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“Tokenização não é um jogo só para quem tem milhões. Todo mundo pode participar”

Roberto Dagnoni, chairman e CEO da 2TM, holding que controla o Mercado Bitcoin, diz em entrevista ao [EXP] que a tokenização facilita o acesso a ativos que antes só podiam ser comprados por grandes investidores

Por Denize Bacoccina

Depois da crise de 2022, com a queda nos preços dos ativos e a quebra da corretora FTX, 2023 começou bem para o mercado de criptomoedas no Brasil, que já é o sétimo do mundo e o maior da América Latina, de acordo com o relatório de 2022 da Chainalysis, consultoria especializada em blockchain.

O colapso da FTX, por fraude na gestão, com desvio de recursos de investidores, acelerou a aprovação da legislação brasileira para o setor, em dezembro, com regulamentação prevista até meados deste ano. Ainda existe uma indefinição, no governo, sobre qual órgão será responsável por essa regulamentação, se o Banco Central ou a CVM, órgão do Ministério da Fazenda que já supervisiona o mercado de capitais.

O chairman e CEO da 2TM, holding que controla o Mercado Bitcoin, Roberto Dagnoni, defende que a regulamentação fique com o BC, na avaliação dele o órgão mais aparelhado para lidar com o principal uso das criptomoedas no mercado brasileiro, como investimento. “Após essa definição, o regulador vai colocar as normas específicas e vamos entender o quão alta será colocada essa barra em termos de controles”, disse ele nesta entrevista ao [EXP].

Além da corretagem de criptomoedas, a empresa tem vários projetos de tokenização, um mercado que ainda está começando no Brasil, e que tem o potencial de se expandir para muitos setores, basicamente todos os que envolvem negociação de ativos, sejam físicos ou digitais. Assim, ativos que antes só podiam ser comprados por grandes investidores, são vendidos em frações, como se fossem ações. “Não é um jogo só para quem tem milhões. Todo mundo pode participar”, diz ele.

Roberto falou ainda sobre a participação da empresa na elaboração do Real Digital, projeto do Banco Central que deve entrar em testes ainda neste mês, e sobre os planos para algumas das 20 empresas que foram adquiridas ou receberam investimentos da 2TM nos últimos dois anos.

Roberto, você pode explicar, de forma simplificada, o que é a tokenização, como ela funciona para as empresas e para o investidor?

Roberto Dagnoni – Para explicar numa frase: a tokenização é uma representação digital de qualquer ativo. Essa representação digital permite o fracionamento daquele ativo, que pode ser em cem unidades, em mil unidades, ou em um milhão de unidades. Uma vez que o token vem para a plataforma de trading, ele pode ser comprado e vendido, 24 horas por dia, sete dias por semana.

A blockchain é descentralizada no mundo todo. Você pode comprar um Bitcoin na Coinbase, transferir para sua conta aqui no MB e vender aqui no Brasil. Ou transferir para outras corretoras no Brasil. A interoperabilidade entre as bolsas já está dada no protocolo. O token já está automaticamente em múltiplas plataformas. Você não tem que fazer um IPO aqui, um IPO na NYSE, um IPO na Nasdaq.

Existem 20 mil moedas e aqui no MB (Mercado Bitcoin) trabalhamos com mais de 200. O token é lançado e as corretoras no mundo todo vão listando em suas plataformas.

Embora seja um mercado ainda novo, temos uma adoção muito relevante no Brasil. No MB fechamos o ano passado com 3,7 milhões de clientes, próximo ao que a B3 tem no mercado de equities, com muito mais tempo de operação. Já existem dez milhões de CPFs com exposição a cripto.

A blockchain tem um conceito muito colaborativo, de se desenvolver com a participação dos usuários. A geração mais nova entende muito bem esse conceito, inclusive o de receber recompensas durante esse desenvolvimento.

 

 

Comparando com o mercado físico, não existe uma possibilidade maior de bolhas num mercado desse tipo?

Eu acho que não. Acho que a possibilidade de bolha é parecida. A diferença aqui é uma transparência maior. Por exemplo: você tem as suas milhas de Múltiplos, de Smiles, e quando vai comprar um liquidificador com 30 mil pontos, você nunca sabe se está caro ou barato. A diferença aqui é que você tem um valor na tela, a oscilação de preços é pública, e segue a lei de oferta e demanda. As coisas valem o que tem alguém disposto a pagar.

E para o uso em programas de fidelidade, recompensa, cashback, o token tem uma vantagem, porque pode ser usado em um dos outros 200 ativos, enquanto os programas de fidelidade são mais amarrados numa lista específica.

O mercado brasileiro está aceitando bem os tokens? Que tipo de produto está sendo mais tokenizado?

Principalmente os ativos de créditos. Já tokenizamos contratos de energia, recebíveis, consórcio, real state, recebíveis de aluguel, recebíveis de operação de importação, precatórios. O primeiro que fizemos, em 2019, foi precatório, dívida pública. Normalmente, os precatórios têm valor elevado e você tinha que comprar inteiro, R$ 10 milhões, por exemplo. Só um investidor institucional consegue comprar. Na plataforma de tokenização, você pode investir R$ 1 mil nesse precatório. Você compra uma fração de um ativo. É como se fosse uma ação de uma empresa.

