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Nove saídas para “desinvestir” em startups

É consenso no mercado que boa parte da solução para os problemas corporativos virá do uso inovador de novas tecnologias e modelos de negócio. Isso significa que investimentos em startups são uma boa alternativa para quem tem apetite por risco e dinheiro em caixa. As incertezas são inerentes ao negócio e demandam cautela, o que pode sugerir ajustes de portfólio com certe frequência. “Quando você tem uma startup no seu portfólio, você precisa acompanhá-la o tempo todo. Não é só botar o dinheiro e deixar ela crescer ou morrer”, afirma João Kepler, fundador da Bossa Nova Investimentos, gestora de capital de risco com um histórico de 615 investimentos.

O Experience Club conversou com Kepler, um dos mais experientes gestores do venture capital brasileiro, para saber como ele administra investimentos de risco, como se posiciona em um cenário econômico adverso, como o atual e, em casos extremos, quando acha que vale a pena abandonar o barco e desinvestir em uma startup.

Confira 9 insights extraídos da entrevista com João Kepler [Assista ao vídeo e mergulhe no assunto]:

1.ACOMPANHE DE PERTO

Quando o investidor tem uma startup no portfólio, precisa acompanhá-la o tempo todo. O investimento deve ser feito com base em uma planilha de projeções de resultados futuros para que o investidor possa acompanhar o desempenho da startup mensalmente, ou pelo menos uma vez por semestre. Assim, é possível saber se ela está ou não atingindo algumas métricas consideradas importantes. Sejam elas métricas para um tipo de negócio ou para um segmento de serviço específico que a empresa está prestando. O CAC (custo de aquisição de clientes) e o churning (cancelamento de clientes) são exemplos de indicadores que permitem ao investidor ter noção do momento de colocar mais dinheiro para que a startup cresça mais rápido, ou apertar o botão de eject e sair do negócio.

2.PREPARESE- PARA AJUSTAR A ROTA

O investimento em startups é feito com base em fundamentos. Se os fundamentos se mantiverem os mesmos, não é a Covid-19, ou outra situação momentânea, que deve orientar uma decisão de desinvestimento. O que pode acontecer, contudo, é o segmento de atuação da startup deixar de existir. Ou o segmento mudar completamente. E não a startup, ou o modelo operacional dela, ou empreendedores mudarem. Se o segmento dela for o de turismo, por exemplo, que vai ficar bem complexo, talvez seja possível reestruturar as projeções da empresa. Se o segmento zerar, como o de eventos, por exemplo, a empresa pode mudar de segmento ou pivotar para continuar viva e operacional, fazendo, por exemplo, streaming, eventos online ou algo similar.

3.CRISE? MUITA CALMA NESSA HORA

Apertar o botão de eject somente em último caso. Essa medida só deve se tomada quando efetivamente a empresa desviou recurso, ou está em um segmento que não tem mais jeito, ou vive de um serviço que não é mais útil e não consegue pivotar. É muito difícil abandonar uma startup por conta de uma situação momentânea. É preciso olhar a curva no médio e no longo prazos. O investimento em startups é feito para durar dez anos. Então, não dá para o investidor, por conta de seis meses, oito meses, tomar uma decisão dessa. A não ser que o segmento da startup esteja completamente acabado.

4.SEJA RESILIENTE

O que o investidor tem que fazer é perceber se a startup está se adaptando, se está pivotando, readequando o seu planejamento. Se está baixando as expectativas, reestruturando, diminuindo custos, voltando ao break-even (equilíbrio financeiro) para passar a pandemia e, aí sim, voltar ao crescimento que foi planejado lá atrás. Porque, se houver a chance de alocar um pouco mais de recursos, com segurança, para que ela consiga alcançar o equilíbrio financeiro, ou crescer, ou não morrer, pode valer a pena colocar recursos. Principalmente se os números estiverem mostrando que foi uma situação não ocasionada pelo esforço do empreendedor. Ganhando obviamente um pouco mais de equity (capital) da startup e tendo um pouco mais de segurança de que o negócio, lá na frente, ela vai continuar, vai sobreviver e vai crescer. (04:27)

