Os planos do Neon para ser “o banco do trabalhador”

Instituição cresceu 300% no ano passado, já tem 12 milhões de clientes e é candidata a se tornar mais um dos unicórnios brasileiros este ano

Publicado em 1 de julho de 2021

Pedro Conrade criou o primeiro banco 100% digital do Brasil com apenas 23 anos de idade. O impulso veio de uma péssima experiência que o fundador teve com seu banco. “Usei apenas R$ 1 de minha conta especial e paguei R$ 46 de juros. Achei um absurdo”, conta.

Como ele, muitas outras pessoas vivenciam a mesma insatisfação na sua relação com os bancos. Tanto que, somente no primeiro dia de lançamento da conta digital, 5 mil pedidos foram efetivados.

Hoje, já são mais de 12 milhões de contas abertas em todas as cidades do país, a maioria das classes C e D. Só no ano passado, o banco cresceu 300% e recebeu um aporte Série C, de US$ 300 milhões, da General Atlantic.

Mas o objetivo de Conrade é mais ambicioso. Nos próximos dez anos, quer quer criar uma nova experiência bancária, mais acessível para o público de menor renda, e transformar o Neon no “o banco do trabalhador brasileiro”. “De cara, já devolvemos um salário mínimo por ano aos nossos clientes ao não cobrar as taxas e tarifas que outros bancos cobram”, afirma Conrade.

Em entrevista ao Experience Club, o empresário falou sobre sua trajetória como empreendedor, os pontos de virada na história na história do banco e os planos para o futuro do Neon, considerado pela plataforma Distrito uma 17 startups com potencial para se tornarem unicórnios ainda este ano.

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista:

1 – Experiência de um cliente frustrado

“Sempre tive vontade de ter meu próprio negócio. Meu pai foi uma grande inspiração, ele é empreendedor raiz. Começou do nada, teve vários tipos de empresas, quebrou três vezes e se reergueu”.

“Sou do Guarujá (litoral de São Paulo) e meu primeiro negócio foi uma loja de biquínis à beira da praia. Fiquei por dois anos com a loja, depois disso consegui uma bolsa de estudos e me mudei para São Paulo, para fazer o curso de Administração de Empresas na FGV”.

“Comecei a descobrir um mundo de empresas grandes e bancos de investimento, tudo era muito novo para mim. Montei duas startups de tecnologia durante a faculdade e foi um grande aprendizado”.

“A experiência que me impulsionou foi quando usei R$ 1 da minha conta especial e tive que pagar R$ 46 de juros por conta disso. Além de abusivo, também me dei conta de que eu gastava quase um salário mínimo por ano em tarifas e taxas do banco. Esse custo era muito alto para quem ganhava dois salários mínimos mensais à época. Daí nasceu o Neon, primeiro banco digital do Brasil. Pela experiência de um cliente frustrado.”

2 – No primeiro dia, 5 mil contas

“No início, em 2014, eu não conhecia nada sobre instituições financeiras e também tinha pouca experiência em levantar capital. Haviam apenas dois fundos de investimento no Brasil e ninguém falava no termo fintech”.

“Como fomos a primeira conta digital a ser lançada, desbravamos o mercado. Encontrei alguns corajosos ou loucos que toparam investir desde o comecinho. Tivemos dezenas de investidores-anjo que nos deram fôlego para montar o primeiro produto, que foi a conta digital, e colocar no ar em seis meses”.

“No primeiro dia, recebemos 5 mil pedidos de conta pessoa física. Nossa tese foi validada. Existia, sim, uma alta demanda de pessoas que querem um novo jeito de se relacionar com seu banco.”

3 – Nascimento a partir de um propósito

“A gente nasceu muito pelo propósito e depois aprendeu a se tornar um negócio. Claro que cometemos muitos erros que fizeram com que nosso amadurecimento fosse mais lento nos primeiros anos da empresa”.

“Por outro lado, nosso propósito se mantém vivo até hoje. Sabemos porque estamos aqui. Queremos ajudar o brasileiro médio a ter a melhor gestão do dinheiro dele. Nosso negócio não é focado na classe média alta, estamos ajudando quem mais precisa de ajuda.”

4 – Embaixadores da cultura Neon

“A cultura você vive no dia a dia, no exemplo, na tomada de decisão que reforça os valores da empresa. É interessante notar que sabemos quanto tempo as pessoas estão trabalhando na Neon sem ter de perguntar a elas. São nossos embaixadores”.

“Acreditamos muito em um modelo de parceria. Todos devem ser defensores da cultura já que somos hoje 1.500 colaboradores. Temos 90 sócios na empresa, todos divulgam a cultura com a mesma intensidade que eu faço.”

5 – Pessoas são nosso maior asset

“Somos uma empresa financeira e de tecnologia. São serviços feitos por pessoas. A qualidade da nossa entrega é baseada nas pessoas que temos”.

