Design e economia circular

O lixo visto como matéria prima em um modelo de negócio que propõe como valor ao usuário soluções ambientais em vez de produtos

Publicado em 20 de agosto de 2021

Ideias centrais: 

1 – A circularidade se apresenta como um aprofundamento e uma radicalização do pensamento sustentável, pedindo o fim da extração de recursos naturais não renováveis e uma mudança no modo de enxergar os conceitos de matéria-prima e lixo. 

2 – Na hora de pensar um modelo de negócio circular, algumas diferenças se apresentam em relação aos modelos tradicionais. O valor proposto ao usuário terá em vista um resultado que tome a forma de soluções, e não mais de produtos. 

3 – A reciclagem, na economia circular, é vista não como uma solução de um passivo ambiental, mas como a criação de novas ideias de valor a partir de objetos desvalorizados e resíduos antes descartados servem para novos recursos. 

4 – A universidade tem um papel determinante, devendo promover interdisciplinaridade e fornecer ferramentas para que se alcance a integração, durante o desenvolvimento de projetos, entre os intervenientes no processo, desde a concepção até a produção, o uso e o descarte. 

5 – Liderado pela demanda econômica, o processo de design necessita de atualização e reforma. Também, pela natureza, é um processo circular que resulta em um novo conhecimento que fomenta a experiência e dá significado novo à criação.

Sobre os autores

Joice Joppert Leal atua há mais de 40 anos na promoção do design brasileiro no Brasil e no exterior. Nos anos 1970, trabalhou na promoção comercial do Consulado-Geral do Brasil em Milão, Itália. Entre 1980 e 2002, implantou e dirigiu o Departamento de Tecnologia (Detec) e o Núcleo de Desenho Industrial (NDI) da Fiesp. Hoje, está à frente da Associação Objeto Brasil. 

Jyri Arponen trabalha há 25 anos na área de desenvolvimento de negócios, marketing e finanças, bem como da internacionalização de empresas. Tem sólidos conhecimentos em negócios sustentáveis e redes de internacionalização e inovação. É um dos líderes seniores do SITRA, o fundo finlandês de investimento em inovação, onde dirige programas de negócios circulares. 

Tucker Viemeister é um designer estadunidense. Seu histórico profissional nas mais diversas áreas do design inclui a fundação da consultoria Smart Design e a abertura da sede da frogdesign em Nova York, EUA. Entre seus clientes estão Apple, Coca-Cola, Nestlé, Motorola, entre outros. 

Lauren Yarmuth é diretora do Stone Barns Center, fazenda e centro educacional sem fins lucrativos em Pocantico Hills, Nova York. Trabalhou como diretora de economia circular na consultoria de design estratégico IDEO. 

Claudia Alquezar Pacca é designer, educadora e pesquisadora. É doutoranda e mestre em design pela Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, Brasil. É especialista tanto em comunicação e artes como em didática do ensino superior pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. 

Ana Mae Barbosa é uma educadora pioneira da arte-educação no Brasil. É reconhecida internacionalmente por suas pesquisas, publicações e influência pedagógica. Foi presidente da International Society of Education Through Art (InSEA). 

Maria Luisa Rossi é educadora e designer com carreira construída internacionalmente entre Europa, Estados Unidos e Japão. É professora titular do mestrado em design integrado do College for Creative Studies (CCS), em Detroit, Estados Unidos, programa interdisciplinar com uma visão social e empresarial do conjunto de produtos-estratégias-serviços. 

Shashi Caan é sócia-fundadora da The Collective US/The SC Collective UK e da Globally We Design (GloW=DESIGN). É CEO da International Federation of Interior Architects/Designers (IFI). 

