Sapiens

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Uma breve história da humanidade, por Yuval Noah Harari

Publicado em 24 de outubro de 2019

Ideias centrais:

1.O que há de tão especial em nossa linguagem? Nossa linguagem é incrivelmente versátil. Podemos conectar uma série limitada de sons e sinais para produzir um número ilimitado de frases. Também a fofoca deu a sua colaboração.

2.A Revolução Agrícola certamente aumentou o total de alimentos à disposição da humanidade, mas os alimentos extras não se traduziram em dieta melhor ou em mais lazer. As plantas domesticaram o Homo sapiens e não o contrário.

3.Isaac Newton mostrou que o livro da natureza está escrito na linguagem matemática. Não obstante, ao longo dos últimos 200 anos, desenvolveu-se novo ramo da matemática para lidar com determinados aspectos da realidade: a estatística.

4.O bolo econômico pode crescer indefinidamente? Todo bolo requer matérias-primas e energia. Os profetas do apocalipse alertam que, mais cedo ou mais tarde, o Homo sapiens irá exaurir as matérias-primas e a energia. E o que virá depois?

5.Com a nova ordem, ocorreu a libertação do indivíduo, mas ela vem com alto custo. Hoje, lamentamos a perda de famílias e comunidades fortes e nos sentimos alienados e ameaçados pelo poder do Estado e do mercado sobre nossa vida.

Sobre o autor:

Yuval Noah Harari é doutor em História pela Universidade de Oxford e professor na Universidade Hebraica de Jerusalém. Entre outras questões de pesquisa, Harari aborda a relação entre biologia e história. Recebeu o Prêmio Polonsky por Criatividade e Originalidade nas Disciplinas Humanísticas.

Parte 1 – A Revolução Cognitiva

1. Um animal insignificante

Há cerca de 70 mil anos, os organismos pertencentes à espécie Homo sapiens começaram a formar estruturas ainda mais elaboradas chamadas culturas. O desenvolvimento subsequente dessas culturas humanas é denominado história. Três importantes revoluções definiram o curso da história. A Revolução Cognitiva deu início à história, há cerca de 70 mil anos. A Revolução Agrícola a acelerou, por volta de 12 mil anos atrás.

A Revolução Científica, que começou há apenas 500 anos, pode muito bem colocar um fim à história e dar início a algo completamente diferente.

Este livro conta como essas três revoluções afetaram os seres humanos e os demais organismos.

Qual o segredo do sucesso dos sapiens? Como conseguimos nos instalar tão rapidamente em tantos hábitats distantes e tão diversos em termos ecológicos? Como condenamos todas as outras espécies humanas ao esquecimento? A resposta mais provável é propriamente aquilo que torna o embate possível: o Homo sapiens conquistou o mundo, acima de tudo, graças à sua linguagem única.

2. A árvore do conhecimento

A partir de 20 mil anos atrás, o Homo sapiens começou a fazer coisas muito especiais. Nessa época, bandos de sapiens deixaram a África pela segunda vez. Dessa vez, eles expulsaram os Neandertais e todas as outras espécies humanas não só do Oriente Médio, como também da face da Terra. Num período incrivelmente curto, os sapiens chegaram à Europa e ao leste da Ásia. Há aproximadamente 45 mil anos, conseguiram atravessa o mar aberto e chegaram à Austrália – um continente até então intocado por humanos. O período de 70 mil anos atrás a 30 mil anos atrás testemunhou a invenção de barcos, lâmpadas a óleo, arcos e flechas e agulhas (essenciais para costurar roupas quentes). Os primeiros objetos que podem ser chamados de arte e joalheria datam dessa era, assim como os primeiros indícios incontestáveis de religião, comércio e estratificação social.

