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Gigantes de IA reproduzem práticas do colonialismo, alerta Karen Hao

Monica Miglio Pedrosa

“Quando a bolha da IA estourar, os maiores prejudicados não serão as gigantes da tecnologia, mas os que possuem seu bem-estar financeiro atrelado, de alguma forma, à indústria da IA”. O alerta foi um dos destaques da palestra de Karen Hao durante evento promovido pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) ontem à tarde, no Centro Cultural Camargo Guarnieri, na USP. A denúncia revela que a maioria das pessoas comuns não têm consciência de que seus fundos de pensão e de aposentadoria foram atrelados pelo sistema financeiro norte-americano ao financiamento deste mercado.

Jornalista e engenheira mecânica, Hao foi editora da MIT Technology Review e atuou no Wall Street Journal. Sua passagem pelo Brasil inclui a participação no congresso anual da Abraji, no fim do mês, e o lançamento da edição em português de O Império da IA. A obra integrou a lista de mais vendidos do New York Times quando foi lançada nos Estados Unidos, em 2025.

O livro narra a trajetória de ascensão da OpenAI e do Chat GPT, revelando como a jornada escolhida por essas Big Techs replica antigas práticas imperialistas, ao operar sob uma lógica colonial de exploração de recursos e territórios. Na obra, ela revela, por meio de centenas de entrevistas, como a companhia obriga trabalhadores de países como o Quênia a jornadas exaustivas e mal remuneradas de moderação de conteúdo, enquanto minas de cobre e lítio estão sendo extraídas de países como o Chile, com alto impacto ambiental para a região.

Durante sua palestra, mediada pela cientista da computação Nina da Hora e pela jornalista Tatiana Dias, ela discutiu o mito da necessidade de expansão desenfreada dos data centers, a precariedade dos modelos de negócio que sustentam as gigantes da IA e indicou qual seria o antídoto contra esse cenário de dominação. Confira a seguir os principais insights:

Bastidores do livro

Por ter se formado em Engenharia no MIT e conhecer muitos profissionais do meio técnico, Hao construiu uma rede de confiança com fontes do setor. Em 2019, ela encabeçou uma reportagem sobre a OpenAI para a MIT Technology Review e passou três dias imersas na companhia. No entanto, rapidamente percebeu que a narrativa pública da empresa não correspondia ao que acontecia a portas fechadas.

Após a publicação da matéria, a OpenAI proibiu o acesso da jornalista às suas dependências. Para continuar a investigação, ela procurou ex-funcionários que haviam deixado a organização e, para sua surpresa, muitos se mostraram motivados a expor os bastidores do que realmente ocorria ali. Além das conversas com ex-funcionários, Hao entrevistou engenheiros do Vale do Silício, trabalhadores do Quênia e ativistas ambientais no Chile, para ir além da retórica que é normalmente exibida na mídia tradicional.

A reação de Sam Altman

A única reação pública do CEO da OpenAI veio antes do lançamento de O Império da IA, quando Sam Altman publicou um tuíte indireto mencionando três livros que estavam saindo sobre a empresa que ele recomendava. Adicionalmente, ele disse que outra obra distorcia os fatos. Hao apontou que a declaração acabou gerando um enorme interesse público e serviu como publicidade espontânea para seu livro. A partir desse episódio, Altman adotou a estratégia de fingir que o livro não existia.

O mito da salvação pela IA

Hao destacou o vocabulário carregado de messianismo que os executivos do setor costumam adotar. Essas lideranças sustentam um discurso dual. Por um lado, exaltam uma utopia tecnológica capaz de salvar a humanidade. Por outro, anunciam a destruição apocalíptica da sociedade. Para a jornalista, ao elevar o debate para esse nível metafísico, as Big Techs conseguem desviar a atenção da mídia e da sociedade de problemas concretos e imediatos da indústria, como a precarização dos modelos de negócio, a exploração do trabalho e as fraudes fiscais.

A engrenagem da bolha financeira

Hao alega que as principais companhias de IA estão “maquiando” seus livros contábeis e é amparada por ex-colegas do Wall Street Journal nessa análise. A engrenagem da bolha funciona a partir de uma dependência desesperada por novos fluxos de dinheiro. Como essas corporações queimam quantias astronômicas de capital para manter seus modelos rodando, mas operam sem um plano de negócios viável ou um modelo de receita real, elas passaram a adulterar seus relatórios contábeis para ocultar o tamanho exato de suas dívidas.

Desmistificando os data centers

A jornalista também desmistificou a narrativa de que a expansão desenfreada de infraestruturas pesadas é um requisito puramente técnico para o avanço da IA. Hao argumenta que as Big Techs utilizam a “escala física” como um substituto artificial para a falta de inovação real e para sustentar a competitividade com as concorrentes. Em vez de aprimorarem a eficiência dos algoritmos, as empresas simplesmente constroem data centers cada vez maiores na tentativa de mascarar a estagnação técnica do setor. Ela enfatizou, ainda, como essas estruturas impactam severamente o meio ambiente e as comunidades locais, consumindo recursos e gerando danos que começam a chegar ao Sul Global.

O antídoto contra o império da IA

Ao ser questionada sobre os caminhos para enfrentar esse cenário de dominação, Hao apontou para a necessidade de uma resistência estrutural. Para ela, o antídoto contra as práticas imperialistas da IA está na construção de coalizões globais e no fortalecimento da fiscalização independente feita pela sociedade civil e pela imprensa.

Serviço:

Título: O Império da IA: Por dentro da corrida irresponsável pela dominação total

Autora: Karen Hao

Editora: Rocco

Lançamento da edição em português: 30 de maio de 2026

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