Agradecimentos 

Joice Joppert Leal 

É preciso louvar a oportuna e arrojada sensibilidade da FIESP e do SENAI, sempre atentos e focados nas tendências que podem moldar o amanhã, ao apontar os holofotes para a economia circular. Agradecemos ao SENAI e sua equipe, que veem no design o caminho seguro e abundante para o desenvolvimento da indústria brasileira e para o aperfeiçoamento da indústria brasileira e para o aperfeiçoamento das pessoas que compõem seus quadros gerenciais e técnicos. A economia circular se apresenta como um aprofundamento necessário, urgente e desejável da ideia de sustentabilidade. 

A Associação Objeto Brasil promove no país e no exterior, há quase 25 anos, o design como setor fundamental para o Brasil. O design e a economia criativa atuam na sustentabilidade econômica, social e ambiental, valorizando produtos e serviços de forma tangível e intangível. 

Esse olhar da Associação Objeto Brasil é alicerçado e sustentado pela profunda expertise do SENAI, é uma das linhas que transparece neste livro. O desejo é despertar atenção e curiosidade, contribuindo para aumentar o conhecimento sobre a circularidade. Também buscamos ao longo destas páginas esclarecer os muitos significados da palavra “design”, que, para além de desenhar ou projetar, sinaliza a eterna busca humana de criar soluções cada vez melhores para os desafios de sustentabilidade que se apresentam. 

Breve história do desenho industrial – dos primórdios à indústria 4.0 

Para McDonough e Braungart, o problema é que o legado cultural e infraestrutural do período de industrialização linear – cradle to grave (do berço ao túmulo) com um pequeno período de “uso” no meio – é o da “força bruta”. Tanto física como quimicamente, a humanidade se lançou em uma corrida para extrair e utilizar – no caso dos combustíveis fósseis, queimar – recursos não renováveis para gerar energia e produzir o máximo possível. 

Naquela época, ainda não se podia prever a expansão do modelo industrial linear nem os impactos disso sobre o nosso planeta e as espécies que vivem nele. O senso comum difundido na sociedade ocidental no início do século XIX – até por pensadores vistos como atentos à natureza como Ralph Waldo Emerson – era de que as essências da natureza não mudariam, e seu poder de regeneração estaria sempre pronto para absorver qualquer impacto. 

O auge dessa expansão – que, na verdade, degradava o todo – veio com o conceito de obsolescência programada. A ideia de que os produtos – fosse porque eles sairiam da moda, fosse porque eles eram feitos de maneira a tornarem-se inúteis ou ineficientes – obrigassem os consumidores a substituí-los rapidamente. Dessa maneira, a demanda não diminuiria e a indústria continuaria funcionando e se expandindo. A ideia foi dominante nos círculos do desenho industrial nas décadas de 1950 e 1960 (Viemeister). 

No entanto, o momento industrial em que vivemos hoje é totalmente diferente de 50 anos atrás, quando designers e cientistas estavam dando o alerta vermelho ambiental, iniciando um pensamento sustentável e de redução de danos. Desde então, passamos pela revolução da informação, que abriu inúmeras possibilidades de comunicação, conexão e automação. Essa infraestrutura informacional e digital que rege nossa indústria e economia atualmente vem abrindo caminho para a indústria 4.0. O termo teve origem na Alemanha e diz respeito às novas possibilidades de sistemas e de manufatura disponíveis. 

As principais tecnologias que ditam a Nova Revolução Industrial são os dispositivos móveis, a internet das coisas, a computação em nuvem e a inteligência artificial. A ideia é que o modo de manufatura possa se dar em sistemas ciberfísicos, controlados e regulados por inteligência artificial e pelo uso de dados. Outros fatores que levam a indústria 4.0 adiante são a digitalização e a integração de cadeias de valores em uma indústria e entre indústrias, fornecedores e clientes, a possibilidade de modelos de negócios digitais, bem como soluções digitais para os clientes. 