Que, então, há de tão especial em nossa linguagem, em relação a papagaios, baleias e elefantes? A resposta mais comum é que nossa linguagem é incrivelmente versátil. Podemos conectar uma série limitada de sons e sinais para produzir um número infinito de frases, cada uma delas com um significado diferente. Podemos, assim, consumir, armazenar e comunicar uma quantidade extraordinária de informações sobre o mundo à nossa volta. Há quem diga que a fofoca é também grande mestra da linguagem: homens e mulheres querem saber quem em seu bando odeia quem, quem está dormindo com quem, quem é honesto e quem é trapaceiro…

3. Um dia na vida de Adão e Eva

Na maioria dos hábitats, os bandos de sapiens se alimentavam de maneira versátil e oportunista. Eles saíam à procura de cupins, coletavam bagas, desenterravam raízes, capturavam coelhos e caçavam bisões e mamutes. Apesar da imagem difundida de “caçador”, a coleta era a atividade principal do sapiens e lhe fornecia a maior parte de suas calorias, além de matérias-primas como sílex, madeira e bambu. Os sapiens não saíam apenas à procura de alimentos e materiais. Também saíam á procura de conhecimento. Para sobreviver, precisavam de um detalhado mapa mental de seu território.

Para maximizar a eficiência de sua busca cotidiana por alimento, os sapiens precisavam de informações sobre os padrões de crescimento de cada planta e os hábitats de cada animal.

Precisavam saber quais alimentos eram nutritivos e quais eram nocivos e quais podiam ser usados como remédio.

Os caçadores-coletores dominaram não só o mundo dos animais, plantas e objetos à sua volta, como também o mundo interno de seu próprio corpo e sensações. Eles tinham um tipo de destreza física que as pessoas hoje são incapazes de alcançar, mesmo após anos de prática de ioga ou de tai chi.

4. A inundação

Após a Revolução Cognitiva, os sapiens adquiriram a tecnologia, as habilidades organizacionais e, talvez, até mesmo a visão necessária para sair do continente afroasiático e povoar o Mundo Exterior. Sua primeira conquista foi a colonização da Austrália há cerca de 45 mil anos. Os especialistas são pressionados a explicar esse feito. Para chegar à Austrália, os humanos precisavam atravessar uma série de canais marítimos, alguns com mais de cem quilômetros de largura, e em seguida se adaptar praticamente da noite para o dia a um ecossistema completamente novo.

A Primeira Onda de Extinção, que acompanhou a disseminação dos caçadores-coletores foi seguida pela Segunda Onda de Extinção, que acompanhou a disseminação dos agricultores e nos dá uma perspectiva importante sobre a Terceira Onda de Extinção, que a atividade industrial está causando hoje.

Ao contrário de seus equivalentes terrestres, os grandes animais marinhos sofreram relativamente pouco com a Revolução Cognitiva e a Revolução Agrícola. Mas hoje muitos deles estão prestes a se extinguirem em consequência da poluição industrial e do uso excessivo dos recursos oceânicos por parte dos humanos. Se as coisas prosseguirem no ritmo atual, é provável que baleias, tubarões, atuns e golfinhos sigam os diprotodontes [marsupiais pré-históricos australianos], as preguiças-gigantes e os mamutes rumo ao desaparecimento. De todas as grandes criaturas do mundo, os únicos sobreviventes da inundação humana serão os próprios humanos e os animais domésticos que servem como escravos nas galés da Arca de Noé.

Parte Dois A Revolução Agrícola

5. A maior fraude da história

Muita coisa mudou há cerca de 10 mil anos, quando os sapiens começaram a dedicar quase todo seu tempo e esforço a manipular a vida de algumas espécies de plantas e animais. Do amanhecer ao entardecer, os humanos espalhavam sementes, aguavam plantas, arrancavam ervas daninhas do solo e conduziam ovelhas a pastos escolhidos. Esse trabalho, pensavam, forneceria mais frutas, grãos e carne. Foi uma revolução na maneira como os humanos viviam – a Revolução Agrícola.

Em vez de prenunciar uma nova era de vida tranquila, a Revolução Agrícola proporcionou aos agricultores uma vida em geral mais difícil e menos gratificante que a dos caçadores-coletores. Estes passavam o tempo com atividades mais variadas e estimulantes e estavam menos expostos à ameaça da fome e da doença.

