História da riqueza do homem

Um dos maiores clássicos da literatura econômica de todos os tempos em edição revisada para o século 21

Publicado em 26 de março de 2021

Ideias centrais: 

1 – Os artesãos da Idade Média seguiram o exemplo dado pelos comerciantes e formaram corporações próprias. Todos os trabalhadores, dedicados ao mesmo ofício numa determinada cidade, formavam sua corporação artesanal, reunindo mestres e aprendizes. 

2 – Antuérpia era o centro de toda a atividade financeira e comercial, nos século XVI e XVII. Quando a corrente do comércio se deslocou do Mediterrâneo para o Atlântico, as outrora grandes cidades italianas cederam lugar para Antuérpia. 

3 – Para seus donos, na Revolução Industrial, as máquinas representavam tamanho capital que não podiam parar. Tinham que dar retorno, antes que ficassem obsoletas. Por isso, trabalhavam 16 horas por dia, exaurindo as forças do seu operador.

4 – Ao compreender que o instrumento para abolir o capitalismo era o proletariado, Marx dedicou-se ao preparo e organização da classe trabalhadora para suas lutas políticas e econômicas. Para tanto, participou da Primeira Internacional (1864). 

5 – Segundo Keynes, se o governo tivesse que fazer obras públicas e conceder empréstimos para debelar a crise, não devia temer o déficit orçamentário. Ele seria compensado pelo reaquecimento da economia. 

Sobre os autores: 

Leo Huberman, além de escrever a presente obra, fundou, juntamente com o economista de Harvard, Paul Sweezy, a revista Monthly Review. Ele usou de vários meios para esclarecer os trabalhadores ante o crescimento descontrolado do capitalismo. 

Marcia Guerra (capítulos 23 e 24) é historiadora, professora da PUC-Rio e do IFRJ – Instituto Federal de Tecnologia, Ciência e Educação do Rio de Janeiro. 

Antes de aprofundarmo-nos nos temas trazidos por Leo Huberman nesta obra, cumpre fazer duas anotações: a primeira edição (Man’s Worldly Goods) ocorreu em 1936, quando já havia indícios de uma segunda guerra mundial. E, de lá para cá, houve muitas transformações sociais e econômicas que não podem ser ignoradas. Por essa razão, a historiadora Márcia Guerra fez uma atualização da obra, nessa 22ª edição, acrescendo-lhe dois capítulos, de números 23 (Um admirável mundo novo?) e 24 (Da expansão à crise: a história insiste em continuar).  

Prefácio [Márcia Guerra] 

Para os que teimavam na satisfação frente ao ritmo sempre mais intenso do trabalho que avança pelos antigos horários livres do trabalhador, frente à substituição dos vínculos de solidariedade pela competição desenfreada, frente à incapacidade de homens e mulheres se satisfazerem pelo que são, substituída pela ávida busca de ter sempre mais, frente à intensa, e talvez irresistível, degradação ambiental do mundo em que vivemos, os apóstolos do fim da história indicavam a resignação: os tempos presentes seriam o melhor dos mundos possíveis

Entretanto, no centro do próprio sistema começaram a emergir problemas que os detentores do poder e do capital acreditavam ter deixado aprisionados no passado: redução do consumo, desemprego, baixa das taxas de juros, queda acentuada do valor das ações e de demais papéis negociados no mercado financeiro, falências.  A crise econômica se instalou e, dado o nível de articulação da economia, se mundializou. Em setembro de 2008, com o pedido de concordata do Banco de investimentos Lehman Brothers Holding Inc., gigante norte-americana do mercado financeiro, as maiores instituições financeiras mundiais revelaram-se incapazes de fazer frente à crise, e os governos dos principais países capitalistas puseram em prática estratégias para salvá-los: trilionárias injeções de dinheiro público, nacionalizações, políticas de estímulo ao consumo – velhas receitas para um mal também já experimentado: recessão econômica mundial. Sua profundidade e sua duração ainda não estão definidas neste momento. 

Parte I – Do feudalismo ao capitalismo 

Capítulo 1 – Sacerdotes,  guerreiros e trabalhadores 

Essas eram, portanto, as duas características importantes dos sistema feudal. Primeiro, a terra arável era dividida em duas partes, uma pertencente ao senhor e cultivada apenas para ele, enquanto a outra era dividida entre muitos rendeiros camponeses; segundo, a terra era cultivada não em campos contínuos, tal como hoje, mas pelo sistema de faixas espalhadas. Havia uma terceira característica marcante – o fato de que os camponeses trabalhavam não só as suas terras, mas também a propriedade do senhor. 

