudo der certo, o banco pode acabar com o negócio da B&T em seu formato atual. Sim, Pereira e seus sócios decidiram que é melhor serem eles a pivotarem o negócio do que morrerem depois de tanto nadar, só porque deixaram que alguma empresa lançasse antes o que veem como o futuro: transferências digitais entre países rápidas e mais baratas, através de plataformas acessadas pelo celular e usando-se inclusive criptomoedas. Afinal, diz ele, “dinheiro em espécie vai ser algo feio de alguém estar usando”.

Inquieto e viciado em buscar profissionais no LinkedIn, o executivo que há dois anos anunciou que sua rede seria a primeira do país a vender moedas estrangeiras por cartão de crédito, diz nesta entrevista ao Experience Club que o diferencial é de quem faz, e não de quem planeja, mas não entra em ação. “Nos negócios, é 1% de imaginação e 99% de transpiração”. A seguir, a entrevista com o CEO do Z.ro Bank.

[Assista ao vídeo e mergulhe no assunto]:

Empresário aos 16

Pereira não era mau aluno, mas também não era exemplar. Então o pai o levou para seu escritório, onde começou fingindo que trabalhava e depois observou o ambiente. Observou a movimentação, a linguagem, o relacionamento e decidiu que queria tocar um negócio próprio. Foi aí que começou a história da corretora Europa, que de uma loja, chegou a 15 unidades e depois foi negociada com a B&T. O roteiro da venda, com etapas clássicas como avaliação de preço, big four fazendo auditoria e um ano de negociação, foi um enorme aprendizado do mundo empresarial. E isso só cresceu ao se tornar diretor da B&T, já que parte do pagamento foi em participação na corretora.  Mudou-se para São Paulo. “Dei de cara com uma empresa que era muito maior do que o que eu entendia como empresa. A minha tinha 70 pessoas e era muito centralizada em mim. A B&T tinha seis diretores e 350 pessoas”. Entender a dinâmica de um grupo grande permitiu empreender de novo, desta vez com os mesmos sócios do grupo e em duas fintechs, a BitBlue e o Z.ro Bank.

Empreender é frio na barriga

Empreender é dinamismo, é feeling, é o frio na barriga, diz Pereira. E para isso, afirma, não é preciso ser empresário. Empreender é verbo para qualquer pessoa que queira buscar alternativas melhores para atender seus clientes. Isso serve para um garçom ou uma secretária por exemplo. Claro que numa empresa isso fica mais interessante, porque se vê o negócio crescer, completa.  

Transformar medo em negócios

Medo todo mundo tem, a questão é o que fazer com ele. O executivo transforma em potencialização de novos negócios. “Isso fez a grande diferença na minha vida”, afirma. Ele sabe que ser jovem ajuda a se arriscar mais do que alguém mais velho, com a vida mais estabilizada. A filha de dois anos já o fez retroceder um pouco e se tornar mais conservador. “Mas no começo, precisei arriscar mais”

Destrua o negócio

Quem está dentro do negócio sabe onde estão as oportunidades de alguém de fora aparecer e destruir tudo com uma solução melhor, no caso digital, afirma Pereira. O mercado de câmbio movimenta bilhões, mas é um mundo físico, nada é integrado. O risco real é uma big tech aparecer, digitalizar a operação e abocanhar boa parte das transações. “Se for para alguém destruir a gente, que sejamos nós mesmos. A gente sabe onde estão as oportunidades e por isso resolvemos abrir esse outro um braço, um banco digital”. O objetivo? A perpetuidade da empresa e aproveitar o capital intelectual que foi construído até agora pelo grupo.

Cripto e blockchain

Desconhecimento e histórias de golpes fazem muita gente se afastar das criptomoedas, mas também muita gente que se junta em torno delas porque “já entendeu que é a próxima curva do mercado financeiro”. Por isso, se era para investir em algo disruptivo, com promessa de atingir algo inalcançável até hoje, isso era o que Pereira queria. Ele lembra que vários países, incluindo China, Estados Unidos (EUA) e Brasil, estudam terem suas moedas digitais e há empresas que vão pelo mesmo caminho, como o Facebook e o McDonald’s. Isso, para ele, mostra que estão sendo testados modelos que vão chegar ao mercado. “A gente quer ser a plataforma onde vai ter multimoedas e criptos, as pessoas vão ter de transacionar essas moedas de forma leve, fácil.” O grupo tem em mente ser a plataforma que integra mundo tradicional do dólar, euro, ouro, real, com o mundo digital, das criptomoedas.

Adeus papel-moeda

Dinheiro em espécie? Vai ser tão fora de moda que será até feio de ser usado, acredita Pereira. Com cerca de 50 milhões de desbancarizados e mais smartphones do que gente, usar o celular para serviços digitais no Brasil não será uma barreira, acredita ele. “Eu imagino operações sem fronteiras. Fazer câmbio hoje é chato, burocrático”. E se o mundo trocou a carta em papel por um clique, por que isso ainda não aconteceu com o dinheiro, questiona o executivo.  “Esse é o nosso desafio. O mundo vai se voltar para isso no mercado financeiro”, acredita. E havendo esse movimento de transferências globais com mais facilidade, muitas portas vão se abrir. Um exemplo é o crowdfunding: um projeto daqui pode receber apoio mais fácil de alguém no Japão, só para citar uma possibilidade. 