A Revolução Agrícola certamente aumentou o total de alimentos à disposição da humanidade, mas os alimentos extras não se traduziram em dieta melhor ou em mais lazer.

Em vez disso se traduziram em explosões populacionais e elites favorecidas. Em média, um agricultor trabalhava mais que um caçador-coletor e obtinha em troca uma dieta pior. A Revolução Agrícola foi a maior fraude da história. Quem foi o responsável? Nem reis, nem padres, nem mercadores. Os culpados foram o trigo, o arroz e a batata. As plantas domesticaram o Homo sapiens e não o contrário.

6. Construindo pirâmides

A Revolução Agrícola tornou o futuro muito mais importante do que havia sido até então. Os agricultores sempre precisam ter o futuro em mente e trabalhar em função dele. A economia agrícola se baseava em um círculo sazonal de produção, compreendendo longos meses de cultura, seguidos de breves períodos de colheita. Na noite após o fim de uma colheita farta, os camponeses podiam celebrar tudo o que tinham obtido, mas dali a uma semana estavam novamente se levantando ao amanhecer para uma longa jornada de trabalho no campo. Embora houvesse comida suficiente, eles precisavam se preocupar com os anos seguintes.

Os excedentes de comida produzidos por camponeses, aliados à nova tecnologia de transportes, acabaram por permitir que cada vez mais pessoas se apinhassem primeiro em aldeias, depois em vilarejos e enfim em cidades, todas reunidas sob novos reinos e redes de comércio. Quando a revolução Agrícola criou oportunidade para a criação de cidades populosas e impérios poderosos, as pessoas inventaram histórias sobre grandes deuses, pátrias-mães e empresas de capital aberto para fornecer os elos sociais necessários.

Enquanto a evolução humana estava rastejando no seu ritmo de tartaruga, a imaginação humana estava construindo redes impressionantes de cooperação em massa, diferentes de qualquer uma já vista.

Não devemos alimentar ilusões otimistas sobre “redes de cooperação em massa” do Egito faraônico ou do Império Romano. “Cooperação” soa muito altruísta, mas nem sempre é voluntária e raramente igualitária. A maior parte das redes de cooperação humana foi concebida para a opressão e a exploração. Os camponeses pagavam por tais redes de cooperação com seus preciosos excedentes de alimento, caindo em desespero quando vinha a cobrança de impostos.

7. Sobrecarga de memória

Os impérios geram quantidades enormes de informação. Além das leis, precisam manter registro de transações e impostos, inventários de suprimentos militares e navios mercantes e calendários de festividades e vitórias. Durante milhões de anos, as pessoas armazenaram informações num único lugar: o cérebro. Infelizmente, o cérebro humano não é um bom dispositivo de armazenamento para bancos de dados: por sua capacidade limitada, pela mortalidade dos cérebros e por ser o cérebro adaptado para armazenar e processar apenas alguns determinados tipos de informação.

Mas quando, depois da Revolução Agrícola, começaram a aparecer sociedades particularmente complexas, um novo tipo de informação se tornou vital: os números. Os caçadores-coletores nunca precisaram lidar com grandes quantidades de dados matemáticos.

Para manter um reino grande, dados matemáticos eram fundamentais. Nunca foi suficiente criar leis e contar histórias de deuses guardiães. Também era preciso cobrar impostos. Para arrecadar impostos de centenas de milhares de pessoas, era fundamental recolher dados sobre a renda e as posses das pessoas; dados sobre os pagamentos realizados; dados sobre atrasos, dívidas e multas; dados sobre descontos e isenções. Isso somava milhões de dados, que tinham de ser armazenados e processados.

Mais recentemente, a notação matemática deu origem a um sistema de escrita ainda mais revolucionário, um sistema binário computadorizado de penas dois símbolos: 0 e 1. Computadores podem acabar por superar os humanos nas mesmas áreas que fizeram o Homo sapiens o dominante: inteligência e comunicação.

