“O maior aprendizado é a superação. Manter as equipes engajadas e focadas nos resultados”

“O maior aprendizado é a superação. Manter as equipes engajadas e focadas nos resultados”

Sidney Manzaro, VP de Mercado Brasil da BRF, conta como a empresa superou os desafios de atuar num serviço essencial durante a pandemia e extraiu aprendizados que vão fortalecer as relações com os colaboradores

Publicado em 22 de setembro de 2020

Como manter um serviço tão essencial quanto o abastecimento de alimentos, em um contexto de um ecossistema complexo, que envolve setores tão variados quanto fornecedores no campo, fábricas, logística, consumidor final. Esse era o desafio da BRF durante a pandemia. Proteger as pessoas foi a principal preocupação da empresa, que desde os primeiros sinais da gravidade da doença no exterior já começou a se preparar para implementar protocolos de segurança. E não apenas para quem estava lá dentro. A empresa atua em todo o ecossistema, que inclui fornecedores, clientes, governo e a comunidade com um todo.

Nesta entrevista ao Experience Club, o vice-presidente de Mercado Brasil da BRF, Sidney Manzaro, fala sobre os principais aprendizados do maior desafio de seus 40 anos de carreira. Ele diz que a companhia, que sempre teve em sua essência colocar as pessoas em primeiro lugar, teve seus propósitos testados. E que agora a avaliação mais importante é a dos colaboradores, que conhecem a fundo a atuação da empresa. “Isso vai fazer com que a BRF e seus colaboradores saiam muito mais fortes. E o orgulho de pertencer, de fazer parte de uma empresa como essa, vai aumentar ainda mais”, diz ele. Confira:

Este ano, com a pandemia, está sendo especialmente desafiador. A BRF tem mais de 90 mil colaboradores, em situações diferentes: alguns em home office, outros na produção, outros na linha de frente, nos pontos-de-venda. Qual é o papel da alta liderança para manter os times engajados?

Sidney Manzaro – Não é diferente do papel efetivo de um líder. Primeiro, dar direção, propósito, fazer com que as pessoas entendam, de forma simples e direta, quais são as prioridades. E fazer com que todos entendam o correto significado e engajamento em relação ao que deve ser priorizado. Esse é o papel da liderança. Dar clareza e propósito na direção e assegurar que as prioridades sejam entendidas e seguidas.

Quais são os principais aprendizados na gestão das equipes nesse contexto?

Sidney Manzaro – Acho que quando lidamos com alguma coisa que não é totalmente prevista, algo sem precedentes – e eu diria que não passava pela minha cabeça que eu ficaria seis meses em casa de home office –, num primeiro momento isso gera preocupação de saber se aquilo que você fazia antes vai ser feito com a mesma qualidade e produtividade. E depois a gente vai se reinventando e se descobrindo.

O maior aprendizado é a superação. Entender como lidar com um cenário sem precedentes, manter as equipes engajadas, focadas nos resultados e se cuidando. Cuidando delas e dos próximos. O novo cenário fez com que a gente quebrasse alguns paradigmas de como lidar, mesmo a distância, com situações tão relevantes e importantes. Um pano de fundo bem desafiador, com uma responsabilidade enorme sobre a vida das pessoas. Esse foi o aprendizado. Depois de 40 anos de carreira, viver uma situação dessa traz grandes aprendizados e isso nos deixa bastante felizes.

De que maneira um modelo de gestão ágil pode ajudar na quebra de silos dentro da empresa, facilitando os processos de inovação, ainda mais importantes neste momento de tantas transformações de cenário?

Sidney Manzaro – Esse movimento foi efetivamente uma quebra de paradigmas. Tivemos que tomar decisões ágeis. Quando colocamos a vida das pessoas no centro e cuidamos uns dos outros, não tem muito espaço para burocracia, para hierarquia, para processos que não são efetivos e produtivos. Acho que o grande aprendizado é que, quando a gente tem um desafio que acaba sendo uma motivação para todos, a gente consegue superar todos os desafios, sejam eles de velocidade, qualidade, intensidade.

E como manter o propósito da empresa neste cenário de incertezas? Qual é o papel do líder e como manter a cultura organizacional?

Sidney Manzaro – Na verdade, o propósito é desafiado. Você seguir o propósito quando as coisas vão bem é fácil. O difícil é manter o propósito quando você tem que tomar decisões que priorizam pessoas e resultados e ao mesmo tempo estão ligadas à sua cultura. Esse foi talvez o maior aprendizado e o que mais agregou valor ao nosso negócio. Fomos testados. Já estava na nossa essência colocar as pessoas em primeiro lugar. Segurança, qualidade, integridade, eram pontos inegociáveis. Sempre dissemos que o nosso trabalho era de interdependência, que as pessoas tinham papel importante na liderança. Isso tudo foi testado. Se você realmente acredita em qualidade, segurança e integridade, como é que você vai agir diante de um cenário como esse? Nós demonstramos que estávamos muito bem alinhados na relação propósito versus práticas.

Acho que todas as empresas, não só a BRF, serão avaliadas com mais propriedade não pelos analistas, jornalistas ou outros stakeholders. Quem vai efetivamente avaliar a BRF são seus próprios colaboradores, que conhecem a fundo todas as iniciativas e preocupações que a empresa teve.

Isso vai fazer com que a BRF e seus colaboradores saiam muito mais fortes. E o orgulho de pertencer, de fazer parte de uma empresa como essa, vai aumentar ainda mais.

A BRF atua numa longa cadeia, desde o campo até o promotor nos pontos-de-venda. Com o isolamento social, surgiu um desafio a mais nessa operação. Como foi liderar a distância tantas equipes e fornecedores?

