Inteligência artificial

Inteligência artificial

Como os robôs estão mudando o mundo, a forma como amamos, nos relacionamos, trabalhamos e vivemos

Publicado em 12 de junho de 2020

Ideias centrais:

1 -O que finalmente ressuscitou o campo das redes neurais – e desencadeou o renascimento da Inteligência Artificial (IA) – foram as mudanças em duas principais matérias-primas, das quais as redes neurais se alimentam. Elas precisam de duas coisas: poder de computação e dados.

2 – Quando os chineses se confrontaram com seus antepassados do Vale do Silício, usaram a falta de disposição norte-americana para se adaptar e a transformaram em vantagem. Cada divergência entre as preferências do usuário chinês e um produto global se tornou espaço aos concorrentes locais. Qualquer dúvida: falar com a Alibaba.

3 – A invenção do aprendizado profundo significa que estamos passando da era da especialização para a era de dados. O treinamento correto de algoritmos de aprendizado profundo requer poder de computação, talento único e muitos dados.

4 – Depois de muitos exames e tratamentos, Kai-Fu não só conseguiu debelar o câncer, mas também reencontrar a vida familiar, a misericórdia, o amor. A doença, conforme confessa, o ajudou a descobrir os valores humanos para além da máquina onipotente e fria.

5 – Diante do desemprego provocado pela IA, sugere-se a criação de uma bolsa de investimento social. Seria um salário decente do governo dado àqueles que investem em atividades que promovem uma sociedade amável, compassiva e criativa, contemplando três áreas: assistência social, serviço comunitário e educação.

Sobre o autor:

Kai-Fu Lee é CEO da Sinovation Ventures, uma das líderes do mercado de investimentos em tecnologia, incluindo inteligência artificial. Formou-se em computação pela Universidade Carnegie Mellon. Antes de fundar a Sinovation, foi presidente da Google China e executivo da Microsoft e da Apple.

  1. O momento Sputnik da China

Em maio de 2017, Ke Jie estava envolvido na luta contra uma das máquinas mais inteligentes do mundo, o AlphaGo, uma usina de inteligência artificial apoiada pela, pode-se dizer, maior empresa de tecnologia do mundo, o Google. O campo de batalha era um tabuleiro de dezenove por dezenove linhas, cheio de pequenas pedras brancas e pretas – as matérias-primas do enganosamente complexo jogo Go. 

O surpreendente computador AlphaGo não estava para brinquedo. Venceu o campeão Ke Jie, depois de três maratonas de mais de três horas cada. Com o AlphaGo – um produto da startup britânica de IA DeepMind, que foi adquirida pelo Google em 2014 – , o Ocidente parecia pronto para continuar esse domínio na era da inteligência artificial, no rastro de empresas como Facebook e Google. 

O AlphaGo marcou sua primeira vitória de alto nível em março de 2016, durante uma série de cinco jogos contra o lendário jogador coreano LeeSedol, ganhando de quatro a um. O jogo atraiu, além de outros países, 280 milhões de espectadores chineses. Da noite para o dia, a China mergulhou numa febre de inteligência artificial. 

De fato, a China está aumentando o investimento, a pesquisa e o empreendedorismo em IA em uma escala histórica. O AlphaGo foi como um Sputnik para a China.

Subjacente a essa onda de apoio do governo chinês está um novo paradigma na relação entre a inteligência artificial e a economia. Embora a ciência da inteligência artificial tenha feito progressos lentos, mas constantes, durante décadas, apenas recentemente houve aceleração, permitindo que essas conquistas acadêmicas fossem traduzidas em casos de utilidade no mundo real.

O AlphaGo baseia-se em aprendizado profundo, uma abordagem inovadora para a inteligência artificial que turbinou as capacidades cognitivas das máquinas. Programas baseados em aprendizado profundo podem, agora, fazer um trabalho melhor do que os humanos na identificação dos rostos, no reconhecimento de discurso e na concessão de empréstimos.

O campo da inteligência artificial se dividia em dois: a abordagem “baseada em regras” e a abordagem das “redes neurais”. A abordagem das regras ensinava os computadores a pensar codificando uma série de regras lógicas: se X, então Y. 