8. Não existe justiça na história

Entender a história humana nos últimos milênios que sucederam à Revolução Agrícola se resume a uma única questão: como os humanos se organizavam em redes de cooperação em massa, uma vez que careciam de instintos biológicos para sustentar tais redes? A resposta sucinta é que os humanos criaram ordens imaginadas e desenvolveram sistemas de escrita. Essas duas invenções preencheram lacunas deixadas por nossa herança biológica. As ordens imaginadas que sustentavam essas redes nunca foram neutras nem justas. Os níveis superiores desfrutavam de privilégios e poder, enquanto os inferiores sofriam discriminação e opressão. Essas hierarquias são produto da imaginação humana. Brâmanes e sudras não foram realmente criados por deuses a partir de diferentes partes do corpo de um ser primitivo. Em vez disso, a distinção entre as duas castas foi criada por leis e normas inventadas por humanos no norte da Índia, há cerca de 3 mil anos.

Parte Três – A unificação da humanidade

9. A seta da história

Depois da Revolução Agrícola, as sociedades humanas ficaram ainda maiores e mais complexas, enquanto os constructos imaginados que sustentavam a ordem social também se tornaram mais elaborados. Mitos e ficções habituaram as pessoas, praticamente desde o momento do nascimento, a pensar de determinadas maneiras, a se comportar de acordo com certos padrões, a desejar certas coisas e a seguir certas regras. Dessa forma, criaram instintos artificiais e permitiram que milhões de estranhos cooperassem de maneira efetiva.

Assim como a cultura europeia medieval não conseguiu conciliar o código de cavalaria e o cristianismo, o mundo moderno não consegue conciliar liberdade e igualdade. Mas isso mão é um defeito. Tais contradições são inerentes a toda a cultura humana. Na verdade, são os motores do desenvolvimento cultural, responsáveis pela criatividade e dinamismo da nossa espécie. Desacordo em nossos pensamentos, ideias e valores nos compele a pensar, reavaliar e criticar.

10. O cheiro do dinheiro

A ascensão de cidades e reinos e o aprimoramento da infraestrutura de transporte proporcionaram novas oportunidades de especialização. Cidades densamente povoadas ofereciam empregos em tempo integral não só para sapateiros e médicos profissionais, como também para carpinteiros, sacerdotes, soldados e advogados. Vilarejos que conquistaram uma reputação por produzir bom vinho, azeite ou cerâmica descobriram que valia a pena se especializarem quase que exclusivamente em determinado produto e trocá-lo com outros povoados por todos os outros bens que necessitavam…mas a especialização criou um problema: como gerenciar a troca de bens? Daí o advento do dinheiro.

O dinheiro tem um lado obscuro, além de facilitar as trocas. Embora gere confiança universal entre estranhos, essa confiança não é investida em humanos, comunidades ou valores sagrados, mas no próprio dinheiro e nos sistemas impessoais que lhe servem de apoio.

Não confiamos no estranho, ou no vizinho – confiamos na moeda que possuem. Se suas moedas acabarem, acaba nossa confiança. Ao mesmo tempo em que o dinheiro derruba as barragens de comunidade, religião e Estado, o mundo corre o risco de se tornar um mercado enorme e um tanto cruel. Atualmente, é comum acreditar que o mercado sempre prevalece e que as barragens erguidas por reis, sacerdotes e comunidades não são mais capazes de conter o fluxo do dinheiro. Trata-se uma crença ingênua. Guerreiros cruéis, fanáticos religiosos e cidadãos preocupados conseguiram derrotar repetidas vezes os mercadores calculistas e até mesmo reformular a economia.