“Desde o começo, tivemos uma grande preocupação de trazer as melhores pessoas possíveis para o Neon. Claro que já erramos, crescemos muito rápido ou muito devagar, contratamos pessoas que não deram fit com a nossa cultura. Mas hoje atingimos um patamar muito interessante. Já reconhecemos quem são as pessoas que vão se encaixar no nosso jeitão.”

“Não queremos oferecer um trabalho, mas uma experiência, a melhor experiência profissional daquele colaborador.”

6 – M&A

“Quando fazemos uma aquisição buscamos primeiro por um time muito competente, que desenvolveu um negócio bacana e cujos ativos da Neon irão acelerar seu plano de negócio”.

“Foi assim com a MEI Fácil. Eles tinham uma base muito grande de clientes PJ e iam começar a desenvolver serviços financeiros para eles. Nós tínhamos a oferta financeira e eles os clientes. Unimos forças para potencializar juntos o negócio”.

“Com a Consiga+, o processo foi o mesmo: a empresa tem um time excepcional que trabalhava com crédito consignado privado e o Neon ia começar a trabalhar com este produto. Eles buscavam acesso a capital para crescer. O crédito consignado faz muito sentido para o nosso negócio, pois conseguimos dar crédito sustentável para o segmento de baixa renda a taxas de juros mais baixas”.

“Com a Corretora Magliano, queríamos aumentar a oferta de produtos de investimento aos nossos clientes.”

7 – Educação financeira

“O cliente médio da Neon tem o perfil das classes C e D. Temos 12 milhões de contas em todas as cidades brasileiras. Não temos a pretensão de fazer uma educação financeira formal, ensinar coisas muito complexas talvez seja uma ambição muito grande para a Neon”.

“Focamos em coisas práticas. De cara, já devolvemos um salário mínimo por ano aos nossos clientes ao não cobrar as taxas e tarifas que outros bancos cobram”.

“Na nossa visão, o primeiro passo da educação financeira é saber claramente o quanto você ganha e o quanto você gasta, dar transparência disso”.

“Ao acessar nosso aplicativo, mostramos o saldo, quanto ele tem de investimento, quanto ele já consumiu do cartão de crédito e quanto ainda tem disponível. Simples e fácil. Com essa clareza nossos clientes conseguem economizar dinheiro mais do que eles conseguiam antes”.

“Um dos programas que temos é o Desafio das 52 semanas, que ajuda as pessoas a guardar dinheiro por um ano. Na primeira semana, a proposta é guardar R$ 1. Na segunda, R$ 2, e assim por diante. A educação financeira está na essência do nosso produto, muito mais do que no discurso.”

8 – Investimento em dois cliques

“Temos que entender profundamente nosso segmento, como o cliente pensa e vive. No app, para simplificar, usamos o termo reserva de emergência. Ele decide quanto quer guardar por mês, digita o valor e efetiva a escolha. O investimento é feito com apenas dois cliques”.

“Não entro no mérito se ele vai investir em CDB, CDI ou qualquer outra sopa de letrinhas. Nós garantimos que para aquele propósito ele terá o melhor produto. O foco está muito mais em criar o comportamento de guardar, não no rendimento em si.”

9 – Principais turning points na trajetória da Neon

“Começo pelo primeiro investimento institucional. Isso deu um selo importante para o nosso negócio, pois mostrou que excelentes profissionais acreditavam no que estávamos fazendo”.

“Além do dinheiro, o diferencial estava na qualidade dos sócios que entraram. Isso foi bem marcante para a gente. Tanto que se compararmos os dois primeiros anos da Neon versus os últimos três, a velocidade de crescimento e a maturidade do negócio foram brutais”.

“O segundo turning point foi há cerca de quatro anos, quando eu aprendi a tomar decisões com os cofundadores que entraram na Neon. Eu costumava decidir muito rápido e sozinho. Dividir essa responsabilidade com eles foi um aprendizado muito importante para mim e também um amadurecimento para a empresa”.

“Deixei de ser o gargalo. Aprender a lidar com uma sociedade e tomar decisões em conjunto fortaleceu muito a trajetória da empresa.”

10 – Visão da Neon no futuro

“Interessante pensar na Neon daqui a dez anos, pois hoje a empresa não chegou nem ao sexto ano de vida. Nossa visão de longo prazo é a de ser o banco do trabalhador brasileiro”.

“Vamos ser o principal banco neste segmento. E não digo nem banco digital, pois daqui a pouco todos serão digitais. Para chegar lá temos que entender esse público para desenvolver produtos que façam sentido em sua vida, no momento adequado. Essa é nossa missão do dia a dia.”

Texto: Monica Miglio Pedrosa

Imagem: reprodução