É tempo de (re)alinhar a cultura e o propósito das empresas

É tempo de (re)alinhar a cultura e o propósito das empresas

A 4ª edição do Experience Lab discute novo contexto da transformação por Alain Sylvain, um dos maiores nomes da inovação dos EUA

Publicado em 24 de setembro de 2020

Vivemos tempos de sucessivas crises que nos levam a questionar a ideia de futuro. Estamos lidando com uma crise de saúde com a pandemia de Covid-19, sem precedentes na história recente da humanidade. Ao mesmo tempo, nos deparamos com uma crise cultural e políticas aguda, em que questões como o racismo estrutural emergem com intensidade. Neste cenário, a princípio sombrio, temos também um horizonte de oportunidades, tanto do ponto de vista individual, quanto das organizações, de revermos as nossas escolhas e de promover mudanças de cultura e propósito que sirvam a um bem comum maior. 

“Podemos ativar o nosso ‘instinto de progresso’ para lidar com as crises do nosso tempo. Não devemos esperar passivamente o ‘novo normal’, mas sim adotarmos uma postura ativa e nos perguntarmos como criar este ‘novo normal’”, diz Alain Sylvain, um dos consultores de inovação mais impactantes e responsável pela construção dos Labs das maiores empresas dos Estados Unidos.

Alain foi a principal atração da quarta edição do Experience Lab, que teve como tema central “O propósito da disrupção” (assista na íntegra), e aconteceu na tarde desta quinta-feira, 24/09. Contamos também com a presença de Bedy Yang, gestora do fundo 500 Startups, e atualmente a brasileira mais conectada com os investidores do Vale do Silício, e de Mariano Faria, CEO Global da VTEX, uma das mais inovadoras empresas de cloud commerce. O evento contou com patrocínio master de Indeed, Oi Soluções, Simpress, Ticket e com o patrocínio de LogMeIn e Red Hat

Confira os principais insights de nossos debatedores:

Alain Sylvain

1- “A pandemia de Covid-19 nos trouxe um senso de humildade. É hora de priorizar a justiça e a equidade. De revisitar o nosso passado e nos conciliar com ele para evoluir. Temos a capacidade de mudar as nossas realidades.” 

2- “Para inovar, as empresas precisam assumir riscos. E pode ser o dinheiro investido, as iniciativas que ela suporta, como a organização está estruturada e de que formas ela contrata.” 

3- “A diversidade é boa para os negócios, é a alavanca para inovação e crescimento. Mas as empresas não vão conseguir atrair pessoas diversas se continuarem a buscar nos mesmos lugares. Os critérios de contratação têm de ir além das escolas e universidades.”

4-  “As pessoas buscam por marcas que refletem quem elas são e seus valores. Antes, as marcas tinham uma postura aspiracional e isso mudou. As empresas estão subservientes aos anseios de seus consumidores.”

5- “Pessoas se identificam mais com as empresas e marcas do que com seus governos por algumas razões. Uma delas é a transparência no posicionamento e na atuação das marcas que hoje refletem muito mais as demandas das pessoas.”

6- “Investir em crescimento e inovação em tempos de crise é uma aposta certa. Mas, é preciso haver um equilíbrio entre as ações defensivas e ofensivas. Investir no que é relevante para os tempos atuais.”

7- “O instinto de progresso é um conceito filosófico que encoraja a união e a capacidade de imaginar futuros melhores.”

8- “O senso de pertencimento é a chave para nutrir os laços entre as pessoas e fortalecer a cultura de uma empresa.”

9- “É preciso deixar as portas abertas para a comunicação. Isso significa que ela precisa ser transparente e ter um fluxo constante nas empresas.”

10- “Estamos vivendo uma polarização que está nos apartando. Em face a esta crise, temos que nos unir em torno de uma linguagem comum que nos conecte.”

11- “Temos que medir o propósito. As pessoas falam muito sobre isso, mas não praticam de um ponto de vista corporativo.”