11. Visões imperiais

Construir e manter um império normalmente exigia o massacre cruel de grandes populações e a opressão brutal de todos os que sobravam. O kit padrão de ferramentas imperiais incluía guerras, escravidão deportação e genocídio. Quando os romanos invadiram a Escócia em 83, encontraram forte resistência das tribos caledônias locais e reagiram devastando o país. Isso não significa que os impérios não deixam nada de valor em seu rastro. Pintar todo os impérios de preto e condenar todos os legados imperiais é rejeitar a maior parte da cultura humana. As elites imperiais usaram os lucros da conquista para financiar não só exércitos e fortificações, como também filosofia, arte, justiça e caridade.

Ainda mais importante, os duzentos Estados progressivamente compartilham os mesmos problemas globais. Mísseis balísticos intercontinentais e bombas atômicas não reconhecem fronteiras e nenhuma nação pode evitar, sozinha, a guerra nuclear. A mudança climática também ameaça a prosperidade e a sobrevivência de todos os humanos e nenhum governo pode brecar, sozinho, o aquecimento global. É pouco provável que a humanidade consiga tratar desses desafios sem uma cooperação global.

12. A lei da religião

Hoje, a religião é, muitas vezes, considerada uma fonte de discriminação, desavenças e desunião. Mas, na verdade, a religião foi o terceiro maior unificador da humanidade, junto com o dinheiro e os impérios. Uma vez que todas as hierarquias e ordens sociais são imaginadas, elas são todas frágeis e, quanto maior a sociedade, mais frágil ela é. O papel histórico crucial da religião foi dar legitimidade sobre-humana a essas estruturas frágeis. As religiões afirmam que nossas leis não são resultado de capricho humano e, sim, determinadas por uma autoridade suprema e absoluta. Isso ajuda a tornar inquestionáveis pelo menos algumas leis fundamentais, garantindo, desse modo, a estabilidade social. A religião pode ser definida, portanto, como um sistema de normas e valores humanos que se baseia numa ordem sobre-humana.

Nos últimos 200 anos, as ciências da vida minaram totalmente a crença de uma natureza interna sagrada do indivíduo, uma versão da crença cristã da alma, defendida por sistemas jurídicos e políticos liberais.

Os cientistas que estudam o funcionamento interno do organismo humano não encontraram ali nenhuma alma. Argumentam cada vez mais que o comportamento humano é determinado por hormônios, genes e sinapses, e não pelo livre-arbítrio – as mesmas forças que determinam o comportamento de chimpanzés, lobos e formigas. Nossos sistemas jurídicos e políticos não aceitam essa interpretação que pode corroer a responsabilidade dos atos humanos. Até quando haverá um muro que separa o departamento de biologia dos departamentos de direito e ciência política?

13. O segredo do sucesso

A história não pode ser explicada de forma determinista e não pode ser prevista porque é caótica. Tantas forças estão em ação e suas interações são tão complexas que variações extremamente pequenas na intensidade dessas forças e na maneira com que interagem produzem diferenças gigantescas no resultado. E não é só isso: a história é o que chamamos de sistema caótico “nível 2”. Os sistemas caóticos podem ter duas formas. O caos nível 1 é o caos que não reage a previsões a seu respeito. O clima, por exemplo, é um sistema caótico nível 1. Embora seja influenciado por uma série de fatores, é possível criar modelos computadorizados que levem em consideração um número cada vez maior desses fatores e produzam previsões do tempo cada vez melhores.

O caos nível 2 é o caos que reage a previsões a seu respeito e, por isso, nunca pode ser previsto com precisão. Os mercados, por exemplo, são um sistema caótico nível 2. A política também é um sistema caótico de segunda ordem. Revoluções são, por definição, imprevisíveis. Uma revolução previsível nunca acontece.

Não há provas de que a história atua em prol dos humanos porque nos falta uma escala objetiva para medir tais benefícios. Culturas diferentes definem o bem de forma diferente e não existiria um parâmetro objetivo pelo qual julgá-las.

