Moeda Semente usa token para financiar microcrédito

Fintech vencedora do Mastercard Start Path 2021, com 20 projetos de impacto apoiados no Brasil, prepara expansão internacional para 2022

Publicado em 4 de agosto de 2021

Aos doze anos ela começou a aprender linguagens de programação de forma autodidata. Aos 16, a mineira Thynaah Reis fundou sua primeira empresa, a Global Digital Impact, que já tinha como missão usar tecnologias como busines inteligence (BI) e Big Data para causar impactos sociais e ambientais. A conexão com as necessidades dos produtores rurais veio do pai, que foi um dos criadores do Pronaf, programa de financiamento a agricultores do Ministério da Agricultura. 

Toda essa trajetória culminou na criação da Moeda Semente, em 2017, em um Hackaton promovido pela executiva quando era consultora das Nações Unidas em Nova York. “Quando fui pagar o cheque do prêmio aos vencedores, eles me devolveram a quantia e me convidaram a criar a Moeda”, conta Thaynaah sobre seus sócios, o sul-coreano Brad Chun e a chinesa Isa Yu, radicada nos Estados Unidos. 

De lá para cá, a empresa criou uma aceleradora, um marketplace para comercializar os produtos de seus mais de 20 Projetos Sementes e lançou a conta digital MoedaPay. Este ano, venceu outras 1.500 startups e foi a única brasileira selecionada pelo programa de aceleração Mastercard Start Path. 

A fintech utiliza blockchain e criptomoeda para facilitar o acesso a financiamento a empreendedores de comunidades rurais ou da periferia das grandes cidades, preferencialmente liderados por mulheres. 

Os projetos são selecionados a dedo, levando em consideração não só o impacto que causam na comunidade, mas também a possibilidade de serem replicáveis. A expansão desse modelo para a América Latina começa no próximo ano e, em 2023, a Moeda pretende chegar à África e à Índia. 

“Trabalho pelos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Acredito que em um futuro próximo, assim como é natural falar de CDB e CDI, teremos os ativos humanizados e os investimentos de impacto à disposição em nossa carteira”, prevê Taynaah.

Veja os principais pontos da entrevista:

 

1 – Missão familiar 

“Aos doze anos comecei a aprender de forma autodidata linguagens de programação. Sempre acompanhei meus pais em projetos sociais, portanto comecei a pensar em como poderia aplicar a tecnologia para exponenciar o que era a missão da minha família”. 

“Meu pai trabalhou com o Pronaf, dentro do Ministério da Agricultura, um dos maiores programas de crédito para agricultura familiar no país. É um programa inovador, mas muito burocrático. Mulheres líderes de cooperativas e pequenos negócios nas áreas rurais tinham muitos desafios para apresentar os certificados necessários para o crédito, em um processo que leva entre seis a oito meses”.

“Quando comecei a investir em bitcoin, me apaixonei pela tecnologia e vi que era possível ter acesso a capital estrangeiro de forma certificada, dar transparência, ser democrático e acessível, ao investir em projetos com impacto.”  

 2 – Empreendedora precoce 

“Aos 16 anos fundei minha primeira empresa de tecnologia, a Global Digital Impact. Comecei a fazer sistemas para o governo, trabalhei em um mapeamento de todas as hidrelétricas e barragens do Nordeste do país para o Ministério da Integração”.

“Depois fui para fora do país, trabalhei como consultora para as Nações Unidas em Nova York, fui para a Suécia, Singapura. Me especializei em segurança de dados e criptografia, o que me abriu muitas portas”.

“Trabalhei com governos e iniciativa privada e tive encontros com mentores que me deram um suporte incrível. Até meu conhecimento em games pude utilizar para aplicar estratégias de gamificação e engajamento na Moeda.”  

3 – Encontro com os sócios em Hackaton 

“Quando trabalhava para as Nações Unidas promovi e coordenei um Hackaton com o tema de Blockchain, em 2017. A ideia era desenvolver soluções de uso da tecnologia respeitando os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU”.

“Quando fui premiar os vencedores com um cheque de mil dólares, eles devolveram o prêmio e me convidaram a começar a empresa com eles. Nascia aí a Moeda”.

“Isa Yu mora no Texas, é matemática e sabe tudo sobre trading. Por ser chinesa, ela cuida das relações com investidores”.

“Temos jovens investidores chineses na Moeda, nossa primeira captação foi feita por meio de ICO”.

“O terceiro sócio, Brad Chun, é sul-coreano e trabalhou no mercado financeiro. É investidor em diversas empresas de blockchain”.

