Ouse: fazer o bem, se divertir, ganhar dinheiro

Ouse: fazer o bem, se divertir, ganhar dinheiro

Como revolucionar seu negócio e ainda melhorar o mundo, por Sir Richard Branson

Publicado em 4 de março de 2020

Ideias centrais:

1- A mensagem é simples: a forma convencional de fazer negócio não está funcionando. Aliás, é justamente o “velho jeito de fazer negócios” que está arrasando o planeta. Os recursos estão se esgotando e os pobres estão ficando mais pobres.

2- Não podemos continuar colocando esparadrapo nos problemas, e esperar que eles desapareçam. Precisamos criar oportunidades para que as pessoas possam construir a vida que elas merecem.

3- Enquanto a era industrial era sinônimo de riqueza, a nova era, a era das pessoas, subentende uma mudança de foco, cujo alvo é a maneira como as empresas podem e devem oferecer benefícios às pessoas e ao planeta – bem como aos acionistas.

4- As mudanças não acontecem pela ação de um único indivíduo, mas por meio das comunidades. Nunca houve momento mais oportuno para as comunidades promoverem mudanças do que agora em nossa aldeia global conectada.

5- Falar em responsabilidade social corporativa era uma estratégia de marketing. Agora, temos a impressão de que a questão está partindo de pessoas comuns, pelo fato de que todos que atuam no mundo dos negócios também são cidadãos.

Sobre o autor:

Richard Branson é um megaempresário britânico, com destaque no setor de aviação através do Virgin Group. É considerado um modelo ideal de gestor e de líder empresarial do século 21, priorizando as pessoas e o meio ambiente.

Em novembro de 2019, Branson esteve no Brasil e foi destaque do Jantar do Ano realizado pelo Experience Club no WTC Golden Hall, em parceria com a Virgin Atlantic, por ocasião do lançamento da operação da companhia na América do Sul, a partir do Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo (as fotos que ilustram essa resenha foram tiradas durante o evento). Leia a cobertura completa aqui.

Livros de Branson: Like a Virgin: os segredos do empresário mais excêntrico do mundo e Business stripped bare: adventures of a global entrepeneur, entre outros.

Apresentação

Richard Bronson, conhecido ás da aviação como proprietário da Virgin Airlines, Virgin Galactic e Virgin Atlantic, entre outras empresas, apresenta sua obra: “Sempre fui fascinado pelo nosso planeta e por cada extraordinária e bela criatura que o habita e nele se desenvolve. Recentemente, tive aventuras com tubarões-baleia no litoral de Cancun, lêmures ameaçadas de extinção nas profundezas da selva de Madagascar e magníficos rinocerontes em Ulusaba, nossa reserva de caça no Parque Nacional Kruger. Infelizmente, cada uma dessas espécies e seus hábitats estão sendo ameaçados pela degradação dos nossos ecossistemas. Na verdade, todos os nossos grandes ecossistemas estão em declínio. Esse caminho começou com a era industrial e continuou, à medida que passamos a construir as nossas riquezas às custas de nossos belos recursos naturais”.

“Antes de começarmos, gostaria de deixar claro o que quero dizer com este livro. Primeiro, isso requer uma mudança de foco restrito nos ganhos financeiros de curto prazo para um entendimento mais amplo do que significa lucrar. Estou falando da criação de valor para acionistas, funcionários, clientes, o meio ambiente e todos aqueles afetados por determinada atividade”.

“Segundo, mandar para o espaço a maneira tradicional de fazer negócios significa transformar as pessoas e o planeta nas atividades empresariais básicas – de modo que as nossas operações trabalhem para criar mais e melhores empregos, conservar e restaurar os recursos naturais e ajudar a tornar as pessoas mais saudáveis e felizes, embora também trazendo sólidos retornos financeiros. “

Introdução

É incrível como estou sempre me deparando com a mesma mensagem, de agitadas cidades globais e pequenas localidades rurais no interior da Inglaterra a municipalidades na África do Sul e pequenos vilarejos na Índia, conferências do G8 sobre mudanças climáticas, novos centros e escolas. E a mensagem é a mesma em toda parte: devemos mudar a nossa maneira de fazer negócios.

