Gestão

Luto corporativo: o que acontece quando empurramos nossas dores para debaixo das mesas de reunião?

Mariana Clark, fundadora da Humanizar Consultoria

Monica Miglio Pedrosa

Ao longo de nossa existência devemos viver entre 15 e 20 experiências de luto, inclusive os não reconhecidos, como divórcio, síndrome do ninho vazio, infertilidade ou a perda de um pet. Essas dores se intensificam ainda mais, segundo Mariana Clark, psicóloga e fundadora da Humanizar Consultoria, quando não encontram espaço de elaboração dentro das empresas. O resultado aparece nas taxas de 30% de presenteísmo nas empresas e na queda da capacidade de entrega dos times.

Lutos corporativos foi o tema central de sua palestra na primeira edição do RH Experience, que recebeu 100 líderes de RH e CHROs na Experience House. Na visão de Mariana, que atuou por mais de 18 anos na área de Recursos Humanos de grandes empresas, as organizações precisam abrir espaço para conversas sobre o tema. “O luto revela todas as nossas fragilidades, nossas vulnerabilidades. Ficamos em carne viva. E mesmo assim temos que performar a qualquer custo, mesmo quando estamos em uma condição muito difícil”, afirmou.

A inquietação que a levou a se aprofundar no tema surgiu durante sua própria transição de carreira. Em 2017, Mariana decidiu dedicar dois anos ao estudo do luto, movida por uma pergunta: “O que estamos fazendo com nossas dores pessoais que trazemos de casa para o contexto do trabalho?”. Sua primeira experiência após esse mergulho foi na tragédia de Brumadinho, onde atuou primeiro como consultora e, depois, junto à Diretoria de Reparação criada pela Vale. [Leia a reportagem sobre a trajetória de Mariana: Luto corporativo: o custo de silenciar o sofrimento no trabalho”].

Durante a pandemia, o tema ganhou ainda mais urgência. Mariana passou a ser chamada por empresas para conduzir rodas de conversa, capacitar lideranças e apoiar áreas de RH a lidar com o luto coletivo. “Esses espaços de diálogo também ajudam a construir uma postura ativa frente aos desafios que a vida vai nos apresentar.”

A psicóloga também compartilhou dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) que apontam que, a cada 45 segundos, uma pessoa comete suicídio no mundo. “O nível de sofrimento é tão agudo que elas cogitam que a morte pode ser uma saída. O sentimento de desamparo, seja por não encontrar espaços de afeto e cuidado, seja por não conseguir falar sobre sua dor por se sentir inadequada, levam à perda da esperança”, disse.

Embora o adoecimento mental seja multifatorial, o suicídio produz reverberações individuais e coletivas dentro das organizações e também afeta a reputação da marca. Para Clark, a falta de reconhecimento da dor aprofunda ainda mais o sofrimento, que é intensificado nos chamados lutos não reconhecidos. Ela acrescenta uma segunda camada de dor à experiência da pessoa enlutada.

Entre os exemplos de lutos não reconhecidos estão a perda de um pet, processos de aborto ou infertilidade, divórcio, o diagnóstico de uma doença grave em alguém próximo e também situações corporativas, como transições de carreira, processos de expatriação, mudanças de cidade, fusões e aquisições, layoffs e demissões. Em comum, todas essas experiências envolvem rupturas que afetam identidade, pertencimento e na maioria das vezes estabilidade emocional.

“É insuportável ver alguém em sofrimento, porque somos imediatamente catapultados para nossas próprias experiências de dor”, explicou, reforçando que o impulso mais comum é empurrar o tema para ‘debaixo do tapete’, principalmente em uma sociedade que insiste em sustentar uma ideia de felicidade permanente.

Citando o capitalismo consciente, Mariana disse acreditar que as empresas são potências capazes de transformar a sociedade. “Vamos precisar de pessoas corajosas para embarcar nessas conversas profundas, incômodas, mas necessárias”, afirmou. Segundo ela, não há uma receita de bolo, nem uma bala de prata. “O que há é uma tentativa incansável de podermos efetivamente olhar no olho de alguém e falar que estará com a pessoa até ela melhorar”, concluiu.

Foto: Marcos Mesquita

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