História e correntes de pensamento da economia circular 

No modelo linear, as indústrias deixam de ser responsáveis pelos produtos, uma vez que eles saem da fábrica e vão às mãos do consumidor. O valor é dado pelo fluxo de mercadorias. O aumento impensado desse fluxo gera custo crescente para materiais, energia, água e solo, bem como problemas de suprimento que causam riscos socioeconômicos aos negócios. Esse modelo também não oferece nenhum incentivo para que os produtores desenhem produtos que poluam menos ou cujos descartes sejam mais fáceis de gerir (Circle economy). 

No entanto, a ideia de reduzir, reciclar e reutilizar, principalmente no momento atual de emergência climática em que vivemos, é apenas um paliativo. Além disso, como os materiais e produtos que atualmente vão para reciclagem muitas vezes não foram desenhados tendo em mente o reaproveitamento, eles geralmente perdem valor e qualidade após cada reciclagem ou reúso. Precisamos ir além disso. A circularidade se apresenta como um aprofundamento e uma radicalização do pensamento sustentável, pedindo o fim da extração de recursos naturais não renováveis e uma mudança na maneira de enxergarmos os conceitos de matéria-prima e lixo. O foco está em manter o máximo possível de valor ao longo dos ciclos de vida de materiais, produtos e serviços. 

A inovação está não apenas em deixar de prejudicar o ambiente como também em promover ativamente a restauração de nosso capital natural e implantar uma sustentabilidade verdadeira. 

Há espaço para inovação em todas as etapas, desde a escolha dos materiais até o design de produtos, serviços e plataformas que influenciam o modo como nos comunicamos e consumimos, gerando novos modelos de crescimento. Stahel define o principal objetivo da economia circular como “manter os estoques com o maior valor de quantidade e qualidade a cada momento”.  

Outros campos que ganham força dentro do pensamento circular são os estudos regenerativos e o design regenerativo, postulados inicialmente pelo arquiteto John Tillman Lyle. Por definição, os estudos regenerativos são interdisciplinares, reunindo estudos sociais e culturais, estudos ecológicos, os processos naturais e também tecnologia (design, arquitetura, engenharia, física e química). 

Novos modelos de negócios, processos de design e produção 

Na hora de pensar um modelo de negócio circular, algumas diferenças se apresentam em relação aos modelos tradicionais. O valor proposto ao usuário terá em vista um resultado que tome a forma de soluções, e não mais de produtos. Quando, de fato, se tratar de um produto, terá que ser algo pensado com um longo ciclo de vida e possibilidades de reutilização, remanufatura ou devolução, colocando o usuário no centro do processo de venda e oferecendo funções de apoio. 

Em uma economia circular, com as diferentes propostas de valor, relações entre os consumidores e inovações nas cadeias produtivas, os modelos de negócios são incontáveis. Destacamos aqui alguns que impulsionam a economia circular: 

Uso de renováveis. A base da economia circular é renovável. Negócios que priorizam o uso ou fornecem insumos renováveis contribuem para o desenvolvimento de uma economia circular. O bioplástico de cana-de-açúcar, renovável e reciclável, o carro movido a etanol e as embalagens feitas de fécula de mandioca, que são comestíveis e compostáveis, são bons exemplos brasileiros. A bioeconomia é uma área de grandes possibilidades para o país e, neste contexto, pode contribuir para inserir o Brasil na circularidade. 

Resíduos como recursos. Atualmente, temos tecnologia que permite a transformação de resíduos em recursos, gerando produtividade e retorno do investimento em larga escala. A reciclagem, na economia circular, é vista não como uma solução de um passivo ambiental, mas como a criação de novas cadeias de valor a partir de objetos desvalorizados e resíduos antes descartados servem para novos recursos, como fertilizantes e biogás. 

Durabilidade e modularidade. Prolongar a vida útil de produtos por meio de reparo, modernização, revenda e compartilhamento também contribui para uma economia circular. Os produtos mais duráveis substituem os descartáveis na economia circular, provocando uma mudança de hábitos e atitudes, evitando a rápida geração de resíduos por produtos de uso único. 