O camponês  vivia numa choupana do tipo mais miserável. Trabalhando longa e arduamente em suas faixas de terra espalhadas (todas juntas tinham, em média, uma extensão de 6 a 12 hectares, na Inglaterra, e 15 a 20, na França), conseguia arrancar do solo apenas o suficiente para uma vida miserável. Teria vivido melhor não fora o fato de que, dois ou três dias por semana, tinha que trabalhar a terra do senhor, sem pagamento. 

Eram quase ilimitadas as imposições do senhor feudal ao camponês. De acordo com um observador do século XII, o camponês “nunca bebe o produto de suas vinhas, nem prova uma migalha do bom alimento; muito feliz será se puder ter seu pão preto e um pouco de sua manteiga e queijo…” 

Tivesse ganso gordo ou galinha, 

 e no cesto, bolo de fina farinha – 

Seu senhor ia ganhar tudo que tinha. 

Hoje em dia, terras, fábricas, usinas, minas, rodovias, barcos e maquinaria de todo tipo são necessários à produção das mercadorias que utilizamos, e chamamos um homem de rico pelos bens desse tipo que possui. Mas no período feudal a terra produzia praticamente todas as mercadorias de que necessitava e, assim, a terra e apenas a terra era a chave da fortuna de um homem. O clero e a nobreza constituíam as classes governantes. Controlavam a terra e o poder que delas provinha. A Igreja prestava ajuda espiritual, enquanto a nobreza, proteção militar. Em troca, exigiam pagamento das classes trabalhadoras, sob a forma de cultivo das terras. 

Capítulo 2 – Entra em cena o comerciante 

Vários obstáculos retardaram, na Idade Média, a marcha do comércio. O dinheiro era escasso e as moedas variavam conforme o lugar. Pesos e medidas também eram variáveis de região para região. O transporte de mercadorias para longas distâncias, sob tais circunstâncias, obviamente era penoso, perigoso, difícil e extremamente caro. Por todos esses motivos, era pequeno o comércio nos mercados feudais locais. 

Mas não permaneceu pequeno. Chegou o dia em que o comércio cresceu, e cresceu tanto que afetou toda a vida da Idade Média. O século XI viu o comércio evoluir a passos largos; o século XII viu a Europa ocidental transformar-se em consequência disso. 

As Cruzadas levaram novo ímpeto ao comércio. Dezenas de milhares de europeus atravessaram o continente por terra e mar para arrebatar a Terra Prometida  aos muçulmanos. Necessitavam de provisões pelo caminho e os mercadores os acompanhavam a fim de fornecer-lhes o que precisassem. Os cruzados que regressavam de suas jornadas ao Ocidente traziam com eles o gosto pelas comidas e roupas requintadas que tinham visto e experimentado. Sua procura criou um mercado para esses produtos. 

Capítulo 3 – Rumo à cidade 

Se é fato que as cidades crescem em regiões onde o comercio tem uma expansão rápida, na idade Média deveríamos procurar as cidades em crescimento na Itália e na Holanda. E é exatamente onde elas surgiram primeiro. À medida que o comércio continuava a se expandir, surgiam cidades nos locais em que duas estradas se encontravam ou na embocadura de um rio, ou ainda onde a terra apresentava um declive adequado. Tais eram o lugares que os mercadores procuravam. Neles, além disso, havia geralmente uma igreja ou uma zona fortificada chamada “burgo”, que assegurava proteção em caso de ataque. Mercadores errantes descansando nos intervalos de suas longas viagens, esperando o degelo de um rio congelado ou que uma estrada lamacenta se tornasse novamente transitável, naturalmente se deteriam próximos aos muros de uma fortaleza ou à sombra da catedral. 

A vida na cidade era diferente da vida do feudo e novos padrões tinham que ser criados. Pelo menos, os mercadores assim o julgaram.

