“ESG: em breve vamos separar o joio do trigo”

Paulo Rogério Nunes, da Vale do Dendê, diz que diversidade e inclusão em toda a cadeia produtiva das empresas ainda está longe de ser real

Publicado em 22 de setembro de 2021

No livro de sua autoria, Oportunidades Invisíveis, Paulo Rogério Nunes conta a história de empreendedores brasileiros e do exterior que criaram negócios inovadores tendo a diversidade como foco. Ao abordar o tema, ele está em sua zona de conforto: Nunes foi pioneiro ao propor o empreendedorismo como forma de mobilidade social para grupos sub-representados na economia brasileira.

Dentro dessa proposta, em 2016, cofundou a Vale do Dendê, uma aceleradora de startups com lideranças negras, em Salvador. Os programas tocados por ela já aceleraram 120 empresas pelo programa, nas áreas de moda, gastronomia, tecnologia e games. 

Para Nunes, o Brasil está muito atrasado em relação à inclusão de pessoas e empresas negras em comparação com os Estados Unidos, o Reino Unido e mesmo a África do Sul. “Quando eu visitava as sedes das multinacionais brasileiras em São Paulo parecia que estava na Suécia, não no Brasil”, diz. “O conceito de diversidade tem que ir muito além das contratações. Deve ser levado à toda a cadeia produtiva do negócio”, afirma.

Veja a seguir, os principais trechos da entrevista de Nunes ao Experience Club:  

1 – Inspiração veio do exterior 

“A Vale do Dendê foi criada em novembro de 2016, uma época em que não havia um cenário de discussão tão forte sobre empreendedorismo e inovação, especialmente aqui em Salvador e no Nordeste. O paradigma que havia quando se tratava a questão social era o de responsabilidade social e de investimento social privado, na forma de assistencialismo. Empreendedorismo como uma forma de mobilidade social, fora dos principais centros financeiros, com empresas lideradas por pessoas afrodescendentes ou em regiões como o Nordeste e as periferias das capitais era uma novidade.”  

“As empresas que apoiavam o tema do empreendedorismo por meio de fundações sociais não compreendiam bem a crítica da falta de diversidade nesse ecossistema. Por isso, demoramos um ano para conseguir as primeiras captações. Até que a Fundação Itaú Social e a Fundação Alphaville foram as primeiras a acreditar no projeto.” 

“A ideia surgiu após o meu retorno de uma temporada nos Estados Unidos, em que conheci os principais centros de inovação do MIT e de Harvard, mas também a inovação que existia em cidades pequenas nos EUA, fora dos grandes centros – Vale do Silício, Boston, Nova York, Seattle. Me inspirei também em Medellín e Cali (Colômbia), Kigali (Ruanda) e Nairóbi (Quênia) para repensar Salvador como polo para o empreendedorismo e inovação.” 

2 – Brasil ainda engatinha na diversidade 

“Em 2016 o conceito de diversidade em toda a cadeia produtiva já era muito desenvolvido nos Estados Unidos. Grandes corporações americanas investem bilhões de dólares em grupos minoritários. Essa também é a realidade em Londres e na África do Sul e me chocava quando visitava as sedes das multinacionais brasileiras e parecia que estava na Suécia, não no Brasil. Além disso, não havia receptividade à ideia de diversificar a cadeia produtiva, os departamentos de P&D ou os investimentos em publicidade e marketing. Nos últimos dois anos, muita coisa mudou. Mas os resultados ainda vão demorar para aparecer.” 

3 – Diferenças entre o Brasil e EUA 

“Os Estados Unidos têm vários problemas sociais e econômicos, mesmo sendo a maior potência econômica do mundo. Mas lá existe um esforço institucional muito grande do poder público, da iniciativa privada, do setor acadêmico e da sociedade civil organizada de impulsionar a inclusão e a mobilidade social na economia”.

“Por exemplo, muita gente não sabe, mas um percentual dos contratos do poder público deve ser destinado a empresas com líderes negros. Isso fez com que Atlanta, que sediou as Olimpíadas em 1996, se tornasse um grande hub de negócios de afrodescendentes nas áreas de engenharia, arquitetura e construção civil”.

“Nos EUA há uma classe média negra muito influente economicamente falando, apesar de o percentual de negros no país ser numericamente menor que no Brasil”.

“Iniciativas como a Associação Nacional de Donos de Hotéis Negros, a Associação Nacional de Fabricantes Negros e Associações de Fundos de Investimento para Negros são impensáveis ainda no Brasil de 2021.” 

4 – ESG: “joio do trigo” 

“É uma onda, um certo modismo no sentido de que todos querem anunciar algo e se posicionar de alguma forma nesse campo. O que, em, si não é um problema. Em breve vamos conseguir separar o joio do trigo, ver realmente quem tem ações consistentes e quem está atrás de uma cortina de fumaça – o chamado diversity washing, em que a empresa está somente preocupada com a imagem, não com a efetividade dos programas”.