Nas municipalidades, jovens cheios de entusiasmo estão agarrando com unhas e dentes à oportunidade de desenvolver seus próprios negócios como um caminho para sair da pobreza; nos pequenos vilarejos, as mulheres estão financiando as novas oportunidades com minúsculos empréstimos de 15 dólares conseguidos com microfinanceiras; nos mercados emergentes, os empresários estão criando empresas que respondem a questões, como a falta de saneamento básico e eletricidade.

Este é um tipo diferente de livro de negócios que trata de revolução. A mensagem é simples: a forma convencional de fazer negócios não está funcionando. Aliás, é justamente o “velho jeito de fazer negócios” que está arrasando o planeta. Os recursos estão se esgotando; o ar, o mar, a terra, enfim, estão todos altamente poluídos. Os pobres estão ficando mais pobres.

Muitos estão morrendo de fome por não ter condições de pagar um dólar por dia por um medicamento capaz de salvar suas vidas. Precisamos corrigir essa situação – e rápido.

Mesmo aquelas pessoas que dizem não acreditar em mudanças climáticas admitem que as pessoas estão estragando tudo em toda parte.

Branson faz menção constante, ao longo do livro, à expressão Capitalismo 24902. É um nome proveniente da extensão da circunferência da Terra em milhas. Capitalismo 24902 seria um movimento pela mudança que rejeita a maneira tradicional de fazer negócios e subentende novo nível de responsabilidade das empresas perante as pessoas e o meio ambiente, além de criar riquezas. O próximo capítulo e os demais darão exemplos abundantes desse novo conceito de capitalismo.

Capitalismo 24902

Há quinze anos, as pessoas começaram a falar em responsabilidade social corporativa, mas sem muita consistência. Era uma estratégia de marketing ou algo que o presidente do conselho de administração dizia que tínhamos que fazer, mas as pessoas simplesmente não aderiam à ideia. Agora, temos a impressão de que a questão está partindo de pessoas comuns, pelo fato de que todos que atuam no mundo dos negócios também são cidadãos. Era assim que se expressava Richard Reed, da Innocent Drinks.

Branson narra uma experiência de um mercadinho em Peasmarsh, próximo a Rye (Inglaterra): “O estabelecimento vendia produtos orgânicos e com certificação Fair Trade, um movimento social e modalidade de comércio internacional que busca estabelecer preços justos, bem como padrões sociais e ambientes equilibrados nas cadeias produtivas, promovendo o encontro de produtores responsáveis com consumidores éticos.

Além disso, os preços eram impressionantemente modestos se comparados aos praticados na cidade ou nas grandes redes. Branson soube que esse comércio de gêneros alimentícios dirigido por essa família comprava diretamente de uma cooperativa de distribuidores, de agricultores do litoral sul e outros pequenos fornecedores e, sem os altos custos de transporte, repassavam essa economia para o consumidor.

Um dos muitos colaboradores e adesistas do novo conceito de empresa foi Jean Oelwang. Depois da universidade, Jean ajudou a construir uma empresa de telefonia celular nos Estados unidos. Ele sempre quis explorar uma maneira de fazer com que os setores empresarial e social trabalhassem juntos como forma de melhorar a vida das pessoas que não tinham sequer uma chance de ter vida melhor.

Richard Branson chamou-o para colaborar nos seus empreendimentos de aviação Virgin, sob essa nova visão. “A Virgin Unite não seria apenas mais uma ‘entidade filantrópica’, mas parte integrante da filosofia do Grupo Virgin e a essência de tudo o que se fazia como grupo.

Depois de algumas semanas, recebemos um feedback positivo de milhares de pessoas que trabalhavam nas empresas Virgin e de centenas de instituições da linha de frente com as quais nos reunimos para lançar a Unite [Virgin Unite]. Elas queriam que a Unite fosse um instrumento de ligação entre as pessoas e ideias empreendedoras para a implementação de mudanças. Esse, portanto, era o início da jornada para muitas iniciativas, sobre as quais falaremos neste livro, bem como uma forma inteiramente nova de fazer negócios para o grupo Virgin”.