Isso funcionava para questões simples, não para um universo de escolhas ou movimentos. O campo das redes neurais, no entanto, adotou uma abordagem diferente. Em vez de tentar ensinar ao computador as regras que tinham sido dominadas por um cérebro humano, esses pesquisadores tentaram reconstruir o próprio cérebro humano. Num primeiro momento, prevaleceram as abordagens de regras, ficando as redes neurais em segundo plano.

O que finalmente ressuscitou o campo das redes neurais – e desencadeou o renascimento da IA – foram mudanças em duas das principais matérias-primas, das quais as redes neurais se alimentam, juntamente com um grande avanço técnico. As redes neurais precisam de grandes quantidades de duas coisas: poder de computação e dados. Os dados “treinam” o programa para reconhecer padrões, fornecendo muitos exemplos, e o poder computacional permite que o programa analise esses exemplos em alta velocidade.

As redes em si ainda eram muito limitadas no que podiam fazer. Resultados precisos para problemas complexos exigiam muitas camadas de neurônios artificiais, e os pesquisadores não tinham encontrado uma maneira eficiente de treinar essas camadas, à medida que iam sendo adicionadas. 

O grande avanço técnico de aprendizado profundo finalmente chegou em meados dos anos 2000, quando o importante pesquisador Geoffrey Hinton descobriu um modo de treinar essas novas camadas em redes neurais de forma eficiente.

Logo, essas redes neurais energizadas – agora renomeadas como “aprendizado profundo”– poderiam superar os modelos mais antigos numa variedade de tarefas. O ponto de virada veio em 2012, quando uma rede neural construída pela equipe de Hinton acabou com a competição num concurso internacional de visão computacional.

Pareceria que à China caberia apenas o papel de imitadora atrás da vanguarda. Essa análise baseia-se em suposições ultrapassadas sobre o ambiente tecnológico chinês, bem como num mal-entendido fundamental sobre o que está impulsionando a atual evolução da IA. 

O Ocidente pode ter acendido a chama do aprendizado profundo, mas a China será a maior beneficiária do calor que essa chama está gerando. Essa mudança global é produto de duas transições: da era da descoberta à era da implementação, e da era da especialização à era dos dados.

2. Imitadores no Coliseu

À medida que entramos na era da implementação da IA, esse ambiente empresarial implacável será um dos principais ativos da China na construção de uma economia orientada para o aprendizado da máquina. 

A dramática transformação que o aprendizado profundo promete trazer à economia global não será criada por pesquisadores isolados que produzem novos resultados acadêmicos nos laboratórios de ciência da computação de elite do MIT ou de Stanford. Em vez disso, será criada por empreendedores com os pés no chão e loucos por lucros, em parceria com especialistas em IA, a fim de levar o poder transformador do aprendizado profundo às indústrias do mundo real.

Esse é um ambiente de abundância [Califórnia] que se presta ao pensamento elevado, à visão de soluções técnicas elegantes para problemas abstratos. Acrescente a rica história dos avanços da ciência da computação no Vale do Silício e você tem o cenário para a ideologia híbrida geek-hippie que há muito define o Vale do Silício. 

Central para essa ideologia é um tecno-otimismo espantoso, uma crença de que cada pessoa e empresa pode realmente mudar o mundo por meio do pensamento inovador. 

Copiar ideias ou características de um produto é desaprovado como uma traição ao Zeitgeist e um ato que está fora do código moral de um verdadeiro empreendedor.

Em contrapartida, a cultura da China é o yin do yang do Vale do Silício: em vez de serem motivadas por uma missão, as empresas chinesas estão, em primeiro lugar, voltadas para o mercado. O objetivo final delas é ganhar dinheiro, e estão dispostas a criar qualquer produto, adotar qualquer modelo ou qualquer negócio que realize esse objetivo. 

Essa mentalidade leva a uma incrível flexibilidade nos modelos de negócios e na execução, uma perfeita destilação do modelo “startup enxuto”, muitas vezes elogiado no Vale do Silício.

Combine essas três correntes – uma aceitação cultural da cópia, uma mentalidade de escassez e a vontade de mergulhar em qualquer nova indústria promissora – e você terá os fundamentos psicológicos do ecossistema de internet chinês.