5.OFEREÇA UM OMBRO AMIGO

Quando o investidor percebe que o empreendedor não está conseguindo se adaptar, que o negócio está indo muito mal, que o empreendedor está começando a criar dívidas, e a gerar problemas, é preciso chamá-lo, oferecer mentoria, apoiar, ver se há outras saídas que não estão sendo consideradas. O empreendedor geralmente nos procura. E também, como monitoramos mês a mês as startups, se a receita estiver 10% abaixo do planejado no orçamento, ou antes do investimento, chamamos o empreendedor para conversar. A gente não deixa chegar num extremo. Às vezes, também, a gente faz incertas de auditoria, para acompanhar se aqueles números são realmente reais, que estão acontecendo. A gente sempre tenta ajudar. A não ser que seja um caso de desvio de dinheiro. Se não for má fé, a gente acompanha, ajuda, e tenta segurar e recuperar até o fim.

6.TENHA PONTOS DE FUGA

O investimento em startups é feito em fases. Começa com a aceleração, depois vem o investimento anjo, o pré-seed, o seed, a série A e as séries B, C, D, até o IPO. Quando é feito um acordo, o investimento é para doze, 15 meses, ou 18 meses. É o suficiente para chegar na próxima rodada, quando são definidos o próximo valuation, e o ganho de capital, se for saída do investimento. Se não for saída, aumenta o IRR (taxa interna de retorno, na sigla em inglês) do investidor, ou o valor investido é multiplicado, sem realizar. Ou ainda, a startup recebe no meio do caminho uma proposta de aquisição de uma grande empresa. Na aquisição de 100%, o valor investido geralmente é multiplicado por duas, três, cinco vezes, dependendo da negociação que está na mesa. E o investidor decide se sai ou não. Se nada acontecer em dez anos, o investidor passa a ser sócio da empresa. Entra no contrato social, se assim for interessante. Se não for, pega o espólio e acaba a empresa.

7.SE FOR PRECISO, APERTE O BOTÃO EJECT

Se o empreendedor estiver muito cético, ou se houver a percepção de que o negócio realmente está ruim, o investidor pode chegar a um acordo para abandonar ou desistir da operação. Aí, simplesmente aperta-se o botão de eject e faz-se o write off daquele negócio. O eject, o write off, é a desistência do negócio. O investidor profissional fica no prejuízo. Não recebe o dinheiro de volta, perde o que foi investido. Vende aquele contrato por um real, por exemplo. Então, para o investidor desistir, somente se tiver a obrigação, por exemplo, de ficar colocando dinheiro o tempo todo para a empresa continuar viva. Neste sentido, eu apertaria o botão eject.

8.JUÍZO SEM PREJUÍZO: SIGA O LÍDER

Eu aconselho todo investidor pessoa física que quer sair de um negócio a tentar vender sua participação quando a empresa não está morrendo. Porque quando ela está morrendo, é depreciar muito o seu ativo. Até porque, só pode investir em startup quem tem certeza de que é um negócio que pode morrer. O risco é altíssimo. Por isso,. são três as dicas fundamentais. A primeira: só invista naquilo que você conhece. Num segmento que você domina, porque aí você pode ajudar um pouco mais com smart money, que é o dinheiro e o seu conhecimento, suas conexões. A segunda é seguir o líder. Acompanhe uma pessoa que já investiu em startups e foi bem sucedida. Invista junto com essa pessoa. Quer correr menos riscos? Opte por grupos de investidores, em fundos, onde você aloca seus recursos, acompanha como
investidor, participa dos relatórios e da mentoria também, se coloca à disposição para dar mentoria também para aquele grupo de startups. Ou seja, no fundo, você investe em um conjunto de startups, não só em uma.

9.EXPERIÊNCIA PRÓPRIA: NEGÓCIOS VÃO DAR ERRADO

A Bossa Nova tem quatro anos. No período, fez 615 investimentos, 15 saídas e 42 right offs. Em 42 vezes, nós efetivamente perdemos o investimento. O que é pouco, menos de 7% se você for comparar com o número de investimentos que a gente já fez. Acontece de o empreendedor abandonar o projeto, de o empreendedor não querer mais, de o negócio estar em um segmento que acabou, de um concorrente deixá-lo sem mercado. Há muitas situações que impedem uma empresa de dar certo. Existe essa questão da briga societária. Desses 42 negócios que nós perdemos, acho que uns dez foram por problemas entre sócios.

 

Texto: Dubes Sônego

Imagens: Reprodução

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