“Muitas empresas usam ESG para fazer marketing”

Para Fabio Alperowitch, sócio da Fama Investimentos, a adoção de critérios ambientais, sociais e de boa governança não se faz do dia para a noite

Publicado em 12 de Maio de 2021

A adoção do capitalismo de stakeholders e de práticas ESG vêm causando ao menos um efeito colateral no segmento corporativo. Trata-se daquilo que especialistas no assunto chamam de greenwashing. Acontece quando uma empresa se apropria de temáticas socioambientais apenas para promover pautas positivas e fazer marketing.  

De olho nesse movimento, Fabio Alperowitch, sócio da Fama Investimentos, diz que a prática é corriqueira e está diretamente relacionada ao fato de que a maior parte das empresas tem pressa, pois já entendeu que corre o risco de ficar de fora das carteiras de investimentos de bancos, corretoras e gestoras independentes se não se mexer. 

Cabe aos analistas, segundo ele, o complexo trabalho de separar o que é consistente e tem qualidade do que é mera propaganda. 

“As empresas controlam as narrativas. Elas vão pegar esses lados bacanas e expor. Vamos ver um show de marketing. Relatórios de sustentabilidade com crianças felizes correndo em campos de lavanda, meia dúzia de indicadores e o mercado vai bater palmas e dizer ‘que linda essa empresa’”, ironiza. 

Mas nem tudo é negativo. Nesta entrevista ao Experience Club, o fundador da gestora – que administra um patrimônio de R$ 2,7 bilhões e tem 15 empresas em seu portfólio –, elogia companhias como Magazine Luiza, Renner, Klabin e Localiza. 

“Adotar a agenda ESG requer a coragem de fazer escolhas. E elas fizeram. Por isso, são bons exemplos”, acredita. 

A seguir, os principais temas abordados na conversa.  

1  Ética é inegociável 

Para o especialista, essa é a primeira linha de corte. Se a conduta de gestores ou do grupo controlador estiver desalinhada com os propósitos da Fama, a ação não entra na carteira. Mesmo que a companhia seja sólida e tenha muito potencial de crescimento. “Do ponto de vista conceitual, a definição de ética varia. Quando digo que não invisto em empresas antiéticas, de certa forma, estou sendo arrogante, pois estou dizendo que meu conceito de ética é o correto. Mas sou gestor de recursos de terceiros, que confiaram esse dinheiro a mim, e é assim que eu penso. Para muitos, atitudes antiéticas estão sempre relacionadas à obtenção de vantagens financeiras.”  

[Ele dá mais exemplos práticos sobre ética no vídeo] 

2  Visão integrada  

O gestor pondera que o acrônimo ESG, cunhado em 2005, teve o grande mérito de ser de fácil assimilação, em diferentes línguas. Por outro lado, acredita que a separação por letras, que definem diferentes dimensões, dá a ideia errada de separação. “Trazer as letras de uma forma separada não faz sentido. Não há E sem o S ou sem o G. As questões ambientais são sociais. As questões sociais são de governança. Temos de entender assim.”  

3  Greenwashing 

Como as empresas precisam mostrar serviço para serem atrativas aos olhos dos analistas do mercado de capitais, muitas estão usando a agenda ESG para cavar pautas positivas e fazer marketing. É preciso separar o joio do trigo. “Todo mundo tem seu lado bonito. Nenhuma companhia é totalmente insustentável. As empresas controlam as narrativas. Elas vão pegar esses lados bacanas e expor”, afirma. 

4  Foco no longo prazo 

Alperowitch aposta em empresas cuja cultura é construída levando em consideração suas relações com os diferentes públicos: clientes, fornecedores, funcionários. “Essas empresas conseguem obter uma relação perene e não ficam se apegando apenas aos resultados de curto prazo. Bater metas é importante, mas se a empresa ficar atenta apenas a isso, vai perder ótimas oportunidades.” 

[No vídeo, ele destaca o exemplo da Renner na pandemia] 

5  O risco das estatais  

A análise de empresas que entram ou não na carteira da Fama se dá sempre caso a caso. E há uma regra bem clara: a gestora não investe em estatais. “A cada quatro anos há eleições. Se nosso racional é entrar numa empresa e ficar dez, e a cada quatro tudo pode mudar, seria um risco muito grande. Empresas de commodities, que dependem muito de câmbio ou da variação do preço da própria commodity, também não gosto. Gostamos de investir em empresas dominantes, vencedoras e que não estejam em processo de reestruturação”, diz. 

6  Egoísmo X conscientização 

Embora ressalte que não se deva generalizar, o gestor acredita que empresas, em geral, têm sido muito egoístas ao longo da história, no sentido de olhar apenas para suas próprias bolhas. “A Covid trouxe uma reflexão, no mínimo diferente, nesse sentido. Sei disso porque muitas empresas me procuraram nesse período e estão se questionando sobre seu papel”, afirma. 

7- As ESG preferidas 

As empresas escolhidas pela Fama têm alguns pontos em comum: dominam seu segmento de atuação, têm história de crescimento e consolidação setorial e incorporam a agenda ESG para além do discurso, avalia Alperowitch. “Gosto do Fleury, Renner, MRV, Klabin, Localiza, Duratex. São muito bem desenvolvidas no âmbito do ESG”, diz.