“Existem poucas organizações que estão sendo consistentes com sua estratégia. Ou seja, não é só pensar na contratação de pessoas diversas, mas em fomentar a diversidade em toda a cadeia produtiva, nos fornecedores, no orçamento de marketing e publicidade”.

“Nos EUA, empresas como GM e McDonald’s investem bilhões de dólares na mídia negra. Essas são discussões que ainda não chegaram ao Brasil.” 

5 – Impulsionar negócios de lideranças negras 

“O hub da Vale do Dendê fica na maior estação de metrô e ônibus do Norte-Nordeste, em Salvador. Na região, trafegam 500 mil pessoas diariamente”.

“Ministramos treinamentos e organizamos eventos para o empreendedor que quer iniciar seu negócio. Temos um programa de aceleração em que cocriamos com as marcas as soluções, damos mentoria para os empreendedores e também pequenos investimentos semente para que comecem a desenvolver seu negócio”.

“Já aceleramos 120 empresas pelo programa. Nosso programa de economia criativa atua nas áreas da moda, gastronomia, tecnologia e games.” 

6 – Aceleração Vale do Dendê de Tecnologia 

“A Qintess, nossa mantenedora de tecnologia, é uma empresa fundada por Nana Baffour, um ganense que chegou ao Brasil há dez anos. Com ela temos o programa Aceleração Vale do Dendê de Tecnologia, que tem o patrocínio da Google for Startups”. 

“TrazFavela (delivery para áreas periféricas), AfroSaúde (healthtech focada em desenvolver soluções tecnológicas em serviços de saúde para a  comunidade negra) e a Aoca Game Lab são startups que já passaram por este programa”. 

“Com esse trabalho, queremos também impulsionar Salvador como uma cidade da inovação e da criatividade”. 

“É crucial fomentar a inovação no Nordeste, especialmente em áreas com complicações geográficas como o sertão nordestino, cuja tragédia climática poderia ser alvo de inovações na produção agrícola, como Israel e Dubai fizeram.”  

7 – Startups selecionadas em 2021 

“Neste ano, tivemos 70 inscritos no programa de aceleração em tecnologia. Tanto o número de participantes como a qualidade das startups surpreendeu positivamente”.

“Foram onze empresas selecionadas. Destaco algumas como a OrientaMED (healthtec que desenvolveu um sistema de detecção do nível de glicemia por meio do sopro), a AfrontArt (que vende arte afro-brasileira on-line), a Eyby (aplicativo voltado para venda de roupas de sacoleiras), a Minha Cesta (clube de assinaturas de cestas básicas) e a Naomm (startup de saúde mental que foi incubada pela Natura).” 

8 – Escassez de mão-de-obra tecnologia  

“A Qintess tem metas ousadas para o desenvolvimento de talentos, tem uma academia que treina jovens em diversas tecnologias. Quando falamos de mundo acadêmico, temos em Salvador o Senai Cimatec, importante polo de tecnologia local, mas as universidades também precisam ser mais proativas e ampliar o acesso à tecnologia da população das periferias”. 

“A parceria com a Qintess é estratégica para nós, pois o core da empresa é a tecnologia, enquanto a economia criativa é o nosso. Juntos trazemos tecnologia aos negócios criativos. Essa aliança da tecnologia e da criatividade permite um posicionamento bem diferenciado para a cidade de Salvador no ecossistema de inovação.” 

9 – Impactos da pandemia em Salvador 

“A pandemia teve um impacto negativo muito grande nos negócios da região. Nós iniciamos um processo de captação de recursos junto a grandes empresas para fazer doação emergencial para microempreendedores e conseguimos apoiar 800 empreendedores em todo o Brasil, 100 deles na Bahia. Também contribuímos com recursos para compra de mídia digital, apoio material, cesta básica e também terapia de apoio psicológico”. 

“De certa forma, todos tiveram que correr para se digitalizar e entrar no século 21, pois eram estabelecimentos que não tinham nenhuma operação digital até então. Com a retomada do turismo interno, agora no segundo semestre, esperamos que os negócios se recuperem. Mas muitos, infelizmente, não sobreviveram à crise.” 

10 – Planos para o futuro 

“Em 2021, vamos continuar com as doações emergenciais. Lançamos um edital para apoiar 50 empresas com investimentos de R$ 5 mil para cada uma. Também vamos anunciar brevemente outro programa de aceleração com um parceiro estratégico na área de economia criativa”.

“Em 2022, queremos continuar o planejamento de dez anos que traçamos para a Vale do Dendê desde 2016. Vamos ampliar a digitalização dos nossos processos, contando com o apoio da Qintess, para ampliar nossos serviços de mentoria e aceleração para o meio digital. Estamos buscando empresas que queiram fazer investimentos estratégicos com a Vale do Dendê. Queremos trazer os nômades digitais e os influenciadores para Salvador e impulsionar a cidade como um polo da economia criativa empreendedora.” 

Texto: Monica Miglio Pedrosa

Fotos: divulgação