Parte Quatro – A Revolução Científica

14. A descoberta da ignorância

O processo histórico que levou à Lua é conhecido como Revolução Científica. Durante essa revolução, a humanidade adquiriu novas capacidades gigantescas, investindo recursos em pesquisa científica. É uma revolução porque, até por volta de 1500, os humanos do mundo inteiro duvidavam de sua aptidão para adquirir novas capacidades médicas, militares e econômicas. Embora o governo e os patrocinadores destinassem fundos à educação e a bolsas de pesquisa, o objetivo era, em geral, preservar as capacidades existentes, em vez de adquirir novas. O típico governante pré-moderno dava dinheiro para padres, filósofos e poetas na esperança de que eles legitimassem seu poder e mantivessem a ordem social. Ele não esperava que eles descobrissem novos medicamentos, inventassem novas armas ou estimulassem o crescimento econômico.

Newton mostrou que o livro da natureza está escrito na linguagem da matemática. Alguns capítulos (a física, por exemplo) se reduzem a equações simples, mas estudiosos que tentaram reduzir a biologia, a economia e a psicologia a equações newtonianas precisas descobriram que esses campos têm um nível de complexidade que torna inútil tal aspiração. Mas isso não significa que eles desistiram da matemática. Ao longo dos últimos 200 anos, desenvolveu-se novo ramo da matemática para lidar com os aspectos da realidade: a estatística. Os cursos de estatística hoje são parte dos requisitos básicos não só na física e na biologia, como também na psicologia, na sociologia, na economia e na ciência política.

A pesquisa científica só pode florescer se aliada a alguma religião ou ideologia. A ideologia justifica os custos da pesquisa. Em troca, a ideologia influencia a agenda científica e determina o que fazer com as descobertas.

Daí decorre que para compreender como a humanidade chegou à Lua – e não a uma série de destinos alternativos – não é suficiente fazer um levantamento das conquistas de físicos, biólogos e sociólogos. Precisamos levar em conta as formas ideológicas, políticas e econômicas que definem a física, a biologia e a sociologia em certas direções e não a outras.

15 O casamento entre ciência e império

No século que se seguiu à expedição de James Cook, as terras mais férteis da Austrália e da Nova Zelândia foram tomadas de seus antigos habitantes pelos colonizadores europeus. A população nativa foi reduzida em 90%, e os sobreviventes foram submetidos a um regime cruel de opressão racial. Para os aborígenes da Austrália, e em menor medida para os maoris da Nova Zelândia, a expedição de Cook foi o começo de uma catástrofe, da qual jamais se recuperaram completamente.

No entanto, o navio de Cook foi uma expedição protegida por uma força militar ou uma expedição militar acompanhada por alguns cientistas? Isso é como perguntar se o copo está meio cheio ou meio vazio. A resposta é ambos. A Revolução Científica e o imperialismo moderno foram inseparáveis. Pessoas como o capitão Cook e o botânico Joseph Banks dificilmente conseguiam distinguir a ciência do império.

Como as pessoas dessa península gelada da Eurásia [Europa] conseguiram sair de seu canto remoto do globo e conquistar o mundo inteiro? Com frequência, grade parte do crédito vai para os cientistas da Europa. É inquestionável que de 1850 em diante a dominação europeia se apoiou em grande medida no complexo militar-industrial-científico e na magia tecnológica. Todos os impérios prósperos do fim da era moderna cultivavam pesquisa científica na esperança de colher inovações tecnológicas, que incluíam armamentos, medicamentos e máquinas. Isso obviamente não é toda a história. A ciência foi apoiada por outras instituições e não só por impérios. E outro fator entra em cena: o capitalismo.

16. O credo capitalista

Durante a maior parte da história, a economia permaneceu mais ou menos do mesmo tamanho. Sim, a produção global aumentou, mas isso se deveu principalmente à expansão demográfica e ao povoamento de novas terras. A produção per capita continua estática. E tudo isso mudou na era moderna.

Em 1500, a produção global de bens e serviços era equivalente a cerca de 250 bilhões de dólares; hoje, gira em torno de 60 trilhões.

Em 1500, a produção per capita anual era, em média, 550 dólares, enquanto hoje todo homem, mulher e criança produz, em média, 8,8 mil dólares por ano. O que explicaria esse crescimento estupendo? O dinheiro?

