“O objetivo do TransEmpregos é não precisar existir”

Márcia Rocha, cofundadora da maior plataforma de recrutamento para profissionais trans do país, fala sobre os desafios da agenda de diversidade

Publicado em 30 de junho de 2021

A agenda de inclusão e diversidade vem avançando muito no país. Sobretudo ao longo da última meia década, ganhou impulso com ações afirmativas levadas à frente por grandes empresas e encontra nas práticas ESG um poderoso aliado.

No entanto, há ainda uma longa jornada a ser percorrida até que a ideia de que quanto mais diverso for o ambiente corporativo, melhor para as empresas, esteja completamente naturalizada – ideia esta já comprovada por diversas pesquisas e estudos.

A avaliação é da advogada e empresária Márcia Rocha, que fundou, em 2014, junto com a também advogada Maite Schneider e a cartunista Laerte Coutinho, o TransEmpregos.

“O maior problema ainda é o preconceito. Empresas são formadas por pessoas, e muitas são preconceituosas. Não é só abrir a vaga. É ver se a empresa tem condições de receber um profissional trans”, afirma.

Desde sua criação, a plataforma tem registrado, de um lado, cada vez mais companhias interessadas e, de outro, forte aumento de sua base de currículos – atualmente na casa dos 25 mil. “Em 2020, com crise e pandemia, 707 profissionais foram contratados”, conta.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista:

1 – Jornada longa

“Lançamos para valer o TransEmpregos em 2014 e, na época, o Fórum de Empresas e Direitos LGBT, que tinha nove empresas, me chamou. No primeiro evento de que participei falei sobre a questão trans. Multinacionais que participaram do Fórum se sensibilizaram e começaram a contratar trans em 2015, algumas dezenas.”

“De lá para cá, o Fórum passou a ter 100 empresas e nós acabamos de atingir 970. Vem crescendo muito. Neste ano, tem sido impressionante. O tema diversidade e inclusão nas empresas está muito em pauta”.

“Em 2015, foram algumas dezenas. Em 2016, 17 e 18, eu sei que vinha crescendo porque o volume do meu trabalho aumentou. No início, havia 400 currículos. Hoje estamos batendo 25 mil”.

“As pessoas contratadas falam para a comunidade trans e as empresas também comentam com outras, e isso ajuda a divulgar”.

“Mas ainda há muito trabalho pela frente. A finalidade maior do TransEmpregos é não precisar mais existir. Acho que vamos chegar lá um dia, mas nós (essa geração) não vamos ver.”

2 – Diversidade sem ingenuidade

“Não vou jogar as trans para os leões. É preciso conhecer bem as empresas e o ambiente onde o profissional será inserido. Já recusei empresa enorme, que não marcou reunião nossa com o departamento de recursos humanos. Era o mínimo. Pode até ter alguém que anuncia uma vaga e quer causar uma violência”.

“Se tem uma coisa que eu não sou é inocente. E no ambiente empresarial tem de tudo. Já vimos o caso de uma empresa que se reuniu conosco por três anos. Queria contratar, tinha ordem do CEO, mas havia algum gargalo interno no RH que impedia. Só neste ano contrataram a primeira”.

“Por outro lado, há empresas que têm mil funcionários trans. É o caso da Atento, nossa parceira. Há empresas que fazem ações afirmativas.”

3 – Reeducando empresas com o ESG

“Empresas são feitas por pessoas, por gente. Do dono, o CEO, até a pessoa que faz o café, e essas pessoas vivem numa mesma sociedade, no mesmo planeta. As pessoas têm amigos LGBT, negros, filhos de negros. Nosso país tem uma população com mais de 56% de negros e mais de 52% de mulheres. Como você não vai dar importância a essas questões?”

“As empresas precisam caber no mundo atual. Vivemos num ambiente de escassez. Vai faltar água, vai faltar tudo. Ou seja, se não cuidarmos do ambiente, vamos morrer. Até o CEO”.

“Temos de pensar em diversidade. Não vivemos numa época, na antiguidade, na qual você tinha de atacar o inimigo para comer. Hoje, com a globalização, temos que conviver com a diversidade humana, biológica e outras. Não há mais espaço para dizer que mulheres ou negros não possam estar neste ou naquele lugar, por exemplo.”

4 – O papel das grandes empresas

“A Atento já tinha trans antes de ser nossa parceira. Por quê? Telemarketing não lida com a imagem. Então, muitas pessoas trans já sabiam e nós escutávamos isso”.

“Às vezes, o profissional era qualificado, mas não conseguia emprego fora do telemarketing. Afinal, ali, ninguém está vendo, o preconceito é menor. Se bem que, de alguma forma, viemos para acabar com isso.”

5 – Atuação independente

“Somos eu Maite e a Laerte. A Laerte, por sua característica e atuação, não se envolve com empresas. Mas ajudou bastante, principalmente no começo, a divulgar o projeto. E, claro, fez a nossa logo”.

“Como a gente se banca? Eu banco. Sou empresária. Temos muito trabalho voluntário. Antes, eu chegava a ir a evento, a convite, e pagava até o estacionamento do próprio bolso”.

“No começo houve quem quisesse pagar pelo projeto e eu disse não. Faço o que acho certo e isso não tem preço. Não quero ganhar dinheiro com ativismo. Se alguma empresa nos doa alguma verba, isso é revertido para o projeto.”