Educação antirracista: cinco ideias inclusivas para as corporações

Vítor Coff Del Rey, CEO do Instituto GUETTO, explica como as lideranças podem tomar a dianteira no processo igualdade racial nos negócios

Publicado em 4 de janeiro de 2021

Conhecer os dados socioeconômicos do Brasil e investir em educação antirracista são dois movimentos necessários para promover mudanças profundas na sociedade em relação à inclusão dos negros no mercado de trabalho em cargos mais altos. E o aprofundamento nas questões raciais precisa ser abraçado pelas lideranças.

 “Acreditamos que as pessoas darão passos justos se elas entenderem e se aprofundarem no tamanho da injustiça. É fundamental promover o letramento racial e isso tem que ser top-down. É importante que o chefe, o gestor, o head, o CEO comprem a ideia da questão racial”.

A explicação é do CEO do Instituto Guetto Vítor Coff Del Rey. Cientista social formado pela FGV, com mestrado em Administração Pública e apaixonado por Educação, Del Rey é o quinto filho de seis de uma mãe negra solteira e o primeiro a ir para a universidade, aos 27 anos. “Segundo o IBGE, esta é a média de idade que os negros entram na academia”, conta.

Del Rey é fundador do Instituto Guetto, um acrônimo para “Gestão Urbana de Empreendedorismo, Trabalho e Tecnologia Organizada”. A instituição sem fins lucrativos desenvolve pesquisas e projetos que visam combater as desigualdades raciais e de gênero no ambiente institucional por meio de modelo educação antirracista.

Um deles é o Ponte para Pretos, a maior comunidade no Facebook de encaminhamento profissional de pessoas negras. O grupo começou com 200 membros e já conta com mais de 33 mil seguidores. “O nosso core business é dar oportunidade para pessoas pretas. Se tua empresa está procurando preto para fazer diversidade é o que a gente mais tem”, reforça.

Outro projeto é a Escola da Ponte que oferece qualificação gratuita para negros em cursos como Design Thinking, Branding, Storytelling, competências socioemocionais, mentoria, entre outros. A escola terminou 2019 com 13 cursos, 15 turmas, 350 alunos e uma fila de espera de 5700 pessoas.

Para as empresas, o Instituto Guetto oferece um programa chamado Pequena África para alfabetizar pessoas não-negras nas corporações a respeito das relações raciais. “A ideia é transformar qualquer empresa numa pequena África onde eu possa ser somente um homem, eu não preciso falar que sou um homem negro”, destaca.

Durante debate online promovido pelo Experience Club, Vítor Coff Del Rey apontou a importância de educar a sociedade para o reconhecimento do problema racial no Brasil. Conheça as 5 lições para uma educação antirracista e mais inclusiva no meio corporativo.

[Assista ao vídeo e mergulhe no assunto]:

1.Conhecer os dados socioeconômicos – “Está provado que é mais fácil virar classe média, média alta através da Educação do que ganhar na Megasena. Eu acredito na Educação. Quem fala que todos são iguais e que na hora de contratar entra o que for o melhor na empresa nunca refletiu sobre dados socioeconômicos do Brasil, porque se der uma olhada em um dado qualquer vai ver um problema abissal, principalmente um problema de raça. Eu costumo dizer que as empresas não têm um problema de diversidade, tem um problema racial”.

2.Reconhecer o problema racial – “A grande questão é que vivemos em um país que não encara a questão racial como problema. Estamos num país em que todo mundo diz que há racismo no Brasil, mas ninguém diz que é racista. Se tem racismo no Brasil e ninguém é racista, onde está o racismo? Está nas estruturas, na TV com a subrepresentatividade, que é uma clivagem estrutural. Nós precisamos identificar estas pessoas para que elas façam o caminho de volta”.

3.Envolver todos os players – Uma educação antirracista é um processo que precisa envolver a sociedade. Em uma escola, por exemplo, para formar alunos antirracistas é necessário envolver os pais nessa formação. O mesmo vale para empresas. A liderança tem um papel fundamental porque consegue mexer em estruturas corporativas e promover mudanças top-down.

4.Adotar processos seletivos mais acolhedores ou intencionados – “Quando um jovem negro chega ao processo seletivo e encontra todo mundo branco, já se sente ameaçado. E se o recrutador não souber entender isso, ele não vai conseguir extrair dessa pessoa negra o melhor de sua capacidade. E, às vezes, aquela pessoa negra é o melhor entre os candidatos, mas já tem tanto problema antes de chegar ali, que ele não consegue render. Outro desafio é como resolver este tipo de problema sem prejudicar o processo seletivo, sem ser desonesto com a pessoa branca que também está ali, que também precisa da vaga e que pode ser mais qualificado que este negro. Algumas empresas têm utilizado o que eles chamam de processo seletivo intencionado, onde eles dizem no descritivo da vaga que não vão aceitar candidatura de pessoas não-negras, ou não vão aceitar homens, sejam brancos ou pretos, para contratar mulheres etc. Está lá, bem claro”.

5.Agir com justiça – “O que a gente espera é que as pessoas façam a inclusão do negro, do gay, da mulher, do deficiente físico porque é isso que tem que ser feito, é justo e correto, porque há desigualdades que temos condições materiais de reparar. É preciso reconhecer a injustiça e tentar resolver o problema fazendo inclusão e diversidade”.

Texto: Andrea Martins

Imagens: Reprodução | Experience Club