Quando os imitadores chineses se confrontaram com seus antepassados do Vale do Silício, usaram a falta de disposição norte-americana para se adaptar e a transformaram em uma vantagem. 

Cada divergência entre as preferências do usuário chinês e um produto global se tornou um espaço que os concorrentes locais poderiam usar. Eles começaram a adaptar seus produtos e modelos de negócios às necessidades locais, criando uma barreira entre os usuários chineses de internet e o Vale do Silício.

Entre esses novos empreendedores chineses está Jack Ma, criador da empresa de comércio eletrônica Alibaba. Uma gigante que chegou ao patamar das grandes dos EUA, Amazon, Google, Faceboook. Ele fundou sua empresa em 1999, e nos dois anos iniciais de operação, seus principais concorrentes eram outras empresas chinesas locais.  

Mas, em 2002, o e-Bay entrou no mercado chinês. Naquela época, o e-Bay era a maior empresa de comércio eletrônico no mundo. O mercado online do Alibaba foi ridicularizado como outro imitador chinês, mas o e-Bay não teve a astúcia de se adaptar às particularidades do mercado, da cultura chinesa.

Jack Ma foi copiando as principais funções do e-Bay e adaptando o modelo de negócios às realidades chinesas. Ele começou a criar uma plataforma parecida com a de leilões, o Taobao, para competir diretamente com o negócio central do e-Bay. 

A partir daí, a equipe de Ma ajustou sem parar as funções do Taobao e acrescentou recursos para atender às necessidades exclusivas dos chineses. O Taobao também adicionou funções de mensagens instantâneas para permitir que compradores e vendedores se comunicassem na plataforma em tempo real, conforme a índole chinesa de conversar.

Contudo, o amadurecimento do ecossistema empresarial da China vai muito além da competição com os gigantes americanos. Depois que empresas, como Alibaba, Baidu e Tencent provaram como os mercados de internet chineses poderiam ser lucrativos, novas ondas de capital de risco e talentos começaram a entrar no setor. 

As batalhas contra o Vale do Silício podem ter criado alguns Golias da China, mas foi a violenta competição doméstica chinesa que forjou uma geração de empreendedores gladiadores.

3. O universo alternativo da internet na China

Guo Hong é engenheiro e antigo alto funcionário do governo chinês. Ele é protagonista da internet chinesa. Fala Kai-Fu, autor deste livro, e companheiro desse protagonismo: 

“Guo e eu vimos o valor desse sentido etéreo de missão, mas também vimos que a China é diferente. Se quiséssemos alavancar esse processo na China hoje, o dinheiro, o setor imobiliário e o apoio do governo eram importantes. O processo exigiria trabalhar muito, adaptando o ethos de inovação desincorporado do Vale às realidades físicas da China atual. O resultado alavancaria alguns dos principais mecanismos do Vale do Silício, mas levaria a internet a uma direção bem diferente”.

Esse ecossistema estava se tornando independente e autossustentável. 

Os criadores chineses não precisavam adaptar seus lançamentos iniciais ao gosto dos investidores estrangeiros. Agora, eles poderiam construir produtos chineses para resolver problemas chineses. 

Foi uma mudança radical que alterou a própria arquitetura das cidades do país e sinalizou uma nova era no desenvolvimento da internet chinesa. Também levou a um boom imediato na produção e recurso natural da era da IA.

Jogar lenha nessa fogueira significou uma onda sem precedentes de apoio governamental à inovação. A missão de Guo de construir a Avenida dos Empreendedores foi apenas a primeira gota do que em 2014 se transformou em uma onda de políticas oficiais que impulsionou o empreendedorismo tecnológico. 

Sob a bandeira de “Inovação em Massa e Empreendedorismo de Massa”, prefeitos chineses inundaram suas cidades de novas zonas de inovação, incubadoras e fundos de capital de risco apoiados pelo governo, muitos deles baseados no trabalho de Gu com a Avenida dos Empreendedores. Foi uma campanha que os analistas do Ocidente consideraram ineficiente e equivocada, mas que turbinou a evolução do universo alternativo da internet na China.