Produto como serviço. Cada vez mais, também, os produtos se tornam serviços. Há oferta de acesso ao produto, mas a propriedade pertence ao produtor, que fica responsável pela manutenção, pelo reparo ou pelo descarte. É a chamada “desmaterialização” dos produtos. O foco está na função e na experiência de uso: o consumidor vira usuário e uma relação comercial é estabelecida. Isso reduz desperdícios. 

Iniciativas e cooperações internacionais 

Há um histórico de fatores externos no âmbito da sociedade civil e da cooperação entre governos que se acumulam para apontar a circularidade como o caminho desejado e que se firmará nas próximas décadas. Um dos primeiros marcos foi a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1972, em Estocolmo, Suécia, que também é conhecida como Conferência de Estocolmo. Foi a primeira vez que, internacionalmente, a preocupação ambiental entrou na agenda econômica e política, marcando uma guinada rumo ao desenvolvimento sustentável. 

A Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, conhecida como Rio 92, ECO 92 ou a Cúpula da Terra, é outro momento incontornável da história da cooperação internacional em prol do meio ambiente. A cúpula realizada na cidade do Rio de Janeiro, Brasil, reafirmou e aprofundou o que havia sido iniciado em Estocolmo. Apesar de nenhum acordo ter sido assinado entre os países, a conferência gerou uma declaração com diretrizes legais e políticas para o desenvolvimento sustentável, publicada com o título de Agenda 21. 

O acordo que não veio em 1992 viria em 2015, na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, conhecida como Conferência das Partes ou COP 21, organizada pela ONU em Paris, na França. Nesse ano, vários países se comprometeram a diminuir drasticamente as emissões de carbono, de maneira a conter o aumento da temperatura global e mantê-lo a um nível inferior a 2ºC até 2030. Todos os países presentes assentiram com as mudanças, mas poucos, até hoje, tomaram medidas. 

O uso e a produção de apenas quatro materiais – aço, cimento, alumínio e plástico – consumirão todo o nosso orçamento de carbono até 2100. A aplicação de estratégias circulares poderia ajudar a reduzir as emissões em 56% até 2050 (SITRA; European Climate Foundation; Material Economics, 2018). 

A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) também tem um programa de economia e governança da economia circular nas cidades, que apoia cidades e regiões na transição rumo à circularidade. 

A União Europeia e a Comissão Europeia implementaram um plano de ação ligado à economia circular, movimento que identificam como uma megatendência global irreversível. O resultado dos três anos de ações implementadas – indo desde o manejo do lixo até o incentivo a novas formas de consumo – foi publicado como relatório em 2019. 

A SITRA, fundação independente que opera sob a supervisão do Parlamento finlandês, também tem um trabalho continuado de pesquisa e incentivo a iniciativas da economia circular e inovação. Além disso, desenvolve manuais para projetos e negócios circulares. A SITRA é responsável por criar o Fórum Mundial de Economia Circular (WCEF) -, uma das mais importantes iniciativas para reunir agentes interessados em desenvolver a economia circular e gerar conhecimento e intercâmbios na área. No Brasil, empresas e indústrias já estão adotando soluções circulares, algumas inclusive em parceria como o SENAI e a FIESP. 

2020 é a década da reconstrução ecológica e agora é a hora da economia circular 

Jyri Arponen 

Uma grande mudança na cultura e na mentalidade da indústria é necessária: alternar o foco da produção para o consumidor e maximizar o valor do produto existente, ao mesmo tempo que desassocia a criação de valor do consumo de recursos. Tudo isso pode ser feito com modelos de negócios circulares. 

Os princípios de economia circular estão entre nós há séculos, mas só recentemente os modelos de negócios circulares tiveram seu apelo aumentado em face do rápido desenvolvimento tecnológico e da necessidade de colocar maior foco nos consumidores. Os valores e a mentalidade sustentáveis são o que impulsionam as empresas a se tornarem circulares e aumentar sua competitividade. Modelos de negócios circulares são as ferramentas para uma mudança sistêmica global para indústrias sustentáveis.  