O dinheiro é algo impressionante, porque pode representar uma série de objetos diferentes e converter qualquer coisa em praticamente qualquer outra coisa. No entanto, antes da era moderna, essa capacidade era limitada. Na maioria dos casos, o dinheiro só podia representar e converter coisas que já existiam no presente. Isso impunha uma grave limitação ao crescimento, já que tornava muto difícil financiar novos empreendimentos.

Nos últimos 500 anos, a ideia de progresso convenceu as pessoas a confiarem cada vez mais no futuro. Essa confiança gerou o crédito, o crédito trouxe crescimento econômico e o crescimento fortaleceu a confiança no futuro e abriu caminho para mais crédito. Não aconteceu da noite para o dia: a economia se comportou mais como uma montanha-russa do que como um balão. Mas, no longo prazo, com os obstáculos nivelados, a direção geral era inequívoca. Hoje, há tanto crédito no mundo que governos, corporações e indivíduos facilmente obtêm empréstimos grandes, de longo prazo e a juros baixos que excedem muitíssimo a receita atual.

Mas o bolo econômico pode crescer indefinidamente? Todo bolo requer matérias-primas e energia. Os profetas do apocalipse alertam que, mais cedo ou mais tarde, o Homo sapiens irá exaurir as matérias-primas e a energia do planeta Terra. E o que virá depois?

17. As engrenagens da indústria

Para colocar a indústria em movimento, é preciso energia. A partir de novas fontes de energia é que a indústria decolou. Os empreendedores britânicos melhoraram a eficácia do motor a vapor, o tiraram dos poços de mineração e o conectaram a teares e descaroçadores de algodão. Isso revolucionou a indústria têxtil. Num piscar de olhos, a Grã-Bretanha se tornou a oficina do mundo. Em 1825, um engenheiro inglês conectou um motor a vapor a um trem por uma linha de ferro por cerca de 20 quilômetros, da mina até o porto mais próximo. Era o início da ferrovia, uma revolução no transporte. Outra descoberta crucial foi o motor de combustão interna. A era do automóvel estava a caminho.

A trajetória da eletricidade foi ainda mais impressionante. Uma série de invenções a transformaram em nosso gênio da lâmpada universal. Quem é que ficaria hoje sem geladeira, sem televisão, sem a iluninação do lar e o desfile de aparelhos elétricos e eletrônicos e tantas outras utilidades? Sem a força elétrica para pôr em marcha os parques industriais?

A Revolução Industrial produziu uma combinação sem precedentes de energia abundante e barata com matérias-primas abundantes e baratas. O resultado foi uma explosão na produtividade humana. A explosão se fez sentir, em primeiro lugar na agricultura. Geralmente, quando pensamos na Revolução Industrial, pensamos numa paisagem urbana de chaminés fumacentas ou no sofrimento dos mineradores de carvão explorados transpirando debaixo da terra.

Mas a Revolução Industrial foi, acima de tudo, a Segunda Revolução Agrícola. Consequência da afluência de bens industriais, alimentos superabundantes? Criou-se o consumismo.

Somos todos bons consumistas. Compramos uma série de produtos de que não precisamos realmente e que até ontem não sabíamos que existiam. Ir às compras se tornou um passatempo favorito e os bens de consumo se tornaram mediadores nas relações entre membros da família, casais e amigos. Feriados religiosos, como o Natal e Dia de Ação de Graças, se transformaram em datas para vendas especiais e colossais. O florescimento da ética consumista é mais visível no mercado de alimentos, dando origem ao fenômeno da obesidade.

18. Uma revolução permanente

A Revolução Industrial abriu novos caminhos para converter energia e produzir bens. Os humanos derrubaram florestas, drenaram pântanos, represaram rios, inundaram planícies, construíram dezenas de milhares de quilômetros de ferrovias e edificaram metrópoles repletas de arranha-céus. Nosso planeta um dia verde e azul está se tornando um shopping center de plástico e concreto.

