Mercado

Economia brasileira deve desacelerar em 2027, diz David Beker, do Bank of America

David Beker, chefe de Economia para o Brasil e de Estratégia para a América Latina do Bank of America

A economia brasileira deve desacelerar em 2027, independentemente de quem vencer a eleição presidencial. A avaliação é de David Beker, chefe de Economia para o Brasil e de Estratégia para a América Latina do Bank of America, que apresentou sua análise no encerramento da 4ª edição do Supply Executive Summit 2026, evento organizado pela SAP e o Experience Club. Para o economista, o resultado das urnas pode alterar o caminho da política econômica, mas não muda a direção da atividade no curto prazo.

Em uma hipótese de continuidade do atual governo, a perda de ritmo viria do esgotamento dos estímulos fiscais e das políticas creditícias adotadas para sustentar a economia, como os programas de renegociação de dívidas, o consignado privado e iniciativas de crédito voltadas a grupos específicos, como motoristas de aplicativo.

Mesmo em caso de vitória da oposição, a atividade também deverá desacelerar no curto prazo se o novo governo promover um ajuste fiscal, diante da contenção das despesas e da retirada de estímulos. Essa desaceleração tende a abrir algum espaço para a redução dos juros, mas a intensidade desse movimento dependerá da política fiscal.

Para 2026, a expectativa já foi significativamente revista. No início do ano, o mercado projetava cortes entre três e quatro pontos percentuais nos juros, enquanto Beker projeta apenas um ponto, de 15% para 14%. Em sua análise, a inflação acima do esperado e a manutenção dos estímulos governamentais limitaram a atuação do Banco Central.

Os efeitos do período prolongado de juros elevados começam a aparecer no crédito. Segundo Beker, a inadimplência está aumentando e os bancos já restringem a concessão de recursos para pessoas físicas e empresas de diferentes portes. Esse movimento deve enfraquecer o consumo e os investimentos, reforçando a expectativa de perda de ritmo da atividade.

Evasão via stablecoins

Ao analisar as contas externas, Beker destacou uma nova rota de saída de dinheiro do país. Nos últimos 12 meses, US$ 25 bilhões foram remetidos ao exterior por meio de criptoativos, principalmente stablecoins. Segundo ele, não se trata apenas de investidores negociando bitcoin, mas de operações realizadas por pessoas e empresas para converter reais e enviar recursos para fora sem pagar IOF. A prática aproveita uma lacuna regulatória que tende a ser fechada.

Apesar desse fluxo, o real permanece relativamente estável porque os juros próximos de 15% tornam mais atraente manter o dinheiro no Brasil. As contas externas também contam com um déficit em conta corrente de aproximadamente US$ 60 bilhões coberto por entradas de investimento direto entre US$ 75 bilhões e US$ 80 bilhões, além de um volume elevado de reservas internacionais. Para Beker, a situação externa é mais confortável do que a fiscal, marcada pelo crescimento da dívida e por um déficit nominal próximo de 8% do PIB.

Impacto da guerra no Irã

No cenário internacional, Beker chamou a atenção para o comportamento do petróleo desde o início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã no Oriente Médio. A expectativa inicial era de que, mesmo com o fim da guerra, os preços permanecessem elevados porque os países buscariam recompor suas reservas, mantendo a demanda pressionada.

Em sua análise, mesmo quando o conflito perdeu força, o preço do petróleo recuou além do esperado. A leitura de Beker é de que, caso a guerra termine de forma efetiva, a commodity pode não permanecer nos níveis altos imaginados inicialmente. Até lá, o choque do petróleo continua alimentando a inflação global e pode levar bancos centrais de vários países a manter os juros mais elevados.

Para o Brasil, o impacto da alta do petróleo é diferente do observado em outros momentos da história. O avanço da produção transformou o país em um grande produtor da commodity, fazendo com que preços mais altos contribuam para melhorar a balança comercial, as contas externas e as receitas fiscais, embora também elevem a inflação.

Beker ressaltou que o Brasil ainda importa uma parcela relevante de derivados, mas hoje é relativamente beneficiado pelo choque quando comparado a países mais dependentes das importações de petróleo, como o Chile. Segundo ele, essa é uma mudança importante em relação à posição que o país ocupava há cerca de dez anos.

Eleições presidenciais

Na frente eleitoral, Beker evitou fazer uma previsão sobre o vencedor e classificou a disputa como apertada. As pesquisas apresentadas por ele mostravam Lula à frente de Flávio Bolsonaro por cerca de cinco pontos, com margem de erro de três pontos percentuais para cima ou para baixo, e indicavam dificuldade para que uma terceira candidatura rompa a polarização.

Segurança pública e corrupção aparecem entre os temas de maior peso para o eleitor, sendo que, na avaliação apresentada, a segurança favorece o candidato da oposição. Beker ponderou ainda que o avanço da direita observado nas eleições municipais não pode ser transposto diretamente para a disputa presidencial.

A incerteza também aparece no comportamento do mercado. Segundo ele, os investidores ainda não estão assumindo posições com base em uma aposta sobre quem vencerá a eleição e seguem concentrados em movimentos de curto prazo, acompanhando principalmente fatores externos, como o preço do petróleo.

  • Aumentar texto Aumentar
  • Diminuir texto Diminuir
  • Compartilhar Compartilhar