SaaS first: os planos da Nuvini para formar uma constelação de startups

Saiba como investidor Pierre Schurmann pretende formar uma plataforma de serviços com mais de 80 aquisições de desenvolvedores até 2025

Publicado em 14 de Maio de 2021

A perspectiva de um salto de US$ 1,8 bilhão para mais de US$ 4 bi no volume de negócios em Software as a Service (SaaS) no Brasil até 2023 é o gatilho para consolidar o plano da Nuvini de formar a primeira constelação de startups neste segmento de mercado no país. 

A companhia, que nasceu no final de 2019 com o nome de Keiretsu (uma denominação japonesa para cooperativa de empresas), foi reposicionada com uma definição mais alinhada aos tempos de predominância do cloud do mercado de tecnologia e pretende acelerar aquisições nos próximos meses.

O idealizador e CEO da Nuvini é o empresário Pierre Schurmann, sócio-fundador da Bossa Nova Investimentos, fundo que desde 2015 já liderou investimentos em mais de 500 startups no Brasil. A inspiração para o novo empreendimento de Schurmann é a companhia canadense Constellation Software que, desde 1995, já adquiriu mais de 400 empresas, fatura US$ 3 bi ao ano e atende a 125 mil clientes, em mais de 100 países. 

Nesta entrevista ao Experience Club, Schurmann detalha como está trazendo esse modelo ao Brasil. Até aqui, a Nuvini comprou cinco empresas: Effecti, Ipê Digital, Dataminer, Lead Lovers e Onclick. Até o final do ano, quer ter 15 no portfólio. 

Ancorada em três grandes verticais de serviços – vendas e marketing, gestão e produtividade, finanças e controle –  a Nuvini aposta seu crescimento no movimento do “SaaS first”. Um segmento que, segundo a Associação Brasileira de Software (ABES), deve representar uma fatia de 40% de toda a indústria nos próximos anos. A meta é adquirir de 80 a 90 companhias até 2025.

Assista ao vídeo e mergulhe no assunto: 

1 – A origem: do anjo ao exit 

A centelha da Keiretsu vem do aprendizado da fundação da Bossa Nova, em 2011, que foi concebida como um fundo e depois escalada em 2015 com a chegada do sócio João Kepler, levando investimento para literalmente centenas de empresas. Esse experiência mostrou como muitos empreendedores iam bem nos seus negócios, mas com dificuldade em tangibilizar o resultado do ponto de vista do investimento pessoal. Enquanto a Bossa Nova estava no pós-anjo, a Nuvini nasceu com essa ideia de atuar no “exit” do empreendedor, levando liquidez para o investimento pessoal dele. A concepção do negócio é inspirada na empresa canadense Constellation Software, que faz isso há 25 anos. Um modelo muito bem-sucedido na geração de valor, que está sendo tropicalizado para o contexto do mercado brasileiro.

2 – Adaptação à realidade do Brasil 

A estrutura da companhia teve que passar por uma tropicalização, para enfrentar os diversos desafios inerentes ao Brasil, que envolvem questões tributárias e trabalhistas, por exemplo.  Além disso, Schurmann ressalta que a Constellation olha para aquisição de empresas mais maduras, com uma visão mais financeira, enquanto a Nuvini aposta em startups em estágio de aceleração, com crescimento médio de 40% ano. Nesse sentido a visão é ajudar na construção do negócio, que está sendo comprado e dar ao empreendedor desafios de ganhos por resultados que o mantenham ainda mais comprometido com o projeto.  

3 – Como lidar com uma constelação de marcas e plataformas próprias  

Uma das decisões de negócio mais importantes da Nuvini foi manter as marcas independentes no que se refere ao front-end, para não impactar na experiência do usuário, que até aqui se mostrou positiva em resultados de captação de clientes e ritmo de crescimento dessas startups. O segundo momento da estratégia, que já está acontecendo, é fazer a integração das distintas plataformas no mesmo back-end. Numa comparação, é como o Facebook, que adquiriu o Whatsapp e o Instagram e só depois de muito tempo iniciou um processo de integração, não mais da infraestrutura apenas, mas do cross de produtos e serviços compartilhados. Nesse contexto, o objetivo da Nuvini é dar o suporte no back-end e na governança das empresas. 

4 – Os critérios de seleção de SaaS para aquisição de empresas  

Um dos drivers da companhia é oferecer a pequenas e médias empresas acesso a tecnologias que ajudem na performance e na gestão dos negócios. A primeira onda do mercado veio de grandes desenvolvedores, como a Totvs e Linx, atendendo grandes empresas. Segundo Schurmann, o SaaS vai crescer o dobro da taxa global no Brasil, em grande parte porque a próxima onde vai impactar negócios pequenos, como padarias, ou óticas, em que muitos gestores ainda trabalham no Excel. E não se trata apenas de serviços financeiros ou ERPs, mas uma série de outros serviços de gestão, que ajudarão a nivelar a competição e abrir mais espaço para os pequenos e médios empreendedores no Brasil. 