E o pensamento, com esses comerciantes audazes, foi logo traduzido em ação Quando viajavam pelas estradas, juntavam-se para se proteger contra os salteadores, quando viajavam por mar, associavam-se para se proteger contra os piratas, quando comerciavam nos mercados e feiras, aliavam-se para concluir melhores negócios com seus recursos aumentados. Agora, face a face com as restrições feudais que os asfixiavam, mais uma vez se uniram, em associações chamadas “corporações’ ou ligas, a fim de conquistar para suas cidades a liberdade necessária à expansão contínua. 

Capítulo 6  “E nenhum estrangeiro trabalhará…” 

O progresso das cidades e o uso do dinheiro deram aos artesãos uma oportunidade de abandonar a agricultura e viver do seu ofício. O açougueiro, o padeiro e o fabricante de velas foram então para a cidade e abriram uma loja. Dedicaram-se ao negócio de carnes, padaria e fabrico de velas, não para satisfazer suas necessidades, mas sim para atender a procura. Dedicavam-se a abastecer um mercado pequeno, mas crescente. 

Não era necessário muito capital. Uma sala da casa em que morava servia ao artesão como oficina de trabalho. Tudo de que precisava era habilidade em sua arte e fregueses que lhe comprassem a produção. Se fosse bom trabalhador e se tornasse conhecido entre os moradores da cidade, seus produtos seriam procurados e ele poderia aumentar a produção contratando um ou dois ajudantes. 

Esses artesãos seguiram o exemplo dado pelos comerciantes e formaram corporações próprias. Todos os trabalhadores dedicados  ao mesmo ofício numa determinada idade formavam uma associação chamada corporação artesanal. Assim, as corporações de artesãos na idade Média eram diferentes. Todo os que se ocupavam de um determinado trabalho – aprendizes, jornaleiros, mestres artesãos – pertenciam à mesma corporação. Tanto mestres como ajudantes podiam fazer parte da mesma organização e lutar pelas mesmas coisas. Isso porque a distância entre trabalhador e patrão não era muito grande. O ajudante tornava-se aprendiz e, com o tempo, mestre no ofício. 

No século XIV, em Londres, a corporação dos curtidores de couro branco representava um negócio de grandes proporções; organizou-se então uma corporação desses curtidores. Pelos seus estatutos, datados de 1346, podemos aprender algo sobre as corporações artesanais: 

“[1]… se qualquer pessoa do dito ofício sofrer de pobreza pela idade ou porque não possa trabalhar… terá toda semana 7 dinheiros para seu sustento, se for homem de boa reputação. 

[2] E nenhum estrangeiro trabalhará no dito ofício… se não for aprendiz ou homem admitido à cidadania do dito lugar. 

 [6] Ninguém que não tenha sido aprendiz e não tenha concluído seu termo de aprendizado do dito ofício poderá exercer o mesmo.” 

Capítulo 7 – Aí vem o rei 

Mas em fins da idade Média, no decorrer do século XV, tudo isso se modificou. Surgiram nações, as divisões nacionais se tornaram acentuadas, as literaturas nacionais fizeram seu aparecimento e as regulamentações nacionais para a indústria substituíram as regulamentações locais. Passaram a existir leis nacionais, línguas nacionais e até mesmo igrejas nacionais. Os homens começaram a  se considerar não como cidadãos de Madri, de Kent ou de Paris, mas como da Espanha, Inglaterra e França. Passaram a dever fidelidade não à sua cidade ou ao senhor feudal, mas ao rei, que é o monarca de toda uma nação. 

O rei fora um aliado forte das cidades na luta contra os senhores. Tudo o que reduzisse a força dos barões fortalecia o poder real. Em recompensa pela sua ajuda, os cidadãos estavam prontos a auxiliá-lo com empréstimos em dinheiro. Isso era importante, porque com o dinheiro o rei podia dispensar a ajuda militar de seus vassalos. Podia contatar e pagar um exército pronto, sempre a seu serviço, sem depender da lealdade de um senhor. 

Uma das razões do êxito de Lutero foi não cometer o engano de tentar derrubar os privilegiados. Outra razão importante para o advento da Reforma naquele preciso momento está no fato de que Lutero, Calvino, Knox apelavam para o espírito nacionalista de seus adeptos, num período em que esse sentimento crescia. Como a oposição a Roma coincidia com os interesses do nascente Estado nacional, tinha possibilidades de êxito. 

Capítulo 8 – Homem rico 

A organização tradicional  das associações  que se haviam criado para negociar com as velhas rotas de comércio não se adaptava às novas condições. O comércio a uma distância considerável, em terras desconhecidas, com povos estranhos e sob condições pouco familiares requeria um novo tipo de associação – e como sempre acontece, surgiu um novo tipo para atender as necessidades. 