Como foi argumentado no primeiro capítulo, a invenção do aprendizado profundo significa que estamos passando da era da especialização para a era de dados. 

O treinamento correto de algoritmos de aprendizado profundo requer poder de computação, talento único e muitos dados. Mas desses três, é o volume de dados que será mais importante daqui para a frente. 

Isso porque quando o talento técnico atinge certo limite, ele começa a mostrar retornos decrescentes. Além desse ponto, os dados fazem toda a diferença. Algoritmos ajustados por um engenheiro médio podem superar aqueles construídos pelos maiores especialistas do mundo se o engenheiro médio tiver acesso a muito mais dados.

Diz Kai-Fu: “Deixei o Google China e fundei a Sinovation Ventures alguns meses antes de o Google decidir sair do mercado do país. Esse momento do Google foi uma grande decepção para nossa equipe, considerando os anos de trabalho que dedicamos para tornar a empresa competitiva na China. Mas essa saída foi também uma abertura para as startups locais construírem um novo conjunto de produtos para a nova tendência mais animadora da tecnologia: a internet móvel”.

Dentro desse campo da internet apareceria um grande aplicativo, o WeChat da Tencent, lançado em janeiro de 2011. Os analistas americanos o consideravam como mais uma cópia medíocre de produtos dos EUA. 

O novo aplicativo WeChat, inicialmente criado para smartphones, teve desempenho estupendo. Em pouco mais de um ano, ele havia atingido 100 milhões de usuários registrados. No segundo aniversário, em janeiro de 2013, esse número era de 300 milhões. No caminho, o WeChat havia adicionado chamadas de voz e vídeo, além de teleconferências, funções que parecem tão óbvias hoje, mas que o concorrente global do WeChat, o WhatsApp, esperou até 2016 para incorporar.

4. Um conto de dois países

Como foi exposto anteriormente, a criação de uma superpotência de IA para o século XXI exige quatro blocos de construção principais: dados abundantes, empreendedores tenazes, cientistas de IA bem treinados e um ambiente político favorável. 

Já vimos como o ecossistema de gladiadores das startups chinesas treinou uma geração de empresários sagazes e como o universo alternativo da internet na China criou o ecossistema de dados mais rico do mundo.

À medida que a inteligência artificial se infiltrar na economia mais ampla, recompensará a quantidade de sólidos engenheiros de inteligência artificial sobre a qualidade dos pesquisadores de elite. 

A verdadeira força econômica na era da implementação da IA não virá apenas de um punhado de cientistas de elite que ampliam os horizontes de suas pesquisas. Virá de um exército de engenheiros bem treinados que se juntarão a empreendedores para transformar essas descobertas em empresas revolucionárias.

Mas usar o poder da IA para sustentar a economia como um todo não pode ser feito apenas por empresas privadas – isso exige um ambiente político acomodado e pode ser acelerado pelo apoio direto do governo. 

Só para lembrar, logo após a derrota de Ke-Lie para o AlphaGo, o governo central chinês divulgou um plano abrangente para a liderança chinesa em IA. Como a campanha de “inovação em massa e empreendedorismo em massa’, o plano de IA da China está impulsionando o crescimento através de uma enxurrada de novos financiamentos, incluindo subsídios para startups de IA e generosos contratos governamentais para acelerar a adoção.

A Associação para o Avanço da Inteligência Artificial (AAAI) organizou uma das mais importantes conferências do mundo e realizou uma em 2017, que teve complicações para ser realizada por causa da marcação de datas diante do Ano-Novo chinês.

As contribuições da IA chinesa, na conferência, ocorreram em todos os níveis, variando de ajustes marginais aos modelos existentes à introdução de novas abordagens de alto nível na construção de redes neurais. Um olhar sobre citações nas pesquisas acadêmicas revela a influência crescente dos pesquisadores chineses. 

Um estudo da Sinovation Ventures examinou as citações nos cem principais periódicos e conferências de IA de 2006 a 2015 e descobriu que a percentagem de papers de autores com nomes chineses quase dobrou de 23,2% para 42,8% durante este período.

