O unicórnio de Miami que explora estacionamentos

Reef já captou US$ 1,5 bilhão com modelo de negócios que transforma espaços antes destinados a carros em centros de logística e serviços

Publicado em 31 de agosto de 2021

Nos Estados Unidos, mais de 50% dos imóveis localizados na região central das grandes cidades são usados como estacionamentos ou garagens, reflexo de um modelo urbano construído em função do uso de automóveis. Mas e se estes espaços fossem reutilizados em prol da comunidade e da economia local, como centros de logística e entregas de última milha ou restaurantes móveis? 

Este desafio urbano foi o que levou os empreendedores Ari Ojalvo e Umut Tekin a criar em 2013 a Reef Technology, que se tornou o primeiro “unicórnio” (empresa com valor de mercado acima de US$ 1 bilhão) de Miami e hoje é a maior rede de estacionamentos e garagens da América do Norte. São cerca de 4,5 mil imóveis de propriedade da empresa e que foram transformados em “centros de vizinhança”, conectando pessoas a bens, serviços e experiências com uma curadoria local, de acordo com a necessidade de cada região. 

Atualmente, 50 cidades dos Estados Unidos e do Canadá contam com estacionamentos inteligentes e espaços de convivência, com mini centros de logística e retirada de encomendas, além de restaurantes que operam com entregas online. 

“Acreditamos que um estacionamento deve ser mais do que um lugar para guardar o carro, pode ser também um espaço para a comunidade se conectar a negócios e serviços. Por termos uma pegada imobiliária e experiência em logística, temos todas as condições de construir um modelo mais acessível de serviços nos bairros, sem precisar que as pessoas fiquem paradas no trânsito. Queremos preencher essa lacuna e fornecer serviços de forma rápida e confiável”, disse Ojalvo em entrevista ao portal Refresh Miami, no início deste ano. 

Ao criar uma plataforma de inovação urbana, a Reef chamou a atenção de um dos maiores fundos de venture capital do mundo, o japonês Softbank, que investiu US$ 800 milhões na startup em 2018. No ano passado, em conjunto com o fundo Mubadala Capital, de Abu Dhabi, reforçou a aposta no modelo de negócio em uma nova rodada de US$ 700 milhões.

Com mais da metade da população global vivendo em áreas urbanas, uma série de problemas tem pressionado as grandes cidades nas últimas décadas, em especial o aumento do valor dos imóveis e dos congestionamentos no trânsito. Não que o problema seja novo: Ojalvo cresceu na Turquia e se acostumou ao tráfego pesado e às dificuldades de mobilidade, uma experiência fundamental para desenvolver a startup. 

“Quando eu era jovem, as empresas de entrega locais usavam os estacionamentos do bairro para parar e distribuir seus produtos – para evitar bloquear a rua e causar congestionamento. Esses problemas de transporte versus pedestres existem há muito tempo, pois as cidades foram construídas em torno de carros”.

Referência no ecossistema de Miami, a empresa deve gerar pelo menos 350 empregos na cidade neste ano. As vagas são voltadas a diversas especialidades, de engenharia e desenvolvimento de negócios a operações culinárias e atendimento. Um dos objetivos da empresa é fortalecer o papel da cidade como um centro de tecnologia nos EUA. 

Impulso digital à gastronomia

Uma das novidades do modelo de negócio da Reef é a plataforma de cozinhas de vizinhança. Criada para apoiar empreendedores que não têm condições de investir em restaurantes tradicionais, a startup incentiva a criação de pequenos estabelecimentos voltados ao e-commerce em seus terrenos. A equipe ajuda no desenvolvimento de cardápios, contratação e treinamento de pessoal, gerenciamento de estoques, atendimento ao público, supervisão de instalação e ações de marketing. 

O modelo, que começou a funcionar meses antes da pandemia, acabou sendo uma oportunidade e também uma resposta ao fechamento de restaurantes ao público, o que provocou perdas de pelo menos US$ 250 milhões em 2020, segundo estimativa da Associação Nacional de Restaurantes dos EUA.  

Como explica Ojalvo, “da noite para o dia, nossos bairros se tornaram nosso mundo inteiro. Como resultado, os negócios que atuam somente com entrega e operam digitalmente cresceram. Nossa plataforma de cozinhas de vizinhança cresceu de maneira acelerada – nossa meta de expansão de um ano foi batida em poucos meses”. 

Em junho passado, a Reef e a gestora Brookfield Global Asset Management lideraram uma rodada de US$ 80 milhões na plataforma Creating Culinary Communities (C3), que opera 250 “cozinhas digitais” nos Estados Unidos. “Mesmo após a Covid e o retorno dos negócios a seus locais de atendimento fixo, essas empresas podem se expandir a outros bairros ou cidades”, resume o cofundador. 

Texto: Fabricio Umpierres