Três fatores interligados sustentam a transição para mais circularidade nos modelos de negócios e mostram a urgência de a indústrias e empresas agirem agora: 

  1. Novas tecnologias: tecnologias que estão se desenvolvendo rapidamente, como a internet das coisas, permitem novos modelos de negócios que cumpram objetivos da economia circular. 
  2. Centralidade do consumidor: a tendência em direção à personalização e à hiperpersonalização leva a uma mudança nas ofertas das companhias, que passam a vender soluções orientadas a resultados, e não a produtos independentes. 
  3. Sustentabilidade: o uso excessivo de recursos naturais e ecossistemas faz com que reguladores, investidores e companhias busquem práticas mais responsáveis e sustentáveis.  

De-ciclar já 

Tucker Viemeister 

Neste momento, estamos enfrentando uma emergência climática de proporções astronômicas. Nessa atmosfera em aquecimento está fazendo com que nossos sistemas de sustentação entrem em colapso. Provavelmente, não vamos sobreviver ao próximo ciclo climático, a não ser que comecemos a “reverter” as causas agora. É hora de uma nova abordagem: de-ciclar! 

Os designers estavam fazendo um ótimo trabalho para nos levar à utopia, mas, agora, nos anos 1940, começaram a se preocupar com o que aconteceria com os empregos e a indústria quando chegássemos lá! E se os consumidores parassem de comprar coisas novas e a economia se estagnasse subitamente? A solução foi começar a fazer coisas que tinham uma “validade inserida”, que saíssem da moda. 

O pioneiro consultor de design J. Gordon Lippencott defendeu o conceito de obsolescência do design para muitos bens de consumo em Design for business (1947), em um capítulo no qual postulava que a obsolescência seria a chave para uma nova prosperidade. Esse tipo de ideia levou o designer, educador e defensor do design socialmente e ecologicamente responsável Victor Papanek a colocar o design industrial como uma das mais perigosas profissões. 

O arquiteto William McDonough e o químico Michael Braungart escreveram em Cradle to cradle: “Seres humanos não têm um problema de poluição, eles têm um problema de design”. Precisamos mudar nosso comportamento para salvar o planeta. 

Todas as coisas vivas não só “re-ciclam” como também “ciclam”: reutilizar e reciclar são os dois passos da economia circular. 

Obviamente, reciclar, reutilizar e reduzir é urgente. Mas precisamos ir além dessas práticas para uma ideia mais radical: de-ciclar. Uma combinação de todas essas práticas – utilizar as coisas por mais tempo, estendendo o ciclo de uso e diminuindo a necessidade de uma economia frenética e cada vez mais rápida, que tem causado o aquecimento global e a mudança climática. 

O carbono extra no ar é uma das principais causas do efeito estufa. As principais causas são a queima de combustíveis fósseis em automóveis e indústrias, o metano liberado por bovinos – que tem 23% mais impacto que o dióxido de carbono simples – e a fabricação de concreto: tudo isso multiplicado pelo ciclo de feedback de derreter geleiras e as queimadas de florestas. O dióxido de carbono pode ser necessário para a vida, mas sua presença em demasia na atmosfera é um problema. Então, de-ciclar significa remover o dióxido de carbono da atmosfera. 

Nosso ambiente está danificado e se deteriorando muito rapidamente. É tarde demais para frear a máquina de produção de nossa economia global – é hora de colocá-la ao contrário! 

Fechando o ciclo – como poderíamos desenhar para a circularidade? 

Lauren Yarmuth 

Como designer, eu geralmente arranjo inspiração em lugares estranhos: uma concha marinha, um estacionamento vazio, arcos de tijolos. Por sorte, não sou a única a fazer isso: trabalho no estúdio Design for Food da IDEO, onde usar esses tipos de inspiração para obter novos resultados e inovações é prática comum. 

