Sua empresa quer viver 300 anos? Pergunte como a Jorge Petribu

Sob gestão da sétima geração da família, a Usina Petribu, a mais antiga do Brasil, se moderniza com técnicas de irrigação e diversifica a produção

Publicado em 20 de Maio de 2021

O empresário Jorge Petribu está à frente da mais antiga usina do Brasil. Prestes a completar 300 anos, a Petribu se moderniza com técnicas de irrigação e investindo na produção agrícola. Dá conta de uma variedade de produtos que vão do álcool e do açúcar até energias renováveis.  

A história da Usina Petribu começou em 1729. Nascida às margens do rio Capibaribe, a partir do engenho Petribu. Em 1909, o antigo engenho foi modernizado, com o início da primeira safra com produção direta de açúcar. “O que mantém essa longevidade é a sinceridade, a transparência e a seriedade dos negócios. A gente, ao longo dos 300 anos, que vai fazer daqui a 6 anos, passou por muitas dificuldades. Enfrentamos muitas guerras, revolução, muitas crises e conseguimos atravessar”, diz o empresário em entrevista ao Experience Club

Localizada em Lagoa do Itaenga, a 65 km de Recife, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, a Petribu conta com uma área aproximada de 20 mil hectares de plantação de cana-de-açúcar, atravessando oito municípios. E pode processar 1,7 milhão de toneladas por safra. Uma produção superior a 1 mil toneladas de açúcar por dia. Além disso, a usina produz também mais de 200 mil litros de etanol, e 2 mil toneladas de dióxido de carbono (CO2) alimentício de alta pureza diariamente. 

Já a Termoelétrica Itaenga, anexa da Usina Petribu, é responsável pela produção de 72 megawatts de bioenergia a partir do bagaço de cana e cavaco de eucalipto, que garantem a energia necessária para toda a planta, além de vender para distribuidoras. 

Dono também de um shopping center no município de Carpina, Jorge Petribu é a sétima geração da família à frente dos negócios. “Eu tenho sete irmãos. E hoje eu só tenho uma irmã presente na empresa. Então conseguimos manter a administração na mão de poucos. Fica mais fácil de tocar”, afirma. 

Confira os principais trechos da entrevista: 

1 – Perenidade

“Toda empresa familiar é dividida no momento da herança. E a gente teve a oportunidade de sempre um dos filhos comprar a parte dos irmãos. Ficar um só. Então, têm duas coisas: uma empresa que dura muito geralmente é uma empresa mais séria no mercado, uma empresa que mantém a postura ética. A outra é essa coisa de um filho só dar continuidade. Tivemos a oportunidade, ao longo dos anos, de uns quererem sair do negócio e outros ficarem, apesar da dificuldade de que na hora você tem que começar tudo de novo, porque compra a parte de alguém e se endivida, diminui o seu patrimônio, tem que vender alguma coisa. Apesar dessas obrigações, conseguimos atravessar. Não somos a maior empresa do Brasil. Dentro do Nordeste somos uma usina de porte grande, mas dentro do Brasil, somos uma usina média. Mas uma usina que se mantém ativa durante esse tempo todo dentro da ética. Não tem nenhuma coisa que comprometa na parte social, nem ambiental, nem legal, nem trabalhista, nada. É uma empresa que vive modestamente, mas vive dentro das normas e das leis. 

2 – Sustentabilidade 

“Nós temos a preocupação de manter a floresta, a fauna, a preservação de rios. O rio que corta a cidade de Recife, passa aqui na usina. É a única usina do estado que esse rio margeia. Um dos pontos mais limpos do rio é justamente onde passa a usina. A nossa preocupação é muito grande com isso. E a preocupação com os animais, evitar caçadores, evitar pessoas que tirem madeira, madeireiros. Nós temos uma fiscalização constante. Temos hoje no campo seis motocicletas com vigilantes 24 horas por dia, mais um carro de apoio para inibir qualquer ação de pessoas que queiram fazer algum mal à natureza. É um trabalho pequeno, mas contínuo”.

3 – Funcionários 

“A gente varia de acordo com a safra. Na safra, a gente chega a ter 4,5 mil pessoas. Na entressafra, a gente passa para 2,5 mil pessoas, mais ou menos.  A relação é muito boa. A gente é uma empresa que tem muito pouca demanda trabalhista. É praticamente insignificante. Nunca tivemos uma greve. Mesmo nas greves setoriais, a gente é menos atingido. Como fomos criados junto com a maioria dos funcionários, eu vivi aqui desde pequeno, é uma relação bem sadia, bem tranquila”. 