 

“A tokenização permite estruturar projetos de uma forma mais barata

e com menos intermediários, como o token que

desenvolvemos para a Ambify, da Ambipar.” 

 

Isso lembra um pouco derivativos, e derivativos lembra a crise, estouro de bolha, essas coisas. Tem possibilidade de multiplicar esses tokens? Qual é o risco?

Nessa tokenização que a gente está fazendo tem zero alavancagem. Não temos ainda no Brasil, mas no mundo já existem derivativos de cripto, opções futuras, ETFs (fundos de investimento referenciado na Bolsa). Eles são regulados.

Vocês fizeram recentemente o token da Ambify, da Ambipar, que tem um cálculo de compensação de gases poluentes. Como funciona esse ativo? Quem que faz esse cálculo?

Esse é um bom exemplo de fracionamento e acesso. O que a Ambipar está fazendo é dar acesso fracionado a um ativo que antes só era possível no mercado institucional, em grandes volumes. Hoje, se você voa na Gol, por exemplo, ao final do voo eles perguntam se você quer compensar a sua pegada de carbono. Uma ferramenta calcula quantos tokens você precisa comprar pra compensar e direciona o seu dinheiro para um projeto específico de compensação de carbono. O token da Ambify tem a mesma lógica.

Já fizemos outros NFTs que o dinheiro era determinado para um projeto indígena. A tokenização permite essa estruturação do projeto de uma forma mais barata e com menos intermediários. Para fazer um FDIC, por exemplo, o projeto precisa ser de pelo menos R$ 100 milhões, para pagar o custo. Já uma tokenização pode ser feita em um valor de até R$ 1 milhão, porque é uma estrutura mais eficiente, mais barata.

Essa agenda ESG está forte nesse mercado? Tem outros nessa linha?

Olhando para o volume ainda não, mas já temos bastante demanda por estudo. Fizemos um estudo para compra de áreas de preservação. A gente precisa ir lançando os cases, mesmo que pequenos, pra mostrar que funciona, que é simples e principalmente que o varejo pode comprar e participar. Não é um jogo só para quem tem milhões. Todo mundo pode participar.

Quais setores têm mais projetos de tokenização?

No nosso caso, as categorias principais são precatórios, consórcios e recebíveis.

Você chegou a falar num evento do Experience Club sobre imóveis, fracionamento de escritura. Isso já está sendo feito?

Nós já fizemos como um experimento, o BTG fez um lá atrás, mas ficou restrito a esses. Não conseguimos escalar ainda porque tem essa parte de registro de cartório, Prefeitura, IPTU, é um tema meio complexo. Ainda temos esses desafios de modelo analógico versus modelo digital.

O valor de mercado do Bitcoin caiu bastante no ano passado, mais de 60%, mas já começou este ano subindo e recuperou uma parte. O que você espera para 2023? O mercado pode recuperar essa perda, pode ir além? Que cenário você vê?

O nosso mercado funciona em ciclos. É um mercado novo, então é bastante volátil e passamos por esses momentos, de bull market (alta) e bear market (queda). Tivemos um bull superforte em 2021, com a entrada de investidores institucionais, especialmente nos Estados Unidos, e entramos em bear market em 2022. O mercado não era, mas ficou mais correlacionado com o cenário macro, com os juros, inflação, e também teve a influência da guerra. O índice Nasdaq caiu e o Bitcoin caiu também.

Em janeiro tivemos as principais moedas subindo mais de 30%, várias delas subindo 50%, 60%. A retomada veio antes do que a gente imaginava. Esperávamos que ela acontecesse ali pelo meio do ano, entre o segundo e o terceiro trimestres.

Então 2023 começou bem e o resultado ao longo do ano vai depender um pouco desse desenho macro, do que vai acontecer com a inflação, recessão americana e também com os juros do Brasil. Essa Selic em 13,75% também coloca um desafio para as demais classes de public equities, multimercado, crédito.

E ainda teve esse solavanco das Americanas, que joga um peso de insegurança de negócio. Foi um negócio tão grande, e que passou desapercebido. Foi bem ruim para o Brasil como um todo.

E qual foi o impacto no mercado da quebra da FTX? Os investidores ficaram mais receosos?

Sim. A FTX foi uma grande fraude, e felizmente não tem nada a ver com cripto. Não foi uma falha em blockchain ou uma falha em moedas, mas uma falha de governança, ou de ausência de governança. O fundador enganou muita gente. Mas, mesmo sendo uma fraude, é ruim para o mercado como um todo.

Para nós teve um efeito inicial positivo, com clientes transferindo cripto para o MB, porque nós somos a primeira do Brasil e temos uma imagem positiva. Mas para a indústria não tem como negar que foi negativo.