Sidney Manzaro – As nossas iniciativas de reação rápida foram fundamentais. Antes mesmo da Covid chegar já tínhamos um comitê de acompanhamento instituído, tomando medidas que poderiam nos preparar. Não imaginávamos que o impacto seria tão intenso, mas já estávamos com o plano montado. Quando aconteceu, já tínhamos alguns planos para atuar no agro, nas fábricas, para atuar em logística, em vendas, e acho que esta antecipação nos trouxe alguma vantagem. O grande passo foi termos nos organizado, nos estruturado e pensado em todas essas frentes de uma forma bem ampla. Temos um ecossistema enorme que agrega fornecedores, clientes, governo e comunidades. Trabalhamos bastante no sentido de dar condições de saúde melhores para as comunidades onde atuamos, por exemplo.

A BRF atua num setor essencial. Como lidar com o engajamento dos colaboradores internos e fazer com que isso seja transferido para os clientes, chegando a toda a cadeia?

Sidney Manzaro – O primeiro passo foi ter a consciência da importância que tínhamos dentro desse cenário. Garantir o abastecimento do alimento para a população brasileira é um negócio essencial, e trabalhamos todas as frentes para levar isso adiante. Esse é um primeiro ponto. O segundo ponto, e tão importante quanto, é fazer com que as pessoas pudessem ser muito bem cuidadas. Então trouxemos consultorias, que nos deram panoramas internacionais para que nos antecipássemos, buscamos ajuda de especialistas. Trouxemos para perto o Dr. Esper Kallas, um dos especialistas de maior renome na Infectologia do País, depois trouxemos um time do Hospital Albert Einstein para nos ajudar não só internamente, no agro, nas fábricas, mas também para interagir com os clientes. Fizemos inúmeros webinars, dividindo o nosso conhecimento e aprendendo com os outros, buscando as melhores práticas. Isso foi nos dando um conhecimento proprietário que fez com que avançássemos rapidamente no cuidado com as pessoas e na adequação de toda a estrutura.

A BRF reconhece seus colaboradores com um Kit de Natal todos os anos. Qual sua percepção sobre o simbolismo do presente, como ferramenta de engajamento no contexto atual?

Sidney Manzaro – Estamos falando de um momento tradicional. Mais do que um kit, é uma maneira de compartilhar o quanto reconhecemos a importância de todos estarem engajados, de todos estarem trabalhando conosco. Neste sentido, o kit é um símbolo de reconhecimento ao empenho e à colaboração de todos no processo. Todos nós passamos um momento muito difícil, de apreensão, de inseguranças. Este ano, quando estivermos reunidos com as pessoas mais próximas, talvez em ceias menores, será um momento de celebrar a vida. E cada vez mais estamos tendo boas notícias – espero que em breve a vacina. Mas sem dúvida nenhuma vamos ter uma celebração diferente, ainda mais forte.

E os kits também são um produto da BRF nesta época do ano. Quais são as recomendações para criar um protocolo de entrega que proteja todos os envolvidos nesse processo?

Sidney Manzaro – São os protocolos que já adotamos, não só para esta operação. Sabemos que neste momento mágico somos parte atuante na ceia, na mesa dos brasileiros. Toda a nossa equipe está com os equipamentos de segurança adequados. Esse kit está sendo feito com toda a higienização. Estamos tomando todos os cuidados para que as pessoas tenham um ambiente seguro.

E este é justamente um desafio para muitas companhias, que querem também reconhecer o colaborador dessa maneira, mas têm um desafio com a logística. Vocês estão ajudando as empresas a montar essa operação de entrega?

Sidney Manzaro – Trabalhamos de uma forma bastante planejada e organizada. Estamos falando com todas as equipes, em todas as áreas das empresas, sobre como organizar esse processo. Hoje tem uma equipe dedicada a criar todos os protocolos de segurança. Não só para entregar, mas também para as pessoas receberem. Todos esses processos estão sendo cuidados por nós.

O setor de alimentos passou por muitas transformações neste ano, com mudanças nos hábitos de consumo, muita gente passou a cozinhar mais em casa. Isso muda a estratégia da BRF?

Sidney Manzaro – Sem dúvida nenhuma ela traz uma mudança que impulsiona ainda mais as nossas categorias de consumo dentro do lar. Como as pessoas tinham restrição para sair de casa, em função da quarentena, houve um impacto direto no consumo. As pessoas fazem mais bolos, consomem mais margarina, fazem mais refeições, consomem mais pratos prontos, o nosso portfólio de frangos, de suínos. Tivemos que fazer uma adequação na nossa linha de produção, na nossa maneira de distribuir e na nossa maneira de vender para nos encaixarmos nesse processo.

Quais são as lições que você está tirando de todas as mudanças deste ano? O que vai ficar? 

Sidney Manzaro – Esta frente de B2B, B2C, preparo fora de casa e consumo dentro de casa, ou e-commerce para atender a essa demanda, é um negócio que vinha crescendo, mas acelerou e não volta mais ao que era. O que levamos de aprendizado é que nunca foi tão verdadeira a premissa de colocar o consumidor no centro e fazer com que ele tenha todas as opções não só naquilo que ele quer comer, mas da forma como ele quer ser atendido. Temos diferentes consumidores e diferentes maneiras de atender. Algumas delas aceleraram muito e a gente teve que se adaptar. Maior conveniência e praticidade. Aumentou muito o consumo via e-commerce, aumentaram as parcerias com o varejo para que o consumidor não tivesse dificuldade de encontrar os produtos, criamos uma loja dentro do Rappi, fizemos uma parceria para entregas rápidas. Conseguimos montar um ecossistema que atendesse ao consumidor de forma plena.

Texto: Denize Bacoccina
Imagem: Reprodução