“99% do que sabemos vem de histórias contadas por alguém, que ouviu de outra pessoa”, afirma o tecnólogo Kevin Ashton

missão [EXP+PROS]
O impulso para contar histórias é tão antigo quanto o fogo. E foi justamente esse impulso, mais até do que a lógica ou o cálculo, que moldou o cérebro humano. Essa é a tese provocativa de Kevin Ashton, tecnólogo britânico, apresentada no painel “The Story of Stories – The Million Year History of Storytelling”.
Segundo ele, a própria linguagem nasceu da necessidade de narrar o que não estava diante dos olhos, à noite, em torno das primeiras fogueiras. “A linguagem não nos deu histórias, as histórias é que nos deram linguagem”, disparou Kevin, embaralhando o senso comum sobre a cognição humana.
Tudo começou há milhões de anos, quando ancestrais pré-humanos quebravam ossos de carcaças para sugar tutano, rico em gordura, o que elevou o tamanho do cérebro.
O grande pulo veio com o fogo, há um milhão de anos: “Humanos criaram e controlaram fogo, estendendo dias para a noite. As chamas fracas impediam gestos ou brincadeiras, então socializavam com sons sobre eventos lembrados ou imaginados”.
O cérebro sapiens dobrou de tamanho, com áreas de linguagem e narrativa fundidas. “99% do que sabemos vem de histórias contadas por alguém, que ouviu de outra pessoa”, afirmou. “Somos contadores natos: por isso consumimos narrativas todo dia.”
Mostrando formas geométricas se movendo numa tela, Ashton provou: vemos um triângulo “seduzindo” um círculo. “É impossível assistir qualquer coisa sem atribuir intenções humanas ao que vemos. Somos egocêntricos radicais”.
A memória humana é fraca para guardar histórias fiéis, então os contadores usaram padrões que o cérebro adora: rima, métrica e repetição geraram poesia.A melodia transformou a fala em canto e, depois, em música. De contos orais a Bad Bunny.
Pequenos riscos em ossos viraram pinturas rupestres de 45 mil anos na Indonésia: com tochas de gordura, paredes irregulares faziam imagens “dançarem”, como se fossem os primeiros filmes.
Ashton foca no perigo da IA de reforço, usada, por exemplo, pelo Facebook para prever cliques, ignorando verdade ou utilidade. “É uma caixa preta que evolui para maximizar engajamento, virando um ‘superestímulo’, como os besouros-macho australianos tentando acasalar com garrafas de cerveja laranja, mais atrativas do que as fêmeas reais”, comparou.
Feeds radicais, disse ele, levam usuários comuns a conspirações antissemitas em 72 horas; chatbots com reforço humano causam “psicose da IA”, o que a faz elogiar delírios até equiparar usuários a Jesus. Com smartphones em 90% dos adultos globais, histórias tóxicas podem alcançar a todos como nunca antes.
QUER MAIS?
Para se aprofundar ainda mais no pensamento de Ashton, leia The Story of Stories: The Million-Year History of a Uniquely Human Art”, livro que ele acaba de publicar (ainda sem edição brasileira).
-
Aumentar
-
Diminuir
-
Compartilhar