Bedy Yang

1-“Os investidores miram os unicórnios e não veem as enormes oportunidades de crescimento dos centauros, as startups que faturam entre US$ 100 milhões e US$ 900 milhões.”

2-“Quando montamos o nosso fundo, há 10 anos, 70% dos unicórnios ficavam no Vale do Silício, mas agora mais 50% das empresas estão espalhadas pelo mundo. Não existe mais um monopólio da inovação.”

3-“Não tem mais essa história de ideias novas e bilionárias. As staturps de sucesso têm a visão em comum dos seus fundadores sobre o que será o futuro”.

4-“O desafio do venture capital era antecipar em dez anos as tendências de mercado. A questão agora é que esses dez anos estão comprimidos em dois.”

5-“Indústrias inteiras precisam se reinventar, como a Amazon fez com livros e a Netflix com o streaming. É aí que estão as grandes oportunidades.” 

6-“Existe agora uma discussão muito forte sobre o ‘future of work’. Várias startups novas aqui no Vale do Silício nasceram e querem continuar sendo descentralizadas. É o conceito de ‘remote first’.”

7-“Uma tendência importante do mercado é a entrada de Venture Capital cada vez mais cedo nas startups. Os investidores estão apostando cada vez mais em seed money para diversificar o portfólio e não perder oportunidades.”

8-“A presença do Corporate Venture Capital também é cada vez maior nas startups mais jovens. Isso acontece porque as empresas estão dando conta de como é difícil fazer inovação disruptiva dentro de casa. O CVC, que antes era muito pequeno, já responde a mais de 25% dos clientes que nos procuram.”

9-“Antes as empresas acreditavam que, ao criar uma ferramenta, o processo de inovação estavam resolvido, mas agora elas precisam trabalhar com várias ferramentas ao mesmo tempo, além de processos de open innovation. Daí também o CVC como mais uma opção.”

10-“O ‘future as a service’ é uma tendência inexorável. O cloud veio para democratizar o acesso à tecnologia entre as pessoas e as pequenas empresas. É um caminho sem volta.”

Mariano Faria

1-“O mundo deu uma cambalhota, um salto triplo mortal sem rede, e não foi pela Covid-19. Isso já tem 3 ou 5 anos. Então não é possível que as estruturas usadas pelas empresas nos últimos 100 anos sejam capazes de gerenciar o que vem pela frente.” 

2-”Os líderes têm que aprender a discutir abertamente sobre os próprios defeito e os da equipe. Quem não erra não evolui. É o poder da vulnerabilidade.”

3-“As grandes empresas que não tiverem a coragem para mudar a sua estrutura dificilmente vão fazer com que o talento permeia você fazer com que o talento permeie a organização.”

4-“Na estrutura atual das empresas, você é pago para subir na hierarquia sem aprender nada sobre as outras áreas. As companhias que conseguem quebrar os silos têm uma explosão de produtividade, o ganho é muito grande.”

5-“Programação é o novo inglês, mas as empresas continuam contratando as pessoas pelo seu título acadêmico. Cada vez mais, a demanda será por talentos digitais.” 

6-“Digitalização é cortar na carne as pessoas incapazes de se adaptar ao novo. As companhias precisam comprar, embedar e se embebedar na cultura digital.” 

7-“O CEO que não dedica 30% do seu tempo em busca de talentos para a organização não entendeu que o mundo mudou.” 

8-“Há cinco anos seria impensável que uma desenvolvedora brasileira de software superasse os americanos. O meu sonho é transformar o país da soja no país do código. Aos poucos, estamos avançando.”

9-“Nos anos 60, todas as empresas tinham um departamento de datilografia que prestava serviço para todas as áreas. É o que o pool de TI faz hoje, porque tem um conhecimento específico. A questão é que no futuro todos terão que dominar esse conhecimento específico.”

10-“O que mais vemos nas organizações é uma disputa de poder entre as áreas de TI e de negócios. Quem quer se transformar de verdade precisa de muita força para acabar com esses conflitos internos.”

Texto: Luana Dalmolina e Arnaldo Comin

Imagens: Reprodução | Experience Club