O solo é a fonte de tanta vida em nosso planeta; cada componente tem um papel a cumprir e essas partes juntas têm o potencial de criar uma bonança abundante para tudo aquilo que está dentro dele ou a seu redor. Falando historicamente, os humanos costumavam criar e viver em sistemas que, assim como o solo, eram sistemas circulares, de ciclos fechados. Produzíamos o que necessitávamos para sobreviver e prosperar, e reutilizávamos os materiais e bens até que se degastassem. Mas, em algum ponto do caminho, por meio da inovação em tecnologia e engenharia, muitos perdemos nossa conexão com as coisas que nos permitiam viver e prosperar. Passamos a entender a abundância como sucesso, sem considerar as repercussões que essa mentalidade tem em nossas vidas e no planeta. 

Segundo a ONU, aproximadamente um terço dos alimentos produzidos no mundo a cada ano – 1,3 bilhão de toneladas – é perdido durante a produção ou jogado fora pelos consumidores. Nos Estados Unidos ocorre a pior parte disso. Em média, o estadunidense desperdiça por mês a comida necessária para alimentar uma pessoa por 19 dias. Em todo o mundo, 800 milhões de pessoas estão desnutridas; nos Estados Unidos, uma a cada sete pessoas passa por insegurança alimentar. Espantosamente, ao mesmo tempo são considerados obesos quase um a cada dois adultos e uma a cada seis crianças ao redor do mundo. 

Usamos o design como um instrumento para ver o interior das coisas e conectar-nos com novas perspectivas, para poder destravar soluções. Foi essa a abordagem que fizemos em 2018 com a Rockfeller Foundation, enquanto trabalhávamos para descobrir os princípios de um mundo onde haja desperdício de alimentos. Portanto, como poderíamos: 

  • Definir o preço dos alimentos para que eles refletissem com precisão seu valor ecológico e nutricional? 
  • Mensurar e administrar a comida como um recurso natural valioso? 
  • Garantir que todos os alimentos fossem consumidos no máximo de seu valor nutricional? 
  • Tornar o consumo de alimentos frescos acessível e conveniente? 
  • Ativar nossas redes para que conseguíssemos exatamente o que precisamos dos alimentos nos níveis físico, social, psicológico e de experiência? 

Educação para a inovação circular 

Claudia Alquezar Facca e Ana Mae Barbosa 

Uma das principais recomendações para o aperfeiçoamento da indústria é preparar as futuras gerações, incorporando a circularidade no sistema educacional. Nessa missão, a universidade tem um papel determinante, devendo promover a interdisciplinaridade e fornecer ferramentas para que se alcance a integração, durante o desenvolvimento de projetos, entre os vários intervenientes no processo, desde a concepção até a produção, o uso e o descarte.  As instituições educacionais das várias áreas disciplinares precisam desenvolver programas e currículos voltados para a economia circular, incorporando a aprendizagem baseada em ações, que pode ser adaptada para qualquer tipo de instituição. 

A cocriação, que implica a participação de todas as partes interessadas, está no cerne da economia circular (Leube, Walcher). A abrangência disciplinar tem de ser alargada, pois desenvolver apenas as habilidades digitais não será suficiente para garantir uma educação para uma economia resiliente e verdadeiramente circular. As políticas educacionais de longo prazo e os gestores devem considerar como serão desenvolvidas as habilidades complexas, críticas e criativas de resolução de problemas, essenciais para a inovação circular. As metodologias de design aliadas a uma forte fundamentação tecnológica podem ser ferramentas úteis para ampliar e potencializar a visão interdisciplinar de forma geral, baseada em uma conscientização dos problemas a resolver. 

É fundamental que as universidades reconheçam a importância de seu papel na promoção de uma consciência, multiplicando iniciativas que favoreçam a transição para um processo de aprendizagem voltado intrinsecamente à inovação circular. 