O que uma, ou duas, ou três pessoas, separadamente, não podiam realizar, muitas, unidas num único órgão, agindo como um todo, sob uma única direção, podiam. A sociedade por ações foi a resposta dada pelos mercadores nos séculos XVI e XVII ao problema que era levantar os enormes capitais necessários a tão vasto empreendimentos, como o comércio com a América, África e Ásia. A primeira sociedade inglesa foi a dos Aventureiros Mercadores. Contava com 240 acionistas. Os nomes de algumas dessas companhias organizadas nos séculos XVI e XVII mostram onde realizaram suas empresas de comércio ou de colonização, ou ambas. Havia sete companhias das “Índias Orientais”, sendo as mais famosas a britânica e a holandesa; havia quatro companhias das “Índias Ocidentais”, organizadas na Holanda, França, Suécia e Dinamarca.   

Antuérpia era o centro de toda essa atividade financeira e comercial. Quando a corrente do comércio se deslocou do Mediterrâneo para o Atlântico, as outrora grandes cidades italianas entraram em declínio e Antuérpia tomou seu lugar. Não era o tamanho que a tornava grande – tinha apenas uma população de cerca de 100 mil habitantes. Era sobretudo o fato de estar livre das restrições de toda natureza. 

Capítulo 12 – Deixem-nos em paz! 

Mil e setecentos e setenta e seis foi um ano de revolta. Ano notável. Aos norte-americanos, ele lembra a Declaração da Independência, a revolta contra a política colonial mercantilista da Inglaterra; aos economistas de todo o mundo, lembra a publicação de A riqueza das nações, de Adam Smith – súmula da nascente rebelião contra a política mercantilista – restrição, regulamentação, contenção. Um número cada vez maior de pessoas discordava da teoria e da prática mercantilistas. Não concordava porque sofria com elas. Os comerciantes queriam uma parte dos enormes lucros das companhias monopolizadoras privilegiadas.

A riqueza das nações: investigação sobre sua natureza e suas causas, de Adam Smith, foi um desses livros que dominam a imaginação do público e varrem país após país. Ao contrário de autores anteriores, para os quais o Estado devia seguir esta ou aquela política para tornar-se poderoso, Adam Smith se ocupava mais do estudo das causas que influenciam a produção e distribuição da riqueza.

A maioria dos mercantilistas tinha interesses a defender, mas os ocultava dizendo que o país se tornaria mais rico defendendo precisamente estes interesses. Smith, ao contrário, interessou-se mais pela análise do que pelas sugestões práticas, e abordou o assunto de forma científica. 

Os fisiocratas chegaram à sua fé no comércio livre por um caminho indireto. Acreditavam, acima de tudo, na inviolabilidade da propriedade privada, particularmente a propriedade privada da terra. Por isso, acreditavam na liberdade – o direito de o indivíduo fazer de sua propriedade o que melhor lhe agradasse. Daí a expressão característica da escola: “Laissez faire”. Atrás da argumentação a favor do comércio livre está convicção de que o agricultor devia ter permissão para produzir o que quisesse, para vender onde desejasse. 

Capítulo 13 – “A velha ordem mudou…” 

O clero e a nobreza eram as classes privilegiadas. Chamavam-se de Primeiro Estado e Segundo Estado, respectivamente. O clero tinha cerca de 130.000 membros, e a nobreza aproximadamente 40.000. Embora constituíssem as classes privilegiadas, nem sempre eram ricos ou viviam na ociosidade. Havia bispos muito ricos e nobres muito ricos. Havia sacerdotes que trabalhavam muito e nobres também. Como havia ociosos na igreja e na nobreza. 

A classe sem privilégios era o povo, a gente comum, que tinha o nome de Terceiro Estado. Da população de 25 milhões de habitantes de toda a França, representavam mais de 95%. E, tal como havia diferença de riqueza e modo de vida entre as classes privilegiadas, também havia diferença entre os sem privilégios. Cerca de 250.000 destes, constituindo a classe média superior ou burguesia, estavam relativamente bem, em comparação com o restante dos membros do Terceiro Estado. Outro grupo consistia em artesãos vivendo em pequenas aldeias e cidades. Seu número se elevava a 2 milhões e meio. Todo o resto, cerca de 22 milhões, eram camponeses que trabalhavam na terra. Pagavam impostos aos Estados, dízimos ao clero e taxas feudais à nobreza.  