Sócios para toda obra

“Eu escolhi a dedo os sócios que tenho hoje, são pessoas fantásticas, cada um com sua especialidade”, afirma Pereira. O trabalho do grupo envolve trazer também especialistas de fora em áreas como tecnologia, finanças e compliance para discutirem as possibilidades em cada ação. Aí sim há uma conjuntura de ideias para a tomada de decisões. “Nunca é fácil chegar a um consenso de pessoas que pensam diferente, mas ao mesmo tempo, cada passo que a gente dá foi o mais bem elaborado e mais bem construído que a gente poderia dar, porque passou pelo nosso aval de seis sócios, cada um com uma expertise e know how diferente”, conta ele.

LinkedIn vicia

Pereira é viciado no Linkedin. Passa de uma a duas horas por dia na rede procurando e conversando com pessoas que em algum momento possam se encaixar numa vaga futura no grupo. Anota numa planilha os dados e o que achou delas, porque assim consegue fazer contratações mais dinâmicas quando uma vaga é aberta, uma vez que já tem em mente quem gostaria de contratar. “Eu brinco que quando era criança e jogava futebol, eu sempre era o cara que queria escolher o time”, diz o CEO do Z.ro Bank.

Líder no mundo online

A diferença é muito grande entre ser líder no mundo offline e no mundo online, segundo o executivo. Quando cuidava das lojas de câmbio, visitava as unidades, olhava nos olhos dos clientes e alguns deles tinham seu número de celular. No banco digital, depois de 30 dias da abertura, já eram 10 mil cadastrados no Brasil e no exterior e Pereira não sabia o nome de nem 1% deles. Esse distanciamento gerou um desafio interno de trazer o cliente para dentro do banco. “A gente tem feito muita live, aberto muito as câmeras nas redes sociais dentro do escritório para que as pessoas consigam ver que tem pessoas trabalhando aqui também”, contou. E se precisar, Pereira responde as dúvidas e às reclamações dos clientes numa conversa por vídeo. “É questão da transparência, tentando trazer um pouco do mundo físico para o digital”.

Formado no mercado

Pereira deixou o último ano de administração de empresas porque sentia falta de aprendizado prático sobre o dia a dia dos negócios. Como isso se aprende na vivência, foi no que investiu. E também em cursos relacionados a seu negócio, até mesmo para acompanhar as mudanças de seu trabalho. Foram estudos em áreas como comércio exterior, câmbio, fintechs, operações digitais e design, inclusive no Vale do Silício.

Blockchain para transparência

O executivo já entendeu que no mundo moderno, cada vez mais o consumidor exige transparência. Por isso, quer ir além de publicar balanço em jornal. A ideia é usar a tecnologia blockchain para deixar os dados do banco visíveis a quem quiser acessá-lo online. E isso vai além da tecnologia, diz ele. É questão de índole. Por isso é que até o cartão do banco é transparente.

Só smart money

Montar uma operação multimoedas e global vai exigir muito dinheiro e o banco está buscando sua primeira rodada de investidores. Mas não adiante chegar com um cheque bilionário. Para o novo parceiro, o principal é que seja o smart money, aquele que traz também know how e conexões, e alinhado ao propósito do negócio. “Não estou negociando a minha plataforma. Existe uma empresa que tem um caminho. Se você acredita nesse caminho e consegue nos ajudar, você é muito bem-vindo”, afirma. A expectativa é de anunciar o primeiro parceiro no início de 2021. 

Diversidade inspirada no Silício

No Vale do Silício, Pereira viu que é comum a presença de profissionais estrangeiros nas grandes empresas globais, como Google e Facebook. O motivo é a necessidade de terem pessoas que sabem o que é mais aceito pelos consumidores nos diferentes mercados, já que o que funciona para um, pode não ser boa ideia em outro. E isso inspirou o executivo a reproduzir o modelo de diversidade no seu novo negócio.

A próxima fronteira

Pereira está focado em colocar em operação a transferência internacional de dinheiro por celular e em 10 segundos, quebrando barreiras entre países. “O cliente sai da burocracia e a gente entra no desafio de fazer algo simples para ele”, afirma. E é quebrar a barreira de enviar dinheiro do Brasil para fora e de levar o banco digital aos estrangeiros, para se conectarem e enviarem recursos mundo afora.

Amanheceu, novo sonho

Por enquanto, o executivo diz que já realizou tudo o que queria. Mas, é inquieto. “Às vezes, hoje eu não tenho um novo sonho, mas amanheceu, eu tenho”, afirmou. De qualquer forma, o fato de ter seu nome registrado como um dos fundadores do Z.Ro Bank deixa orgulhoso o ainda jovem empresário que sempre quis deixar algo seu marcado na história, mesmo que fosse alguma ação pequena no mercado de câmbio.  

Persistência e resiliência

Depois de uma palestra online, um rapaz de 16 anos enviou mensagem a Pereira dizendo que gostaria de ser tão inteligente quanto ele. “Eu respondi que eu não sou tão inteligente como você acha que eu sou”, disse ele. O segredo, disse para o jovem, é que está há 16 anos insistindo no mesmo mercado. “Qualquer coisa que você faça por 16 anos seguidos, você vai se tornar um especialista naquele assunto,” garante. E disse que se lembrou de quando começou a empreender com 16 anos e “não entendia nada”.  

Dificuldades e oportunidades

Onde muita gente vê barreiras para empreender e inovar no Brasil, Pereira vê espaços de oportunidades. Se aqui estamos atrasados em alguma coisa, o negócio é olhar para fora e tentar trazer para cá de forma tropicalizada, sugere. “Feito é melhor que perfeito”. E lembra uma frase do fundador do LinkedIn, Reid Hofflman: Se você não tiver vergonha da primeira versão do seu produto, você o lançou muito tarde”. Tem uma ideia? Não demore para colocar em pé. No mundo dos negócios e da inovação, “é 1% de imaginação e 99% de transpiração”, afirma.

Texto: Claudia Mancini

Imagens: Reprodução | Experience Club