Outro evento importante deste mercado foi a aprovação da lei de critpmoedas (no fim de 2022).

Como você avalia essa regulamentação?

Somos muito favoráveis. Apoiamos abertamente a regulação desse mercado. É um mercado que lida com o dinheiro dos investidores e não poderia funcionar sem regulação. O caso da FTX gerou muita mídia e foi um empurrão para que o projeto fosse aprovado.

Agora em 2023 temos a normatização dessa lei (180 dias a partir da sanção presidencial, que foi em dezembro). Os próximos passos são a definição do regulador, que pode ser Banco Central ou a CVM (Comissão de Valores Mobiliários, ligada ao Ministério da Fazenda). Após essa definição o regulador vai colocar as normas específicas e vamos entender o quão alta será colocada essa barra em termos de controles.

O Banco Central já falou muitas vezes que ele gostaria de ser esse regulador e que vai regular tratando as criptomoedas como investimentos, não como pagamentos ou outras vertentes. Com isso, as empresas teriam que se adequar às normas de KYC (know your customer, conjunto de regras que determina que os bancos conheçam a identidade de seus clientes e saibam da legalidade da origem dos recursos), saber o tipo de investidor. E tem o tema de segregação patrimonial, que é muito relevante e foi um dos problemas da FTX. O fundador misturou o dinheiro da companhia com o dinheiro de clientes e fez operações não autorizadas por eles com esses recursos.

Na sua opinião, onde deveria ficar a regulação?

Nós achamos que o melhor lugar é o Banco Central mesmo. A CVM já fiscaliza e normatiza tudo que é valor mobiliário. Essa parte de investimento deveria ser com o Banco Central.

E tem um outro tema super relevante para 2023 que é o Real Digital, o CBDC (Central Bank Digital Currency).

Que é uma discussão da qual vocês também estão participando.

Estamos participando do Sandbox Regulatório (ambiente de testes para testar novos programas) e do LIFT (programa de incentivo à inovação do Banco Central). Junto com outras empresas, fizemos um projeto de comercialização de ativos digitais descentralizada.

O nosso Banco Central está muito avançado em comparação com outros países. O Pix, que é uma evolução do TED/Doc, mostra a capacidade de avanço do nosso sistema.

Como o Real Digital vai funcionar na prática?

A CBDC, o Real Digital, é como uma moeda na blockchain. Hoje, o cliente nos manda reais, eu pego esses reais e compro cripto. Sai de um dinheiro tradicional para a blockchain, e quando o cliente vai resgatar esse dinheiro, ele sai da blockchain e vai para reais de novo, na conta. Com o CBDC o dinheiro nunca vira um real tradicional, em papel. É um real digital que fica na blockchain do MB falando com a blockchain do Banco Central e com a blockchain da Coinbase, por exemplo. O dinheiro fica o tempo todo transitando em blockchain.

Essas regulações podem colocar o Brasil numa posição privilegiada para receber investimentos estrangeiros?

Vamos ver como como vai vir. Hoje existe uma insegurança regulatória, por não termos uma lei específica. Então muitas coisas a gente opera por analogia ao mercado tradicional. Ter um mercado já regulado vai facilitar muito para todos os órgãos de fiscalização: Procon, Ministério Público, o próprio Banco Central, CVM. É um alicerce, uma base para que negócios sejam feitos com mais segurança jurídica para todos os atores. Um grande salto no desenvolvimento.

 

 

Além do Mercado Bitcoin, o Grupo 2TM tem uma série de outras iniciativas de NFTs, DeFi, metaverso, games, DAOs. Quais são os planos para este ano?

Nós fizemos em 2021 e 2022 mais de 20 investimentos no nosso fundo de venture capital corporativo. Temos bastante coisa para explorar e escalar, vai ser um ano de consolidação daquilo que a gente plantou.

Uma das aquisições é uma corretora, em Portugal, chamada CriptoLoja, que já tem uma licença de corretora de cripto do Banco Central português. Já lançamos o primeiro produto, que é um token em Portugal com colateral num ativo brasileiro. O investidor português está investindo, via blockchain, em um ativo brasileiro.

O mercado alvo é o de portugueses ou de brasileiros em Portugal, que agora é um número grande?

Inicialmente de portugueses, mas também de brasileiros que estão lá. Também vemos bastante potencial de remittance (remessas ao estrangeiro) usando cripto.

Também investimos em dois players regulados que são bem relevantes. Um é a CERC, Central de Recebíveis, que recebeu no final do ano um investimento da Mubadala (fundo dos emirados Árabes Unidos), de R$ 500 milhões. Trabalhamos para fazer produtos em conjunto. Outra é a SL Tools, que está fazendo um mercado secundário de renda fixa, aluguel de ações e também é regulada.

Outra investida bem interessante é a Concash, que compra ativos de crédito para tokenização, como cotas de consórcio de pessoas que saíram dos grupos e têm o crédito. A Concash compra esse direito e vende como um investimento. Também é uma queridinha aqui do nosso portfólio.

 

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