A Revolução Francesa eclodiu em 1789. Mas não se conclua com isso que os camponeses estivessem, no século XVIII, em pior situação do que no século XVII. Não estavam. Talvez estivessem até melhor. Na verdade, de uma forma ou de outra os camponeses haviam poupado bastante de sua insignificante renda, depois de pagas as muitas taxas, para comprar a terra. Por cem anos ou mais antes da Revolução os camponeses compraram propriedades, de forma que, quando o ano de 1789 chegou, cerca de um terço das terras da França estava em suas mãos. Isso, porém, os deixou mais descontentes do que antes. Por quê? 

Eram famintos de terra. Puderam satisfazer um pouco dessa fome. O que impedia seu avanço? O peso esmagador que impunham o Estado e as classes privilegiadas. Passavam a ver, com maior clareza, que, se atirassem fora o fardo, poderiam ficar eretos – elevar-se da situação de animal para a de homem. Precisavam de auxílio e liderança. Encontraram-nos na nascente classe média.

A burguesia desejava que seu poder político correspondesse ao poder econômico que já tinha. Era dona de propriedades – queria agora os privilégios. Queria ter a certeza de que sua propriedade estaria livre das restrições aborrecidas a que estivera sujeita na decadente sociedade feudal. Queria ter a certeza de que os empréstimos feitos ao governo seriam pagos. 

Parte II – Do capitalismo ao…? 

Capítulo 16 – “A semente que semeais, outro colhe…” 

É fato bem conhecido que as estatísticas podem provar qualquer coisa. Nunca nos proporcionaram um quadro mais falso do que o relativo ao período da infância da Revolução Industrial na Inglaterra. Toda tabela de números mostrava progressos tremendos. A produção de algodão, ferro, carvão, de qualquer mercadoria multiplicou-se por dez. O volume e o total de vendas, os lucros dos proprietários – tudo isso subiu aos céus. Lendo tais números ficamos surpreendidos. A Inglaterra, ao que tudo indica, devia ter sido a paraíso que os autores de canções mencionam sempre. Foi, realmente, para uns poucos. 

Para muitos, podia ser qualquer coisa, menos um paraíso. Em termos de felicidade e bem-estar dos trabalhadores, aquelas estatísticas róseas diziam mentiras horríveis. Um autor mostrou isso num livro publicado em 1836: “Mais de um milhão de seres humanos estão realmente morrendo de fome, e esse número aumenta constantemente… E uma nova era na história que um comércio ativo e prospero seja índice de melhoramento da situação das classes trabalhadoras, mas sim de sua pobreza e degradação: é a era a que chegou a Grã-Bretanha.” 

As maquinas que podiam ter tornado mais leve o trabalho, na realidade o fizeram pior. Eram tão eficientes que tinham de fazer mágica durante a maior tempo possível.

Para seus donos, representavam tamanho capital que não podiam parar – tinham de trabalhar, trabalhar sempre. Além disso, o proprietário inteligente sabia que arrancar tudo da máquina, o mais depressa possível, era essencial porque, com as novas invenções, elas podiam tornar-se logo obsoletas. Por isso, os dias de trabalho eram longos, de 16 horas. Quando conquistaram o direito de trabalhar em dois turnos de 12 horas, os trabalhadores consideraram tal modificação uma bênção. 

Os sindicatos não surgiram da noite para o dia. Levou muito tempo para que o sentimento de unidade do interesse de classe surgisse e, enquanto isso não ocorreu, uma verdadeira organização em escala nacional foi impossível. Com a Revolução Industrial o sindicalismo deu passos tremendos. Isso ocorreu porque a Revolução Industrial trouxe consigo a concentração dos trabalhadores nas cidades, a melhoria dos transportes e comunicações, essencial a uma organização sindical, e as condições que fizeram tão necessário o movimento trabalhista. 

Capítulo 18 – “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!” 

