Gestão

“O que gera conexão e fortalece o vínculo é o papel que temos na vida do outro”

Monica Miglio Pedrosa

“56% dos colaboradores se sentem mais produtivos hoje com ferramentas de IA do que com colegas de trabalho. Estamos começando a achar que o outro é uma fricção no processo produtivo”. O alerta é da psicanalista e cofundadora da Futuro Co., Carol Romano, que abordou os impactos da hiperconectividade nas relações humanas durante a palestra de encerramento da segunda edição do RH Experience.

Com o tema “Saúde Social: o elo entre bem-estar na vida e performance nos negócios”, a apresentação provocou reflexões sobre o avanço da epidemia de solidão no mundo, com 25% das pessoas declarando se sentirem sozinhas e não terem ninguém em quem confiar. A gravidade do problema já mobiliza governos e organismos internacionais. Reino Unido e Japão criaram Ministérios da Solidão para enfrentar o problema; a Austrália lançou sua Estratégia Nacional de Conexão Social; a Organização Mundial da Saúde (OMS) formou uma Comissão Internacional pela Conexão Social; e a Coreia do Sul aprovou uma Lei Antissolidão.

Nas empresas, a fragilidade das relações também afeta a conexão das pessoas com o trabalho. Apenas 30% dos colaboradores de organizações brasileiras afirmam ter pelo menos uma relação de confiança no ambiente profissional. Para Carol, a discussão sobre cultura organizacional precisa considerar a forma como as pessoas se relacionam e o impacto desses vínculos no desempenho dos times.  “O que gera conexão e fortalece o vínculo é o papel que temos na vida do outro”, afirmou.

Construir uma cultura de confiança é um dos desafios atuais das empresas. Segundo Carol, a qualidade das relações entre as pessoas no trabalho tem maior peso no desempenho das equipes do que os talentos individuais. Um levantamento da plataforma Intraliza aponta que empresas com uma cultura de confiança apresentam produtividade até 2,5 vezes maior, retorno em bolsa quatro vezes superior e risco de burnout oito vezes menor.

Segundo a psicanalista, metade dos gatilhos de burnout está ligada às relações interpessoais, como falta de reconhecimento, clima organizacional tóxico, falta de suporte social, insegurança e medo constante. Carol citou ainda o livro The fearless organization, de Amy Edmondson, pesquisadora pioneira em estudos sobre segurança psicológica no ambiente de trabalho e falou sobre os 11 principais tipos de medo que podem surgir em um único dia de trabalho: parecer ignorante, incompetente, intrusivo, negativo, desleal, mal interpretado, represálias, exclusão, conflito, sobrecarga e mudança. Todos eles se referem a interações com os outros.

A liderança tem papel fundamental na construção de um ambiente com segurança psicológica, em que dúvidas e dificuldades possam ser expressas. Carol citou a “regra dos 15%” da Universidade Stanford, que propõe compartilhar aos poucos questões que têm importância emocional em cada relação. Essa abertura gradual ajuda a aprofundar os vínculos e a construir uma rede de apoio, respeitando os limites dos envolvidos e evitando que dificuldades acumuladas sejam expostas de uma só vez, sobrecarregando o outro.

Outro desafio é aprender a identificar e comunicar os próprios sentimentos. Segundo a psicanalista, frequentemente tentamos explicar uma emoção por meio de um julgamento sobre o outro, que reage na defensiva. Falar sobre o que sentimos e como fomos afetados por uma situação abre espaço para a compreensão. Esse cuidado também envolve franqueza.

Ao citar Empatia Assertiva, de Kim Scott, Carol destacou que compartilhar informações relevantes para o outro, mesmo em conversas difíceis, é uma forma de demonstrar empatia. “Por trás de todo desejo prático de ser ajudado, existe o desejo anterior social de ser ouvido e o emocional de ser validado.”

Aprender a conversar também exige reconhecer que discordâncias podem fortalecer as relações. Carol diferenciou o confronto de ideias do conflito entre pessoas e chamou atenção para a tendência de interpretar opiniões divergentes como rejeição pessoal. Superar essa reação permite aprender com perspectivas diferentes e construir vínculos capazes de acolher a autenticidade de cada um. “Conflitos não são falhas, mas recursos no processo de aprofundamento das relações.”

Em tempos de relações cada vez mais mediadas pela tecnologia, sustentar essas trocas faz parte do cuidado com a conexão humana. “O oposto da conexão não é o conflito. O oposto da conexão é a indiferença”, concluiu.

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