5. As quatro ondas da IA

Ao treinar seus algoritmos em grandes amostras de dados dos discursos do presidente Trump, a iFlyTek criou um modelo digital quase perfeito de sua voz: entonação, tom e padrão de fala. Em seguida, recalibrou esse modelo vocal para o mandarim, mostrando ao mundo como Donald Trump soaria se tivesse crescido numa vila perto de Pequim. E isso ocorreu numa conferência de Trump em sua visita à China. 

A combinação dos recursos de ponta da iFlyTek em reconhecimento de fala, tradução e síntese produzirá produtos de IA transformadores, incluindo fontes de tradução simultânea que convertem instantaneamente suas palavras e voz para qualquer idioma. 

É o tipo de produto que em breve revolucionará as viagens internacionais, os negócios e a cultura. Tudo isso não acontecerá de uma vez. A revolução completa de IA levará um pouco de tempo e nos inundará em uma série de quatro ondas: IA de internet, IA de negócios, IA de percepção e IA autônoma.

As duas principais ondas – IA de internet e IA dos negócios – já estão ao nosso redor, remodelando nossos mundos digital e financeiro de maneira que mal conseguimos registrar. Estão intensificando o controle das empresas de internet em relação a nosso serviço, substituindo consultores por algoritmos, negociando ações e diagnosticando doenças. 

A IA de percepção está agora digitalizando nosso mundo físico, aprendendo a reconhecer nossos rostos, entender nossos pedidos e “ver” o mundo ao nosso redor. Essa onda promete revolucionar a forma como vivenciamos e interagimos com o nosso mundo, atenuando as linhas entre o digital e o físico. 

A IA autônoma virá por último, mas terá um impacto mais profundo em nossa vida. À medida que carros autônomos tomem as ruas, drones autônomos tomem os céus e robôs inteligente tomem as fábricas, eles vão transformar tudo, da agricultura orgânica a viagens por autoestradas e o fast-food. 

Todas essas quatro ondas se alimentam de diferentes tipos de dados, e cada uma delas apresenta uma oportunidade única para que os Estados Unidos ou a China assumam a liderança. Veremos que a China está numa posição forte para liderar ou coliderar na IA da internet e na IA da percepção e provavelmente em breve alcançará os Estados Unidos na IA autônoma. 

Hoje, a IA de negócios continua sendo a única arena, na qual os Estados Unidos mantêm uma liderança clara.

6. Utopia, distopia e a verdadeira crise da IA

Alguns preveem que, com o surgimento da inteligência geral artificial (AGI), as máquinas que poderão melhorar a si mesmas desencadearão um crescimento descontrolado na inteligência dos computadores. 

Muitas vezes chamada de “a singularidade”, ou superintendência artificial, esse futuro envolve computadores cuja capacidade de entender e manipular o mundo supere a nossa, comparável à diferença de inteligência entre seres humanos e, digamos, insetos. Essas previsões estonteantes dividiram grande parte da comunidade intelectual em dois campos: os utópicos e os distópicos.

Os utópicos veem a aurora da IA e a singularidade subsequente como a fronteira final do desenvolvimento humano, uma oportunidade para expandir nossa própria consciência e conquistar a imortalidade. 

Ray Kurzweil – o excêntrico inventor, futurista e guru-presidente do Google – prevê um futuro radical, no qual os seres humanos e as máquinas se fundirão totalmente. Vamos subir para a nuvem, ele prevê, e constantemente renovar nossos corpos através de nanorrobôs inteligentes lançados em nossa corrente sanguínea. Kurzweil prevê que até 2029 teremos computadores com inteligência comparável à dos humanos (isto é, AGI), e que alcançaremos a singularidade até 2045.

Na maior parte, os membros do campo distópico não estão preocupados com um domínio da IA, como imaginado em filmes como a série Terminator, com robôs semelhantes a humanos “se transformando em perversos” e laçando pessoas para destruir a humanidade e alcançar o poder. 

A superinteligência seria o produto de criação humana, não da evolução natural e, portanto, não teria os mesmos instintos de sobrevivência, reprodução ou dominação que dominam os humanos ou os animais. Em vez disso, é provável que apenas procurasse atingir os objetivos dados, da maneira mais eficiente possível. 