Jackie McQuillan, diz Branson, trabalha conosco há dezoito anos. Ela realmente vive e respira a marca Virgin e me ajudou a construí-la. Em 2003, durante a guerra do Iraque, recebi um telefonema de Jackie dizendo que havia sido contatada por um cidadão iraquiano formidável (residente no Reino Unido) perguntando se poderíamos ajudá-lo a transportar os suprimentos médicos que sua comunidade havia coletado para o arrasado povo do Iraque.

Conclusão da história: uma equipe da Virgin Atlantic ajudou a abrir o aeroporto de Basra e assim um Boeing 747 lotado de medicamentos e equipamentos vitais aterrissou na cidade, trazendo esperança a muitos feridos e doentes. O detalhe é que Branson acatou a iniciativa de sua subordinada Jackie em atender o cidadão arrecadador, sem prévias consultas a ele próprio como CEO.

Tal atitude reflete o estilo da Virgin. Ela tem por princípio zelar e ter consideração por seus funcionários. Procura sempre conceder promoções internas e garante que, de fato, isso aconteça. O presidente da Virgin Unite no Canadá começou como recepcionista da Virgin Mobile. A diretora-geral da divisão de gravadoras da Virgin começou a trabalhar na empresa na época Manor Recording Studios; ela era faxineira.

Pare de salvar, comece a reinventar

Diz Richard Branson: “Há muitos anos, venho tentando resolver os problemas do mundo, despejando bilhões de dólares em obras assistenciais. Embora isso tenha sido (e ainda seja) absolutamente necessário para impedir o sofrimento humano em situações de emergência, não podemos ficar limitados às emergências e deixar de tentar salvar o mundo principalmente reinventando a nossa maneira de viver nele. Não podemos continuar colocando um esparadrapo nos problemas e esperar que eles desapareçam; precisamos criar oportunidades para que as pessoas possam construir a vida que elas merecem”.

Lembrando os tempos que ele, Branson, passou na escola em Stowe, via com alegria o sucesso de bolsas de estudo que seu grupo Virgin doara para alunos carentes da mesma escola. Ele se expressa nesses termos: “Aguardando nos degraus do prédio principal havia um grupo de meninos e meninas vestindo uniformes sóbrios. Eles eram os primeiros bolsistas Branson e a razão de minha visita. Vê-lo ali, em pé, me encheu de orgulho e esperança de que estávamos mudando a vida daquelas crianças de forma muito positiva”.

Branson prossegue: “Devo confessar, no entanto, que isso não foi iniciativa, nem mesmo ideia, minha. A pessoa que fez que isso acontecesse foi Mike Parsons, fundador e CEO da Barchester Healthcare, uma empresa com cerca de 200 creches no Reino Unido. Mike e eu desenvolvemos um bom relacionamento desde que nos conhecemos. Temos a mesma idade – fazemos aniversário num espaço de apenas duas semanas um do outro e temos um interesse comum pela África do Sul”.

Para entender de onde veio a ideia para os Centros Branson, é preciso apresentar Taddy Blecher, cofundador da universidade gratuita da África do Sul, a CIDA, que significa Community and Individual Development Association [Associação para o desenvolvimento individual e comunitário]. Taddy é um autêntico reinventor.

Ele não queria criar para as comunidades mais pobres da África do Sul programas educacionais que dependessem exclusivamente da caridade; ele queria que os programas se pagassem para que nunca desaparecessem. Sua intenção é usar a educação para construir economias inteiras num mudo mutante em que a distribuição de recursos é cada vez mais escassa.

No mesmo diapasão, todas as instituições de Jeff Skoll compartilham a visão comum de viver num mundo sustentável de paz e prosperidade. Elas desenvolveram uma surpreendente matriz de questões chamada de THE PIE, que são as iniciais, em inglês, de tolerância e direitos humanos, saúde, sustentabilidade ambiental, paz e segurança, responsabilidade institucional e igualdade econômica e social. Cada uma dessas categorias é dividida em subcategorias, como “oceanos”, “poluição e toxinas” e assim por diante.