“Sou muito grata por tê-los comigo na Moeda.” 

4 – Economia da abundância 

“Sempre busquei investimentos, até como pessoa física, que pudessem ser revertidos para projetos com impacto social e ambiental. A Moeda é a primeira fintech brasileira a ter foco em impacto”.

“Temos capilaridade de acesso, estamos em comunidades indígenas, quilombolas, área rural, atendemos cooperativas”.

“Nossa equipe de projetos vai além do bancário, promove assistência técnica e apoio ao negócio. O time comercial ajuda a vender os produtos em nosso marketplace”.

“Por sermos pioneiros e inovadores enfrentamos muito desafios, mas lidamos com muita garra, força e coragem.” 

5 – Internacionalização com Mastercard 

“A Moeda foi a única startup a trabalhar com blockchain e criptomoeda a ser selecionada pelo programa Start Path da Mastercard. É uma grande honra. Com um parceiro como eles vamos fazer em dois anos o que levaríamos dez”.

“Ter a chancela deles abre a porta para outros mercados e outros países. A Mastercard tem 230 milhões de usuários que podem começar a se relacionar com a Moeda”.

“Também vamos iniciar nossa expansão para a América Latina, no próximo ano, e para a África e Índia, em 2023.” 

6 – Modelos replicáveis 

“O foco inicial da Moeda é o Brasil devido à minha experiência e às relações que tenho com governo e iniciativa privada. São mais de 20 projetos no portifólio e outros 200 já qualificados para serem apoiados”.

“Nós selecionamos propostas que possam ter seus modelos replicáveis. O Projeto Semente Café Sustentável, que atende quatro dos Objetivos de Desenvolvimento da ONU, beneficiou mulheres produtoras de café no sul de Minas Gerais. Ele pode ser aplicado no Quênia, Tanzânia e Cambodja”.

“O Projeto Semente Artesaniaas, que apoia artesãs do Ceará para que organizem suas produções, conheçam práticas sustentáveis e conquistem novos mercados internacionalmente, pode ser aplicado na Colômbia, no México e na Índia”.

“Com o aprendizado local, conseguimos contribuir com outros países que têm as mesmas dores e desafios.” 

7 – Prioridade às lideranças femininas 

“Damos prioridade para as mulheres líderes de projetos. O símbolo da Moeda é uma junção do feminino à igualdade”.

“Em Belém, apoiamos uma cacique em uma aldeia indígena ajundo a comercializar digitalmente os itens de artesanato que produzem. Levamos Internet para a aldeia, capacitamos a comunidade a usar o aplicativo para expor sua produção”.

“No Ceará, os agricultores vendem sua safra para os supermercados, mas só são pagos de 60 a 90 dias depois. Lançamos a antecipação de recebíveis para eles, que foi essencial especialmente na época de pandemia e de crise”.

“Além da liderança feminina, nossos Projetos Semente também devem ser multiplicadores e impactar a comunidade.”

8 – Empreendedora mulher 

“É um grande desafio ser mulher empreendedora, principalmente em nosso país. Soma-se a isso o fato de eu ser jovem, de empreender na área de tecnologia e com uma fintech. Finanças e tecnologia são mundos dominados ainda pelos homens”.

“No exterior, passei também por situações de preconceito por ser mulher brasileira. Enfrentamos muitas barreiras devido ao machismo estrutural da nossa cultura”.

“Em algumas conversas que meu sócio participava comigo, o interlocutor normalmente começava a se direcionar para ele, até que Brad dizia que quem decidia era eu”.

“Às vezes, enfrentamos assédio e temos que fingir que não ouvimos. O importante é ter coragem e procurar sempre o apoio de pessoas e empresas que tenham os mesmos valores e princípios, para não perpetuar esses preconceitos estruturais.” 

9 – Visão de futuro 

“Vamos agora compartilhar nossa tecnologia e licenciá-la para outras moedas e empresas que querem trazer a transparência e as métricas para suas soluções, além de promover impacto social e ambiental”.

“Estamos também buscando investidores com valores alinhados aos nossos para crescer serviços como crédito para compra de equipamentos para a área rural e antecipação de recebíveis”. 

“Acabamos de lançar um NFT (non-fungible token, tecnologia que permite adquirir e validar propriedade de arquivos digitais) para uma floresta de açaí da Amazônia”.

“Acredito em uma economia de abundância e compartilhamento. Em um futuro próximo, os ativos humanizados na carteira dos investidores vão ser tão naturais quanto o CDB, CDI e outros fundos tradicionais.” 

Texto: Monica Miglio Pedrosa

Imagens: reprodução e Unsplash