Por meio da análise da sociedade capitalista, Marx chegou à conclusão de que o socialismo viria – não sonhou seu advento, tal como fizeram os utópicos. Marx julgou que o socialismo viria como resultado de forças específicas que operavam na sociedade, sendo necessária uma classe trabalhadora revolucionária organizada  para provocá-lo. Tal como a Economia clássica pode ser considerada a Economia do homem de negócios, porque nela encontrava ajuda e conforto, a Economia de Marx pode ser chamada de Economia do trabalhador, porque nela o trabalhador verificava seu importante lugar no esquema das coisas, e encontrava também esperança no futuro. 

Marx e Engels esperavam uma época em que as forças sociais de produção já não poderiam ser contidas pelas limitações impostas pela propriedade privada e pela apropriação individual. Previam que o conflito resultante levaria ao estabelecimento de uma nova e harmoniosa sociedade, na qual a propriedade e o controle dos meios de produção seriam transferidos das mãos de uns poucos capitalistas apropriadores para os muitos produtores proletários. 

Ao compreender que o instrumento para abolir o capitalismo era o proletariado, naturalmente dedicou sua atenção ao preparo e à organização da classe trabalhadora para suas lutas políticas e econômicas. Foi o membro mais ativo e influente da Associação Internacional dos Trabalhadores (a Primeira Internacional), estabelecida em Londres a 28 de setembro de 1864. 

Capitulo 21 – A Rússia tem um plano 

O governo de um Estado socialista está na situação do capitalista, mil vezes mais ampla, – ou seja, ele é o único dono do capital e tem de tomar todas as decisões. O governo socialista tenta fazer com que as diferentes partes, todas as mil e uma complicadas e variadas atividades econômicas, se unam harmoniosamente e se encaixem de forma que o todo funcione perfeitamente. Para fazer isso bem, a Rússia tem um plano. 

Todos já ouviram falar dos planos quinquenais da Rússia. Ao completarem o primeiro, deram início ao segundo, e assim por diante, enquanto a Rússia era socializada. Um Estado socialista tem de ter um plano. A economia soviética é, necessariamente, a economia planificada. O plano começa com a Comissão de Planejamento Estatal (Gosplan). Seu primeiro trabalho foi verificar tudo sobre a URSS. Qual o volume da força de trabalho? Qual a condição da fábrica coletiva? Quais os recursos naturais? O que tem sido feito? O que pode ser feito? O que existe disponível? O que é necessário? 

Quando esses entendidos acabaram sua tarefa de escolher, dispor e conferir todas as informações coletadas, tinham um quadro das coisas tal como eram. Mas isso foi apenas parte de sua tarefa. Deviam, em seguida, dedicar-se ao exame das coisas como deveriam ser. A essa altura os planificadores se reuniram com os chefes de governo. “As conclusões da Comissão de Planejamento Estatal e seus projetos foram submetidos ao endosso do governo, estando a função de planificação separada da liderança, não se submetendo a segunda à primeira.”                   

Em todo esse desenvolvimento do primeiro plano, surgiram duas tendências quanto ao objetivo principal: 

  1. Seria melhor concentrar-se na produção de artigos para o povo comer, vestir e usar agora? Ou seria aconselhável dar especial atenção à construção de fábricas, usinas de energia, estradas de ferro, o que significaria menos agora para o povo, mas muito mais no futuro? Desenvolver as fábricas de artigos de consumo significava o bem-estar imediato, desenvolver as fábricas de artigos significava o bem-estar de amanhã. Qual o melhor? 
  1. Seria melhor política concentrar-se na produção daquilo que se pudesse fazer melhor, ou importar o que se fazia mal ou com deficiência? Ou seria mais sensato procurar obter todo o abastecimento dentro de suas próprias fronteiras? 

Pelo fato de que uma comunidade agrícola não pode proporcionar o alto padrão de vida de uma comunidade industrializada – os russos se dedicaram à tarefa da industrialização. 

Capítulo 23 – Um admirável mundo novo? 

O mundo que Huberman nos descreveu nas páginas anteriores mudou muito depois de 1936 até hoje. Nestes mais de 70 anos, a tecnologia, os padrões de consumo, os de comunicação de massa, de organização política e partidária tornaram-se quase irreconhecíveis. Vejam só: a Europa deixou de ocupar o lugar central na cena internacional; a União Soviética, que representava para ele, e para muitos, a materialização do sonho de uma sociedade mais justa e fraterna, capaz de conduzir-nos ao comunismo, também deixou de existir, assim como foram por terra outras experiências de implantação do socialismo surgidas no pós-guerra; os antigos impérios coloniais inglês, francês, holandês, belga e português despareceram e deram origem a novos países independentes na África e na Ásia. Os Estados Unidos, que substituíram a Europa no papel de centro econômico, político, militar e cultural do ordenamento mundial, fizeram valer sua visão de mundo: individualismo, consumismo e imediatismo. 