De fato, a desordem ecológica pode ameaçar a sobrevivência do próprio Homo sapiens. O aquecimento global, o aumento do nível do mar e a poluição disseminada podem tornar a terra menos habitável para nossa própria espécie e o futuro, consequentemente, pode testemunhar uma disputa cada vez maior ente a capacidade humana e os desastres naturais induzidos pelo homem.

Com a nova ordem, ocorre a libertação do indivíduo, mas ela vem com um custo. Hoje, muitos de nós lamentamos a perda de famílias e comunidades fortes e nos sentimos alienados e ameaçados pelo poder que o Estado e o mercado impessoais exercem sobre nossa vida. Estados e mercados compostos de indivíduos alienados podem intervir muito mais facilmente na vida de seus membros do que Estados e mercados compostos de famílias e comunidades fortes. Quando os vizinhos em um condomínio não conseguem nem sequer concordar sobre quanto pagar a seu zelador, como podemos esperar que resistam ao Estado?

19. E eles viveram felizes para sempre

Até agora, discutimos a felicidade como se esta fosse, em grande medida, produto de fatores materiais, como saúde, dieta e riqueza. Se as pessoas são mais ricas e mais saudáveis, também devem ser mais felizes. Mas isso é mesmo assim tão óbvio? Filósofos, padres e poetas refletiram sobre a natureza da felicidade durante milênios, e muitos concluíram que fatores sociais, éticos e espirituais têm tanta influência sobre nossa felicidade quanto as condições materiais. E se as pessoas nas sociedades afluentes modernas sofrem muitíssimo de alienação e carência de sentido, apesar de sua prosperidade? E se nossos ancestrais menos abastados encontravam grande contentamento na comunidade, na religião e num vínculo com a natureza?

Família e comunidade parecem ter mais impacto na nossa felicidade do que dinheiro e saúde. Pessoas com famílias coesas que vivem em comunidades unidas que lhes dão apoio são significativamente mais felizes do que pessoas cujas famílias são disfuncionais e que nunca encontraram (ou nunca buscaram) uma comunidade da qual fazer parte. O casamento é particularmente importante. Bons casamentos colaboram com elevado nível de bem-estar subjetivo.

20. O fim do Homo sapiens

Biólogos do mundo inteiro estão em embate com os defensores do design inteligente, que se opõem ao ensino da evolução darwiniana em escolas e afirmam que a complexidade biológica prova que deve haver um criador que concebeu todos os detalhes biológicos de antemão. Os biólogos estão certos quanto ao passado, mas os defensores do design inteligente podem, ironicamente, estar certos quanto ao futuro.

Mas, de todos os projetos desenvolvidos atualmente, o mais revolucionário é a tentativa de conceber uma interface direta e de mão dupla entre o cérebro humano e o computador. Isso permitirá que computadores leiam os sinais elétricos de um cérebro humano, transmitindo simultaneamente sinais que o cérebro possa ler.

E se tais interfaces forem usadas para associar diretamente um cérebro com a internet, ou associar diretamente vários cérebros uns com os outros, criando assim uma espécie de rede intercerebral? O que pode acontecer à memória humana, à consciência humana e à identidade humana se o cérebro tiver acesso direto a um banco de memória coletiva? Em tal situação, um cyborg poderia, por exemplo, acessar as memórias de outro.

Por muitas razões, o Projeto Gilgamesh [herói sumério obcecado pela imortalidade] é o mais importante da ciência. O problema é que o dr. Frankenstein pega carona nos ombros de Gilgamesh. Uma vez que é impossível deter Gilgamesh, é impossível deter o dr. Frankenstein.

Texto: Rogério H. Jönck | Experience Club

Imagens: Unsplash, Pexels e Reprodução

Ficha técnica:

Título: Sapiens – uma breve história da humanidade

Título original: Sapiens – A Brief History of Humanity

Autor: Yuval Noah Harari

Primeira edição: L&PM Editores (2011)

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