As divergências entre os dois campos são grandes e tempestuosas. Diz nosso autor, Kai-Fu Lee:

“É um assunto que preocupa profundamente muitos economistas, tecnólogos e futuristas, inclusive eu. Acredito que, à medida que as quatro ondas da IA se espalharem pela economia global, terão o potencial de abrir cada vez mais as divisões econômicas entre os que têm e os que não têm, levando ao desemprego tecnológico generalizado”. 

Além das perdas diretas de empregos, a inteligência artificial exacerbará a desigualdade econômica global. Ao dar aos robôs o poder da visão e a capacidade de se mover de forma autônoma, a IA revolucionará a manufatura, fazendo com que as fábricas do Terceiro Mundo sejam abastecidas com exércitos de trabalhadores com baixos salários fora dos negócios. 

Ao fazer isso, cortará os degraus inferiores na escada do desenvolvimento econômico. Vai privar os países pobres da oportunidade de iniciar o crescimento econômico por meio de exportações de baixo custo, a única rota comprovada que tirou da pobreza países, como Coreia do Sul, China e Cingapura.

Privados da chance de sair da pobreza, vão estagnar, enquanto as superpotências da IA decolarão. Essa crescente divisão econômica pode forçar os países pobres a um estado de dependência e subserviência quase total. 

Seus governos podem tentar negociar com a superpotência que fornece sua tecnologia, mercado comercial e acesso a dados para garantir a ajuda econômica para sua população. Seja qual for a barganha, não será baseada na influência ou na igualdade entre as nações.

7. A sabedoria do câncer

Peço uma licença para pôr em realce uma particularidade de Kai-Fu, uma das maiores autoridades em IA a nível mundial. Kai-Fu foi acometido de uma temida doença: o câncer.

Depois de muitos exames e tratamentos, ele, que tão bem conhecia a máquina da IA, não só conseguiu debelar o câncer, mas também reencontrar a vida familiar, os amigos, a aldeia natal. Esse tempo de convalescença fez o mago da IA conhecer valores humanos, como a misericórdia, o amor, a solidariedade. 

Ou seja, a doença o ajudou a descobrir o antídoto à máquina onipotente e fria. Descobriu, como ele mesmo confessa, o amor. Nele, acharia o fio condutor, a chave que leva ao aproveitamento de todas as potencialidades da IA e ao debelamento de seus excessos e ameaças. De qualquer forma, ele lança luz sobre os últimos capítulos.

Diz Kai-Fu: 

“Meu câncer entraria em remissão, poupando minha vida, mas as epifanias por esse confronto pessoal com a morte permaneceriam comigo. Elas me levaram a reorganizar minhas prioridades e a mudar totalmente a minha vida. Passo muito mais tempo com a minha esposa e minhas filhas e me mudei para ficar mais perto de minha mãe idosa. Reduzi drasticamente minha presença nas redes sociais, dedicando esse tempo a encontrar e tentar ajudar os jovens que me procuram”. 

Kai-Fu continua: 

“Mas a verdade é que não existe algoritmo que possa substituir o papel da minha família no meu processo de cura. O que ela compartilha comigo é muito mais simples – e ainda muito mais profundo – do que qualquer coisa que a IA venha a produzir”.

Para todas as capacidades surpreendentes da IA, a única coisa que apenas humanos podem fornecer acaba sendo exatamente o que é mais necessário em nossas vidas: o amor. 

É aquele momento em que vemos nossos filhos recém-nascidos, o sentimento de amor à primeira vista, o sentimento afetivo de amigos que nos ouvem com empatia ou o sentimento de autorrealização quando ajudamos alguém que precisa. 

Estamos longe de entender o coração humano, muito menos copiá-lo. Mas sabemos que os humanos são os únicos capazes de amar e ser amados, que os humanos querem amar e ser amados, e que amar e ser amado é o que faz nossa vida valer a pena. 

Esta é a síntese, afirma Kai-Fu, sobre a qual devemos construir nosso futuro compartilhado: a capacidade da IA de pensar, mas aliada à capacidade de amar dos seres humanos. Se pudermos criar essa sinergia, ela nos permitirá aproveitar o inegável poder de inteligência artificial para gerar prosperidade e, ao mesmo tempo, abraçar nossa humanidade essencial.