5 – Como funciona a modelagem da incorporação de startups 

A companhia optou pela aquisição de 100% da empresa no momento da assinatura do contrato, levando em consideração as diversas questões tributárias e jurídicas próprias do Brasil. As regras do jogo são definidas no momento da compra, para que os fundadores tenham os incentivos necessários para continuar o crescimento da empresa pelos próximos três a cinco anos.  

6 – A opção por verticais de produtos e serviços bem definidas 

Para montar a estratégia global do negócio, a Nuvini analisou perto de dez verticais com potencial para expansão nos próximos anos, e acertou o foco em três que pudessem oferecer massa crítica de crescimento robusto. Ou seja, capazes de suportar volumes de negócio de R$ 800 milhões a R$ 900 milhões cada.  A primeira delas é a de marketing, que tem como primeira empresa a Lead Lovers e atua em vendas por email. A escolha pelo marketing se dá pelo fato de que ele traz soluções muito amplas para anunciantes, lojistas e mesmo profissionais liberais, como médicos. São negócios que demandam ferramentas para fazer o funil de vendas, atendimento e soluções de CRM para o pós-venda, atuando em todo o ciclo de marketing do cliente.  A segunda vertical agrega os serviços de ERP, voltados para finanças e controle, nichos de mercado no qual a Nuvini mantém negociações avançadas de aquisição. São serviços que têm sinergia com o marketing e que, por essa conexão, podem atrair clientes para as duas verticais. A terceira envolve nichos de colaboração e produtividade, como plataformas de gestão de RH e de transações de compra e venda entre empresas, que não envolvem nem marketing nem comércio online, mas ferramentas voltadas à operação. Um segmento que, de acordo com Schurmann, acelerou muito com a pandemia.  

7 – O caminho para internacionalização 

Parte das empresas que a Nuvini está finalizando a aquisição já possuem presença na América Latina, sendo que uma também opera nos Estados Unidos. O foco até meados de 2022, porém, será a consolidação no Brasil, considerando o grande números de oportunidades que a companhia visualiza no mercado interno. Além disso, a Nuvini trabalha agora no desafio de organizar e estruturar os fluxos de negócios da melhor maneira possível, em um contexto de agremiação de diversas startups ao mesmo tempo. A partir dessa fase inicial, a estratégia é buscar uma expansão com foco na América Latina, sobretudo México e Chile. A ideia, porém, não é levar empresas brasileiras, mas entrar por meio de aquisições, considerando o histórico de diversas empresas no passado. Com exceção do Mercado Livre e outros poucos grupos, a maioria das startups que buscou a expansão internacional sozinha não foi tão bem sucedida. O caminho, portanto, é crescer organicamente com a compra das líderes ou vice-líderes do país. 

8 – 90 empresas até 2025 

As startups no radar da Nuvini possuem dois perfis distintos. O primeiro envolve negócios maiores, com faturamento de R$ 15 milhões a R$ 50 milhões ao ano. São operações que, por si só, poderão incorporar outros negócios no futuro. O outro perfil são empresas de porte menor. Olhando todo o universo de possibilidades, Schurmann calcula que o grupo deverá consolidar de 80 a 90 empresas até 2025. A título de comparação, a canadense Constellation compra, em média, 75 companhias ao ano. Para a Nuvini atingir o patamar esperado, já foram feitas duas rodadas de investimento, cujos valores não são revelados, com funding de family offices. A próxima rodada a caminho virá de um investidor institucional. De acordo com o desenvolvimento do mercado, o caminho natural é a abertura do capital.  

9 – O futuro do Saas 

Caso o SaaS replique o que está acontecendo no mercado externo, o crescimento no Brasil será bastante expressivo. A expectativa é a de que o mercado, que tinha uma expectativa ainda não consolidada de US$ 1,9 bilhão em 2020, deve chegar a US$ 4 bilhões em 2023, dobrando em apenas três anos. De acordo com a estimativa da Associação Brasileira de Software (ABS), o SaaS de uma maneira geral, ocupará 40% do mercado total de software no futuro, com impacto maior nas pequenas e médias empresas, porque os empreendedores hoje dispõem de celular, tablet e devices mais ágeis para a gestão de negócios. A soma desses fatores deverá provocar uma aceleração muito grande em todo o mercado de serviços de tecnologia associado à nuvem, nos próximos quatro a cinco anos.

Texto: Arnaldo Comin

Imagens: Reprodução