Para melhor situar a crítica que era feita no pós-guerra ao capitalismo e ao livre mercado (hoje em dia tão intensamente defendidos), é preciso que nos lembremos que depois da crise de 1929 o capitalismo – que já naquele momento podia ser definido como de monopólio – mostrava uma face muito pouco atraente. Para superar as crises, como a de 1929, e se proteger de novos abalos, ele havia vinculado sua sorte a uma firme articulação com o Estado, seja se sustentando nos gastos públicos dos governos, seja na preparação da guerra que a todos parecia inevitável. Armamentos e grandes empresas. Nos dois casos, a atividade econômica governamental mantivera o paciente vivo, mas não produzira distribuição de renda. Ou seja, as medidas protegiam o capital, mas não traziam melhorias significativas para os trabalhadores afetados pela crise. 

Keynes não via como o maior de todos os males a ocorrência de déficits no orçamento público, ou seja, as situações em que o governo gasta mais do que arrecada não precisariam ser evitadas a qualquer custo, como os economistas clássicos propagandeavam. Se para que as obras públicas fossem feitas e para fornecer os empréstimos que iriam debelar a crise o governo precisasse gastar mais do que arrecadava, ele não deveria deixar de fazê-lo temendo desequilibrar o orçamento, pois o resultado do desequilíbrio das contas seria compensado pelo reaquecimento da economia. 

Segundo a orientação sustentada  no teatro pós-guerra, sob a liderança dos EUA, as resoluções do acordo final de Bretton Woods estabeleceram, debaixo do guarda-chuva da ONU, a criação do Fundo Monetário Internacional (FMI), cuja função é garantir a estabilidade da moeda, e do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD).

O mais importante, todavia, foi o reconhecimento do papel-chave a ser desempenhado pelos EUA na gerência do sistema. Coube à moeda americana, o dólar, servir de referência às demais moedas. 

Apesar do prestígio e da influência crescentes, dos sucessos tecnológicos e militares alcançados – domínio da tecnologia nuclear, lançamento do Sputnik (primeiro satélite de comunicações), do primeiro homem no espaço (Yuri Gagarin), da primeira sonda à Lua – os comunistas irão sofrer golpes sucessivos durante as décadas de 1950 e 1960. 

Mais do que a disputa pelo poder que se seguiu à morte de Stalin, em 1953, a denúncia dos crimes hediondos cometidos por ele para “defender o socialismo” feita no XX Congresso do Partido Comunista da URSS, em 1956, chocou o mundo que, ainda atônito com as recentes revelações, assistiu aturdido ao uso da violência política e militar para derrotar as insurreições e revoltas populares ocorridos em Berlim Oriental, na Polônia e na Hungria. A incapacidade dos soviéticos de elevarem a sua produtividade, não obstante os avanços tecnológicos, chamou a atenção. A insegurança em relação ao abastecimento doméstico básico chegou ao ponto de os soviéticos terem de importar grãos dos países capitalistas para evitar a fome em 1963. Podemos imaginar o efeito dessas medidas no sentimento de apoio dos soviéticos aos seus governantes. 

Capítulo 24 – Da expansão à crise: a história insiste em continuar  

Poucos momentos da história podem ser tão adequadamente descritos como “tempos de prosperidade” quanto o período que se estende da década de 1940 até o início da década de 1970. Não apenas a acumulação de capital avançou, em escala global, com um vigor imprevisto e sem precedentes – com as recessões suavizadas pela mediação do Estado –, como as sociedades socialistas e pós-coloniais percebiam-se vivendo melhor do que no passado, seja pelo acesso às novas tecnologia, aos novos serviços e bens, seja pela importância relativa de que passaram a desfrutar. Mas, depois da bonança, vêm as tempestades e elas não tardaram a vir.