8. Um projeto para a coexistência entre os humanos e a IA

Um amigo de Kai-Fu o procurou porque queria fazer alguma invenção, algum aplicativo que ajudasse os idosos. Já tinha erguido várias startups, queria agora fazer um dispositivo mais humanitário. 

O que ele inventou foi uma grande tela sensível ao toque montada em um suporte que poderia ser instalada ao lado da cama de uma pessoa idosa. Na tela, havia alguns aplicativos simples e práticos conectados a serviços que os idosos poderiam usar: pedir comida, passar suas novelas favoritas na TV, ligar para o médico e muito mais.

Todos os aplicativos exigiam apenas alguns cliques, e ele até incluiu um botão que permitia que os usuários ligassem diretamente para um agente de atendimento ao cliente para orientá-lo no uso do dispositivo. 

De todas as funções disponíveis no aparelho, a que, de longe, foi mais usada não foi a entrega de comida, os controles da TV ou as consultas médicas. Foi o botão de atendimento ao cliente. Os representantes do atendimento ficaram sobrecarregados. O que estava acontecendo? Perguntava o amigo de Kai-Fu. As pessoas não estavam ligando porque não conseguiam navegar. Estavam ligando simplesmente porque se sentiam sozinhas e queriam alguém para conversar.

Com todos aos avanços no aprendizado das máquinas, a verdade é que ainda estamos longe de criar dispositivos de IA que sintam qualquer emoção. Consegue imaginar a alegria de vencer um campeão mundial no jogo em que você dedicou a sua vida para dominar?. 

O AlphaCo fez exatamente isso, mas não sentiu nenhum prazer em seu sucesso, não sentiu a felicidade de vencer e não desejou abraçar um ente querido após sua vitória. No fundo, o que se quer expressar aqui são as limitações da máquina. Apesar de seu poder, não consegue satisfazer objetivos mais propriamente humanos.

À medida que a IA conquistar novas profissões, os trabalhadores serão forçados a mudar de ocupação a cada poucos anos, tentando adquirir depressa habilidades que os outros levaram uma vida inteira para conseguir. 

A incerteza sobre o ritmo e o caminho da automatização torna as coisas ainda mais difíceis. Mesmo os especialistas em IA têm dificuldades em prever exatamente em quais trabalhos serão submetidos à automatização nos próximos anos. 

Algumas abordagens criativas para o compartilhamento de trabalho já foram implementados. Após a crise financeira de 2008, vários estados norte-americanos implementaram acordos de compartilhamento de trabalho para evitar demissões em massa em empresas, cujos negócios de repente secaram. 

Em vez de demitir uma parte dos trabalhadores, as empresas reduziram as horas de vários trabalhadores entre 20% e 40%. O governo local compensou então esses trabalhadores com certa porcentagem de seus salários perdidos, geralmente 50%.

Embora essa abordagem funcione bem para crises de curto prazo, pode perder a força diante da persistente e ininterrupta dizimação de empregos realizados pela IA. Os programas existentes de compartilhamento de trabalho complementam apenas parte dos salários perdidos, o que significa que os trabalhadores ainda têm um declínio líquido de renda.

Atualmente, o mais popular dos métodos de redistribuição é a renda básica universal (RBU). No fundo, a ideia é simples: todos os cidadãos (ou todos os adultos) de um país recebem uma remuneração regular do governo – sem condições. 

Uma RBU diferiria dos benefícios tradicionais de assistência social ao desemprego, já que seria dada a todos e não estaria sujeita a limites de tempo, exigências de procura de emprego ou quaisquer restrições em como poderia ser gasta. 

Uma proposta alternativa, muitas vezes chamada de renda mínima garantida (RMG), defende que o salário seja pago somente aos pobres, transformando-o em um “piso de renda”, abaixo do qual ninguém poderia cair, mas sem a universalização da RBU.

O vislumbre de desemprego em massa fez muitos autores e altos empresários analisar seu impacto e forjar possíveis soluções. É o caso de Larry Fink. Quando um homem que supervisiona 5,7 trilhões de dólares fala, a comunidade empresarial global escuta. 