Desenhando serviços circulares 

Maria Luisa Rossi 

O design circular nos desafia a questionar se uma simples substituição de materiais não recicláveis por alternativas recicláveis é realmente suficiente e nos leva a pensar nos ciclos de vida e no papel crucial que devem desempenhar os designers. Inquestionavelmente, os designers responsáveis pelo design das coisas físicas estão no centro de uma economia circular; porém, creio que ir muito mais além do aspecto de fabricação vai requerer uma relação mais profunda com os consumidores e usuários e o uso de sistemas de pensamento. 

O design de serviços é e será crucial no design desses fluxos, e muitos desses exemplos já estão ao nosso redor. Em Amsterdã, nos Países Baixos, o aeroporto de Schiphol paga para a Philips pela luz como serviço para substituir sua iluminação. A Philips mantém a propriedade da equipe de iluminação e a Schiphol paga pela luz utilizada. A iluminação como serviço é uma das várias formas inovadoras em que as instalações podem ter iluminação de estado sólido relativamente cara sem incorrer em altos custos iniciais O acordo de Schiphol, porém, se baseia no conceito de uma economia circular e implica acesso do cliente sobre a propriedade. O modelo de negócio enfatiza as relações por meio de serviços em contraposição às transações. 

Outra forma de aumentar a devolução dos produtos ao fabricante são os modelos de negócio que ajudam as empresas a assumir uma maior responsabilidade por seus materiais ou produtos ao fim do seu ciclo de vida, como arrendamento. A economia compartilhada é a resposta aos 50 anos de marketing pelo individualismo e a necessidade de possuir coisas. Muitas empresas de economia compartilhada têm uma forte motivação capitalista, com sistemas de serviços que incluem cooperativas, cocriação, reciclagem, upcycling, redistribuição e o comércio de bens usados. Esses sistemas de serviços estão relacionados com a economia circular, já que promovem o consumo colaborativo em que várias pessoas usam um artigo. 

Design para a sobrevivência na economia circular 

Shashi Caan 

Indo mais além, com inumeráveis ferramentas, tecnologias sofisticadas e aplicativos que ajudam a vida diária – viajantes, robótica, máquinas etc. -, os seres humanos se alteram em nome do avanço, em nosso núcleo os seres humanos seguem precisando de qualidades tão essenciais quanto a mudança, o contraste, o descobrimento e o deleite. Essas qualidades ajudam a manter um equilíbrio desde a uniformidade do contexto e das culturas. O mundo necessita recuperar o equilíbrio, honrando a diversidade e a singularidade. Potencialmente, isso abre as portas para um novo enfoque de design: o circular. Atualmente, os designers estão carentes de conhecimentos essenciais. Esta compreensão superficial do design prejudica também o desenvolvimento dos aspectos mais suaves e intuitivos das mentalidades, atitudes e comportamentos necessários para integrar o equilíbrio físico, sensorial, perceptivo e emocional para um maior centramento humano. 

Liderado pela demanda econômica, o processo de design necessita de atualização e reforma. Também, pela natureza, é um processo circular que resulta em um novo conhecimento que fomenta a experiência e dá significado novo à criação. É somente por meio de um novo significado que podemos redefinir nossos valores e, portanto, lutar pela sobrevivência da humanidade e por maiores aspirações. 

Esse conhecimento da mentalidade, das atitudes e dos comportamentos aplicados com circularidade vai exigir que repensemos os fatores humanos e, por sua vez, que mudemos e remodelemos nossos espaços íntimos e públicos, englobando todas as “coisas” requeridas, nossas cidades e infraestruturas relacionadas. 

Resenha: Rogério H. Jönck 

Imagens: reprodução e Unsplash

Ficha técnica: 

Título: Design e economia circular 

Autores:  Joice Joppert Leal, Jyri Arponen, Tucker Viemeister, Lauren Yarmuth, Claudia Alquezar Facca, Ana Mae Barbosa, Maria Luisa Rossi e Shashi Caan 

Primeira edição: SENAI-SP Editora