4 – Produtos 

“Nós somos a usina aqui do Nordeste que tem a linha completa de açúcar e álcool. Estamos retomando a parte de aguardente, que no passado muito antigo ainda tinha. Esse ano já começa a produzir também. Estamos com uma variedade de produtos muito grande. A gente tem a energia, que é uma energia elétrica de biomassa. Somos produtores de CO2 – para a fermentação do mosto para a fabricação do álcool, ele gera CO2. Esse CO2 a gente recolhe, purifica, comprime e vende para refrigerantes, água mineral, gelo seco. Têm várias utilidades. A energia a gente vende diretamente às distribuidoras. Nós temos o álcool de consumo doméstico, o 70% do consumo anti-covid, temos o álcool gel, o álcool carburante, que é de veículo, o açúcar, o açúcar mascavo, o açúcar demerara, o açúcar cristal, o açúcar refinado, o refinado especial, e o glacê, aquele bem fininho de bolo”.  

5 – Planos de curto prazo

“Nas duas últimas décadas foi muito forte a seca aqui no Nordeste. E como nós somos a usina mais próxima do agreste, que sofre influência muito grande da seca, sofremos muito. Tivemos um abalo bom de produtividade agrícola. E de 2014, 2015 e 2016 para cá, temos tentado recuperar isso e enfrentar essa diversidade climática, com irrigação e barragens. Temos tido algum sucesso. Mas é insignificante ainda diante da área que a gente precisa. É um investimento muito caro, e a gente tem, como sofremos com a seca, nossas limitações. Mas estamos sempre agregando mais áreas irrigadas e aumentando a produtividade. Com isso, a gente retoma uma posição mais confortável, que tinha antes. Antigamente você tinha duas secas numa década, no máximo três. Hoje tem cinco numa década, às vezes até seis. O clima mudou e a gente tem que se adaptar a ele. Essa coisa da longevidade é você se adaptar com mais rapidez aos seus obstáculos, ao seu novo ambiente. Nosso plano é ter uma produtividade agrícola maior. Nossa preocupação é aumentar a produtividade agrícola. Principalmente com irrigação, com novas variedades, com novos tratamentos científicos, técnicos, investindo na produção agrícola”.  

6 – Assistencialismo 

“Temos uma escola para atender aos filhos de funcionários, que foi fundada em 1909. É uma escola por onde já passaram mais de 17 mil alunos. É pequena, mas com um bom ensino, biblioteca, estrutura confortável. Ela vai até a quinta série. Temos também uma área social com um clube esportivo para os funcionários, ambulatório, dentista na fábrica, a parte de saúde toda. Temos a parte de lazer e essa parte social externa, que a gente faz em épocas de maior dificuldade nas regiões próximas da gente. A gente atende, de uma forma ou de outra. A última ação foram cestas básicas para quatro municípios. Mil cestas básicas, de dez quilos cada. Isso neste primeiro mês. Para o próximo, vamos ver se a gente consegue atingir outros municípios, porque a usina tem uma abrangência de oito municípios”.   

7 – Cestas básicas 

“Não há perspectiva de contratação de funcionários. A contratação é sazonal. Não deve aumentar, também não deve diminuir. Quando fiz a entrega simbólica da primeira cesta básica, eu disse ao pessoal que estava na fila: olha, isso aí não cura, alivia a dor. O que cura é o trabalho. A única coisa que cura a fome é o trabalho. Não é a cesta básica. Então, eu lamento porque em vez de entregar mil cestas básicas nos domicílios eu gostaria de pedir mil carteiras para trabalhar. Era o que eu mais gostaria. Mas infelizmente a gente tem as nossas necessidades, e nossos planos de investimento para melhorar a nossa produtividade agrícola. Isso demanda muitos recursos, e a gente não pode pensar em ampliar novas perspectivas. A gente já fez um investimento em um shopping em Carpina, que emprega um bocado de gente, e que está sofrendo muito agora”.  

8 – Covid 

“A gente teve muito pouco caso. No ano passado, tivemos só 24. Este ano, aumentou. De janeiro para cá, já passam de 40. É uma preocupação grande, mas a gente sempre distribui álcool para todos os funcionários, dá um litro de álcool por mês. Álcool 70%, distribui máscaras. Nós temos um protocolo bem montado para diminuir os riscos. Sabemos que eles existem, então temos um trabalho efetivo sobre isso”.

Texto: Cláudia Bredarioli

Imagens: reprodução