A Skoll Global Threats Fund, por exemplo – uma fundação que Jeff lançou em 2009 para cuidar de importantes questões, como mudanças climáticas, instabilidade no Oriente Médio, proliferação de armas nucleares, pandemias e recursos hídricos –, logo no início de sua existência desempenhou um papel importante para acelerar a distribuição de uma vacina contra a gripe suína, principalmente para países mais pobres.

Se você tem, use!

Figura impressionante foi o professor indiano Muhammad Yunus, o pai do microcrédito. Um grande problema que Yunus encarava era que muitos tinham boas ideias para começar uma empresa, mas não tinham o capital inicial. Era o problema de muitas mulheres que queriam abrir negócio para sustentar a família.

Yunus conseguiu encontrar a maneira de montar um projeto com a finalidade específica de conceder empréstimos a essas mulheres da zona rural. Ele chamou o sistema de microfinanciamento e o denominou Grameen (que significa “banco de vilarejo” em bengali). E assim nascia uma lenda.

Cerca de 89 bilhões de dólares em valores diminutos foram emprestados desde a criação do banco e a taxa de adimplência é de 96,89%, uma marca notável se comparada às taxas de inadimplência dos tomadores de empréstimos em outras partes do mundo. Para se ter uma ideia, não existem contratos escritos entre o Grameen e seus clientes; o sistema é inteiramente baseado na confiança.

A conta de investimentos do Grameen – o montante de seus empréstimos – é, em parte, formado por conta de poupança. Os tomadores de empréstimos devem poupar pequenas quantias como uma espécie de seguro contra situações de contingência. 97% dos clientes são mulheres da região.

Uma das áreas trabalhadas por Chris West, da Fundação Shell, foi o ”meio-termo excluído” – pequenos empreendedores que não têm acesso a subsídios corporativos essenciais por serem grandes demais para o microfinanciamento e pequenos demais para instituições financeiras de maior porte – mediante a criação do GroFin, uma empresa social, cujo objetivo é acionar um importante propulsor para o crescimento econômico no mundo em desenvolvimento.

É onde a filantropia encontra a pequena empresa, mandando para o espaço a forma tradicional de fazer negócios e inventando um novo modelo de trabalho com a finalidade de oferecer financiamento e qualificação onde for mais necessário.

A empresa é para a África a extensão lógica do que o Grameen Bank é para a Ásia. Enquanto o Grameen Bank oferece pequenos financiamentos, a GroFin oferece uma combinação de financiamentos de médio porte e suporte empresarial para ajudar pequenas empresas a crescer. Poucas instituições financeiras estão dispostas a arriscar esses valores de médio porte, apesar da enorme necessidade de investimento nesse nível.

Além da próxima fronteira

Jane Tewson, para Branson, é uma grande ouvinte. A vida inteira foi dedicada a ouvir as pessoas diretamente afetadas pelos problemas e ajudá-las a amplificar suas vozes. Ela é uma das verdadeiras reinventoras da “filantropia”. Jane é conhecida no Reino Unido por causa do Comic Relief (famoso Red Rose Day) e seu mais recente trabalho Pilotlight Australia. Como empreendedora, ela sempre procurou expandir as fronteiras para ver como é possível inspirar as pessoas para a filantropia reunindo indivíduos de todos os setores da sociedade.

Jane acredita que a conversa seja um dos maiores prazeres da vida; que só podemos encontrar as soluções para os nossos problemas quando realmente nos envolvemos e nos conectamos com as pessoas que precisam de ajuda, concedendo-lhes autonomia e recorrendo à suas ideias. Ao longo dos anos, Jane articulou o desenvolvimento de muitas conversas que ajudaram o trabalho da Virgin Unite decolar.

Uma das iniciativas inspiradas por ela é o bem-conhecido Champions Programme, em que os funcionários da Virgin na Austrália estão orientando e sendo orientados por ex-jovens sem-teto. As conversas entre os jovens e os funcionários são transformadoras para todos eles. “Os nossos funcionários estão aprendendo com esses jovens inspiradores com anos de sabedoria adquirida a partir da experiência de viver nas ruas e condições que não podemos sequer imaginar Algumas amizades verdadeiras se formaram e todos concordam que esse programa único veio enriquecer suas vidas”, diz Branson.

