Os millennials estão sendo expulsos da classe média?

Alto custo de vida, dívidas com educação e incerteza econômica moldam uma geração com dificuldade para se ajustar ao mercado de trabalho.

Publicado em 21 de novembro de 2019

Os millennials são uma geração com menos suporte econômico que a de seus antecessores. Apesar de todas as facilidades e expectativas em torno das novas tecnologias, um estudo recente lançado este ano pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indica que, desde meados do século passado, o percentual de pessoas na casa dos 20 anos que se enquadram na classe média nunca foi tão baixo quanto na geração millennial, nascida entre 1983 e 2002. Na média dos países da OCDE, o percentual é de 60%, enquanto na Geração X (1965 a 1982) foi de 64% e, entre os baby boomers (1942 a 1964), de 68%.

Mesmo com a crise de 2008 e os elevados índices de desemprego no mundo, nos anos que se seguiram, a narrativa mais comum é a de que o fracasso é culpa dos próprios millennials, frequentemente classificados como acomodados, desinteressados por carreiras tradicionais e viciados em tecnologia e videogames. De fato, pesquisas mostram que se trata de uma geração sonhadora, que privilegia trabalhos com propósito, demora a sair da casa dos pais e a constituir família. Mas há também quem atribua tal comportamento não à algo inerente a geração em si, mas ao fato de ter sido moldada em um ambiente de crescente desigualdade. 

É o caso do americano Michael K. Spencer, consultor em blockchain da Mark Consultant e futurista. Em um artigo recente publicado na plataforma Medium, Spencer levanta a questão. Em defesa da geração millennial, da qual faz parte, cita como justificativas para a má reputação as elevadas dívidas contraídas para estudar competências que têm se tornado rapidamente obsoletas, os custos crescentes de moradia e aquisição de imóveis e os ganhos cada vez menores proporcionados por bicos e empregos de meio período, além do peso de todos esses fatores combinados sobre o moral dos jovens.

“Enquanto algumas pessoas perderam ações, economias de uma vida e fundos de aposentadoria, nós perdemos nossos sonhos, nossa esperança, nossa dignidade e, às vezes, nossa sanidade e identidade”, escreve. Diante de tudo isso, continua, “muitos de nós perdemos também a fé no capitalismo”.

É um drama que não costuma contar pontos nos processos de seleção das empresas. E a julgar pelas demandas atuais do mercado de trabalho, o cenário tende a piorar para os millennials. Segundo Ricardo Basaglia, diretor-executivo da Michael Page, consultoria de recrutamento de executivos, com o avanço da tecnologia e a automatização de processos, as estruturas das empresas estão mais enxutas. Em paralelo, a forma de recrutamento mudou. Antes, era mais baseada no que o profissional colocava no currículo, diz. “Hoje, as empresas estão mais interessadas em avaliar a experiência em termos de resultados, e é preciso se manter atualizado”, afirma.

“Todo profissional é como se fosse um app em constante atualização. Em relação à versão anterior, o que está trazendo de novo? Que bugs corrigiu?”

A tecnologia facilitou a tarefa de se manter em dia com as novidades. Mas, ao mesmo tempo, tornou a distância entre quem tem e quem não tem acesso a ela ainda maior, afirma Basaglia. “A régua ficou mais alta”, avalia o consultor. E, para piorar, muitos millennials estão em descompasso com as demandas atuais das empresas em relação às características interpessoais. Em geral, diz Basaglia, elas têm buscado profissionais mais comprometidos, flexíveis e capazes de alinhar interesses pessoais e profissionais na construção da carreira. Nada que combine muito com a reputação dos millennials.

Texto: Dubes Sônego

Imagem: Unsplash