Mercado

“O Brasil é um grande laboratório para o mercado de beleza”, diz Marcelo Zimet

Marcelo Zimet

Monica Miglio Pedrosa

Marcelo Zimet, CEO do Grupo L’Oréal Brasil, foi o speaker convidado da última Confraria de CEOs de 2026. Ele falou para 100 CEOs de grandes empresas na noite de ontem, na Experience House, em São Paulo. A L’Oréal reúne 42 marcas globais e deve superar € 50 bilhões de faturamento neste ano, consolidando-se como a maior empresa de cosméticos e beleza do mundo. No Brasil, segundo o executivo, o grupo registra sete anos consecutivos de crescimento de dois dígitos.

Dos aprendizados como líder diante de crises à oportunidade das vendas por criadores de conteúdo nas redes sociais, Zimet discutiu como manter uma companhia centenária próxima das mudanças de consumo e com a agilidade de uma startup para agir e inovar. Ele defendeu, ainda, que o Brasil tem muito a ensinar ao mundo.

Confira os principais insights a seguir.

Marcelo Zimet, CEO do Grupo L’Oréal Brasil

Ímpeto na juventude

Ao final da faculdade, Zimet havia chegado à fase final do programa de trainee da Nabisco, uma entrevista com o CEO e com o RH. A caminho do compromisso, passou por um acidente durante o pouso do avião no Aeroporto Santos Dumont. A companhia aérea queria levar os passageiros para o saguão, mas Zimet recusou para não perder a entrevista. Quando foi criticado pelo atraso de 20 minutos, ele contou do acidente e mostrou seu ímpeto para conseguir chegar no compromisso.

Em outra experiência, foi selecionado para o Marlboro Adventure Team, campanha de marketing da Philip Morris que levava consumidores para uma viagem com tudo pago aos Estados Unidos para representar o Brasil em um evento no deserto de Utah (EUA). Ele contou que concorreu com outras 20 mil pessoas, “se divertiu no processo” e acabou sendo selecionado.

Aprender a liderar em meio às crises

Em 2008, assumiu seu primeiro cargo de Country Manager na Colgate-Palmolive, com atuação na República Tcheca e Eslováquia, justamente durante a crise financeira global. Depois, foi para o Equador, então presidido por Rafael Correa, a quem chamou de “ditador, que tornou bastante difícil a gestão das companhias” naquele período. Todas essas adversidades são vistas por Zimet como aprendizados e preparação para liderar uma empresa como a L’Oréal hoje.

Potencial do Brasil

De 2014 a 2019, Zimet liderou a L’Oréal na Argentina. Nesse período fora do Brasil, se incomodava muito ao ouvir que fazer a gestão de uma empresa no país era difícil, que o país passa por muitas crises. Quando recebeu o convite para voltar, em 2019, e se tornar presidente da empresa no Brasil em 2021, encarou como uma chance única de mostrar o potencial do país para o mundo.

Agir rápido diante das mudanças do mercado

Segundo Zimet, o Grupo L’Oréal Brasil registra crescimento de dois dígitos há sete anos consecutivos. Com a chegada das canetas emagrecedoras, Zimet percebeu que essa seria uma tendência que causaria uma importante mudança de consumo. O executivo associou o emagrecimento rápido a necessidades relacionadas à queda de cabelo e à firmeza da pele, nas quais a companhia identificou oportunidades para desenvolver produtos.

Ele destacou a capacidade da L’Oréal de combinar o porte de uma empresa que fatura bilhões no Brasil com o comportamento de uma startup. Para transformar oportunidades em negócios, defende dar liberdade às equipes para criar e trazer ideias. “Tem muita coisa acontecendo e a velocidade e a voracidade do mercado são  impressionantes.”

Ricardo Natale
Ricardo Natale, CEO do Experience Club

Creator Economy

Uma conversa na escola das filhas ajudou Zimet a enxergar o potencial da nova economia dos criadores de conteúdo. O executivo participava das apresentações sobre profissões para jovens do ensino médio e notava o desinteresse deles nas apresentações dos executivos que trabalhavam em empresas tradicionais. Ele começou sua palestra perguntando quem tinha celular, quem tinha redes sociais e, a seguir, quem gostaria de ganhar dinheiro recomendando produtos de que gosta a pessoas que confiam em sua opinião nas redes sociais. Toda a turma levantou a mão. “Quem vai construir o mercado do futuro é essa turma.”

Zimet citou mais de 20 milhões de brasileiros monetizando suas atividades e estima que mais de 6 milhões já vivam como afiliados. “O mundo inteiro está olhando para o Brasil para entender como vai fazer isso em grande escala.”

Diversidade e riqueza brasileiras

Segundo Zimet, a companhia identificou mais de 60 tonalidades de pele no mundo, e o Brasil tem 55 delas. O país também reúne os oito tipos de cabelo identificados pela empresa. “O Brasil é um grande laboratório para o mercado de beleza”, contou.

Brasil tem o que ensinar ao mundo

Zimet acredita que o país, com seus 200 milhões de habitantes, tem um potencial de consumo enorme. Apesar de sermos o terceiro maior mercado do mundo de beleza, ainda há muito espaço para crescimento em diversas categorias. “Temos que ter muito orgulho do potencial do Brasil de ensinar ao mundo”, afirmou.

O executivo acredita que decisões estratégicas não devem ser tomadas por momentos de curto prazo. “Na L’Oréal, sempre que vamos tomar uma decisão importante de investimento, olhamos para um horizonte de três, cinco ou dez anos, independentemente de governo e do que vai acontecer no curto prazo.”

Três funções do CEO

Zimet acredita que o CEO deve fazer três coisas: dar uma visão clara de para onde a empresa vai; criar bons times para entregar essa visão; e eliminar as barreiras e identificar os recursos necessários para que os times possam executar os planos ou a visão de negócio.

O executivo defende que o CEO deve investir bastante tempo na qualidade do time. Ele dedica até um dia por semana para discutir temas relacionados a pessoas com o RH. Ele diz que tem um estilo informal e gosta de trocar ideias com qualquer pessoa da organização, independentemente do cargo. “Muitos dos insights e ideias estratégicas acabam surgindo das pessoas mais inesperadas que você tem no time.”

Futuro do mercado de beleza

Ao ser perguntado sobre como a área de marketing se estrutura com todas as mudanças, respondeu: “Não tenho a mínima ideia! Esse frio na barriga de não saber para onde vamos é interessante.” O executivo contou que, na empresa, ao ver uma tendência, uma unidade de negócio é criada e uma força-tarefa começa a trabalhar nela.

Zimet criticou modelos em que os testes e a expansão de uma inovação levam meses ou anos. Prefere manter o espírito de startup para que os projetos ganhem velocidade antes que os processos travem seu potencial. A mentalidade, segundo ele, é “primeiro você começa, depois você melhora”.

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