Richard Branson lutou muito pela erradicação da Aids, na África do Sul, e a moléstia matava multidões. Aldeias que outrora ele havia percorrido não tinham mais anúncios de empresas, mas sim de mortalidades e enterros.

Amigo do líder Mandela, Branson não encontrou no seu sucessor, presidente Mbeki, uma correta e eficiente política para combater a Aids. Numa coletiva de imprensa, após um jantar oficial, Bronson encontrou ânimo para dizer aquilo que era inadmissível na campanha contra a Aids. Disse que, embora admirasse imensamente o que o ANC [Congresso Nacional Africano, partido político] havia realizado para unificar o seu país, não podia admitir que o povo ficasse privado das drogas antirretrovirais, o que provocava a morte de milhões de pessoas.

O presidente da África do Sul era culpado de genocídio por crimes contra o seu próprio povo e os ministros que ofereciam beterraba em vez de drogas antirretrovirais como cura eram culpados de crime contra a humanidade. Branson usou de franqueza e não avaliou reações desfavoráveis e até retaliatórias contra as suas empresas estabelecidas no país. Mas, o que ocorreu foi surpreendente.

O presidente Mbeki magnanimamente dirigiu uma carta para ele. O presidente escreveu sobre a sua criação, o seu povo e o seu país. A carta permitiu uma base sobre a qual construir um relacionamento positivo dali para frente. “Houve um tempo em que eu achava que a África do Sul precisava de um centro de controle de doenças. Os Estados Unidos tinham um, a Europa tinha um, mas o lugar onde as doenças imperavam não tinha nenhum. O presidente Mbeki concordou e nós unimos forças no sentido de montar um núcleo”.

Moral da história: “Sempre achei que é importante fazer o que se acha certo. Estar francamente certo. Não tinha nada a ver comigo nem com negócios – não tinha nada a ver nem mesmo com assistentes sociais e instituições filantrópicas. A questão dizia respeito a milhões de vidas perdidas quando havia uma solução”.

Outro exemplo na área da saúde. Victoria Hale, empresária da indústria farmacêutica, criou a OneWorld Health, sem fins lucrativos. Aliás, as condições de financiamento previam especificamente que a OneWorld Health não tivesse nenhum retorno. Em vez disso, a empresa trabalharia no sentido de identificar medicamentos não patenteados que fossem produzidos por empresas que os vendessem a preço de custo em todo o mundo.

O primeiro cheque que a OneWorld Health recebeu foi de 1 milhão de dólares. Vale lembrar que isso equivale a um décimo de 1% da quantia necessária para produzir um único novo medicamento.

Pedras Gaia

Gaia, a mãe Terra, recebeu cuidados de Branson, suas empresas e seus amigos. Sigamos suas palavras: “Eu estava ciente de que a situação era desesperadora porque a Virgin Unite já havia me colocado em contato com a WildAid, dirigida por Peter Knights, que está trabalhando de forma incansável para ajudar a salvar espécies em risco. Um de seus alvos de resgate é o tigre. Poucos animais despertam tantas emoções quanto o belo tigre”.

A WildAid e a Virgin Unite forneceram um veículo e equipamentos à Unidade de Resposta Rápida do Parque Nacional Corbett, que atualmente resgata tigres e outros animais em situação de perigo, protegendo-os de caçadores ilegais.

A Virgin agora está trabalhando com Peter e sua equipe no sentido de apoiar o treinamento de guardas florestais no Parque Nacional Corbett, na Índia.

Branson está trabalhando com Peter Knigths com o objetivo de ajudar a preservar os tubarões no mundo inteiro. Branson havia visto o interessante documentário Sharkwater, do cineasta Rob Stewart, expondo a voraz indústria da caça de tubarões. A terrível realidade é que a demanda por sopa de barbatana de tubarão é muito grande, com até 73 milhões de barbatanas utilizadas para esse fim a cada ano.