Então, quando o fundador da Black-Rock, Larry Fink, diretor da maior empresa de gerenciamento de ativos do mundo, postou uma carta para os CEOS exigindo maior atenção ao impacto social, ele enviou ondas de choque às corporações ao redor do mundo. Na carta intitulada “Um sentido de propósito”, Fink escreveu:

“Vemos muitos governos que não se preparam para o futuro, em questões que vão de aposentadorias e infraestrutura até automatização e treinamento de trabalhadores… A sociedade está exigindo que as empresas, públicas e privadas, tenham um propósito social… As empresas devem beneficiar todas as partes interessadas, incluindo acionistas, funcionários, clientes e as comunidades em que operam”.

A carta de Fink foi publicada antes do Fórum Econômico Mundial de 2018, reunião anual da elite financeira global realizada em Davos, Suíça. Esta severa advertência de Fink foi amplamente discutida durante o fórum. 

Muitos demonstraram publicamente simpatia pela mensagem de Fink, mas declaravam, em privado, que sua ênfase no bem-estar mais amplo seria uma anátema para a lógica da iniciativa privada.

Fink fez várias referências à automatização e à reciclagem profissional em sua carta. Ele vê que lidar com as demissões causadas pela IA não é algo que pode ser deixado inteiramente à mercê dos mercados livres. Na era da IA, precisaremos aumentar seriamente nosso compromisso com essas atividades, ampliando a sua definição. 

Embora elas tenham focado anteriormente em questões filantrópicas de bem-estar, como proteção ambiental e alívio à pobreza, o impacto social na era da IA também deve assumir nova dimensão: a criação de um grande número de empregos de serviço para trabalhadores demitidos.

Kai-Fu sugere a criação de uma bolsa de investimento social. Essa bolsa seria um salário decente do governo dado àqueles que investem tempo e energia naquelas atividades que promovem uma sociedade amável, compassiva e criativa. 

Estas incluiriam três grandes categorias: trabalho de assistência, serviço comunitário e educação.

9. Nossa história global com a IA

Ao tratar do desenvolvimento global da inteligência artificial, é fácil cair em metáforas militares e em uma mentalidade de soma zero. Muitos comparam a “corrida de IA” de hoje com a corrida espacial dos anos 1960 ou, pior ainda, à corrida armamentista da Guerra Fria que criou armas cada vez mais poderosas de destruição em massa. 

Se não formos cuidadosos, essa retórica em torno da “corrida de IA” nos enfraquecerá no planejamento e na modelagem de nosso futuro com a IA. Uma corrida tem apenas um vencedor: a vitória da China é a derrota dos Estados Unidos e vice-versa. 

Não existe a noção de progresso compartilhado ou prosperidade mútua – apenas um desejo de ficar à frente de outro país, independentemente dos custos. Nesse sentido, nosso atual boom de IA tem muito mais a ver com o surgimento da Revolução Industrial ou com a invenção da eletricidade do que com a corrida armamentista da Guerra Fria. 

Sim, empresas chinesas e norte-americanas competirão entre si para aproveitar melhor essa tecnologia e conseguir ganhos de produtividade.

Uma visão clara do impacto de longo prazo da tecnologia revelou uma verdade preocupante: nos próximas décadas, o maior potencial da IA para romper e destruir não reside nas disputas militares internacionais, mas naquilo que fará com nossos mercados de trabalho e sistemas sociais. 

Se a IA nos permitir, em algum momento, realmente nos compreender, não será porque esses algoritmos capturaram a essência mecânica da mente humana. Será porque nos libertaram para esquecer as otimizações e, em vez disso, focar no que de fato nos torna humanos: amar e ser amado.

Conclusão: alcançar esse ponto exigirá trabalho duro e escolhas conscientes de todos. Felizmente, como seres humanos temos o livre-arbítrio para escolher nossos próprios objetivos, algo que a IA ainda não possui. 

Podemos escolher nos unir, trabalhando além dos limites das classes e das fronteiras nacionais para escrever nosso próprio final para a história da IA.

Resenha: Rogério H. Jönck

Imagens: Unsplash

Ficha técnica:



Título: Inteligência Artificial

Título original: AI Superpowers: China, Silicon Valley and the New World Order

Autor: Kai-Fu Lee

Primeira edição: Globolivros (2019)

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