Em Paris, no México, no Brasil ou na Checoslováquia o descontentamento com a ameaça nuclear e as guerras – o Vietnã, em particular –, com a ausência de liberdade individual e com a opressão política combinava-se com a denúncia de um crescimento econômico voltado para a acumulação de riquezas e não para a satisfação da população, no qual os trabalhadores eram pensados como máquinas a serviço da produção, desprovidos de criatividade ou ritmo próprio. Negava-se a prioridade concedida à racionalidade técnica que resultava na burocratização do cotidiano e na alienação das instituições em relação à vida das mulheres e homens reais. Criticava-se o abandono dos projetos de mudanças profundas em nome da pacificação da vida política e da manutenção da estabilidade dos governos. 

Entretanto, em Praga também se combatia o controle que os soviéticos exerciam sobre o partido comunista e o governo checo – inclusive com a presença de tropas soviéticas no território – e sonhava-se com um socialismo com rosto humano, como se dizia então, ecoando as palavras de Alexandre Dubcek, secretário-geral do Partido Comunista checo, e uma das lideranças  no movimento. 

Não obstante a existência do bloco socialista, a reação não tardou, sob a nova ordem neoliberal. Devia-se elevar os lucros, mesmo aumentando a desigualdade. A reação conservadora teve início em 1979, quando Margaret Thatcher foi eleita primeira-ministra britânica, tornando a Inglaterra o primeiro dos países de capitalismo avançado a ter um governo publicamente empenhado em pôr em prática um programa neoliberal. Ronald Reagan, em 1980, chegou à presidência dos Estados Unidos com uma plataforma semelhante. Em 1982, foi a vez da Alemanha, com Helmut Kohl. Em 1983, a Dinamarca elege Poul Schlüter numa clara coalizão de direita. Em seguida, quase todos os países do norte da Europa ocidental, com exceção da Suécia e Áustria, seguem o mesmo caminho. 

A hipocrisia e o cinismo dos discursos que proclamavam valores acintosamente distintos dos que imperavam na prática – que alardeavam a igualdade entre todos os cidadãos, a solidariedade e a solidez das conquistas soviéticas – projetavam-se sobre a sociedade e resultavam em apatia, descrença coletiva e reforço dos valores individualistas. O quadro se torna mais crítico quando em meados de 1970 o crescimento econômico do bloco soviético começa a patinar. 

As reformas de Gorbachev continham o compromisso de garantir a autonomia dos países do leste europeu. O custo de manter o império revelava-se impagável, e ao secretário–geral parecia mais estratégico, naquele momento, assegurar o centro do poder. O afrouxamento do controle acabou por promover, ainda que de forma gradual, mudanças radicais nas órbitas dos antigos satélites e dos países membros da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. As diferentes repúblicas passaram a afirmar sua soberania. Polônia, Hungria, Checoslováquia e Romênia põem fim ao domínio político dos comunistas.

Com a derrubada do Muro de Berlim, em novembro de 1989, a Alemanha se reunificou sob hegemonia capitalista. Incapaz de conter a desagregação política e econômica que lhe corroia, a URSS deixava de existir em dezembro de 1991. 

E, sem precisar pedir licença, eis que a crise volta a golpear a economia mundial. A crise que começou com o estouro da bolha que fazia girarem os créditos imobiliários norte-americanos ganhou proporções mundiais, afetando os mercados financeiros e os setores industriais com a velocidade proporcional à circulação de capitais do mundo contemporâneo. Empresas negociadas nas principais Bolsas mundiais perderam US$ 17 trilhões em 2008, a soma do PIB dos EUA e da Alemanha. Os governos reagiram injetando liquidez, isto é, colocando dinheiro nas empresas, o que é, na realidade, uma emissão de dinheiro público a serviço das altas finanças, e não da população em geral. Os gastos efetuados ultrapassam, em muito, o que foi despendido nas maiores crises financeiras da história. É possível que estas e novas medidas evitem uma depressão prolongada, mas nem isso está garantido. 

O certo é que se trata da maior crise desde 1929, quando o desemprego chegou a 30% nos EUA. Suas origens efetivas e seus impactos sobre a reestruturação do capitalismo ainda não podem ser avaliados, mas, sem dúvida, ela colocou em evidência aquilo que os neoliberais faziam questão de varrer para debaixo do tapete – a estreita relação entre a política e os grupos mais influentes do capital, a verdadeira comunhão entre Estado e mercado. 

Ficha técnica: 

Título: História da riqueza do homem 

Título original: Man’s Worldly Goods 

Autores: Leo Huberman e Marcia Guerra 

Primeira edição: Editora LTC