Em setembro de 2011, a Virgin Unite e Branson se juntaram ao astro de basquete Yao Ming, ao pessoal da WildAid e ao líder empresarial chinês Zhang Yue em Xangai para exigir a proibição da caça de barbatanas de tubarão na China (incluindo Hong Kong) –uma medida que poderia salvar milhões de animais a cada ano.

A sopa de barbatana de tubarão não tem nenhum sabor especial, mas o mais importante é que, tirando todos os tubarões do oceano, você destrói o ecossistema e perdemos outros peixes que nos sustentam todos os dias. Em 2012, o governo chinês baniu a barbatana de tubarão de todos os banquetes de estado, dando assim um grande passo no banimento dessa caça nefasta para o meio ambiente.

Branson e suas empresas estão colaborando com uma instituição poderosa chamada Pace Parks. Na era colonial, as antigas terras tribais da África eram divididas para formar novos países, sem nenhuma consideração pelos povos que as habitavam, tampouco pelas rotas migratórias naturais dos animais selvagens. Todos conhecem a surpreendente migração do gnu nas planícies do Serengeti. Tal anomalia trouxe dizimação de animais selvagens.

Em 1997, foi criada a fundação Pace Parks, em conjunto pelo dr. Anton Rupert, pelo príncipe Bernhard da Holanda e por Nélson Mandela como uma organização sem fins lucrativos destinada a permitir a livre circulação de animais selvagens entre as fronteiras nacionais. O maior colaborador foi a Loteria de Código Postal Holandesa.

A aldeia global

A “aldeia global” e o seu tempo finalmente chegaram, com todas as oportunidades e os desafios maravilhosos que lhe são inerentes. Hoje, é mais difícil que qualquer indivíduo, governo ou instituição construa o seu poder e a sua riqueza às custas das pessoas, independentemente da parte do mundo onde estejam. A queda do muro de Berlim, em 1989, provavelmente foi uma das primeiras manifestações da tecnologia literalmente derrubando barreiras entre as pessoas e os regimes.

Embora tenha impedido a passagem das pessoas por mais de 40 anos, o muro encontrou um desafeto à altura ao enfrentar as transmissões por satélite. De repente, o lado oriental passou a ter acesso a uma visão não censurada de tudo o que estava acontecendo no lado ocidental.

E o que isso significa para as empresas e os empreendedores? Assim como estouraram revoluções contra os governos que estavam abusando de seu povo, os líderes empresariais também já começaram, e continuarão a enfrentar os mesmos desafios. Finalmente, saímos da “era industrial” e entramos na “era das pessoas”, que constitui a essência do Capitalismo 24902.

Enquanto a era industrial era sinônimo de riqueza, crescimento insustentável por meio do esgotamento dos recursos naturais e geração de lucro para os acionistas da sua empresa, essa nova era, a “era das pessoas”, subentende uma mudança de foco, onde as empresas podem e devem oferecer benefícios às pessoas e ao planeta – bem como aos acionistas.

E que tal carregar o seu banco no bolso? Os clientes da M-PESA, no Quênia, podem efetuar depósitos e retiradas a partir de uma rede de agências formada por revendedores de espaço de mídia e pontos de venda que atuam como agências bancárias, o que permite efetuar transferências e pagar contas.

Lançado em 2007, o serviço já tem 6,5 milhões de assinantes com 2 milhões de transações diárias. Falando em telefones, a Doutel, uma empresa que opera principalmente no Oriente Médio, seleciona pessoas com o perfil adequado para empresas que estão recrutando. A empresa cria “minicurrículos” e “minianúncios de emprego” em formato de SMS e depois conecta possíveis funcionários e empregadores.

Na Rio+20, em 2012, Branson ficou feliz por saber que havia milhares de pequenas entidades fazendo trabalho maravilhoso nos bastidores, longe das grandes declarações feitas nas salas de conferências. Ele deixou o evento com uma sensação renovada de esperança – não por causa das lideranças governamentais, mas porque os indivíduos e as empresas estão agindo.

O que deixou Branson esperançoso foi que as empresas estão começando a dar valor à maneira como utilizam os ativos naturais. Por exemplo, foi maravilhoso ver, nesse evento, várias empresas de bebidas, dentre as quais a Coca-Cola Brasil e a Ambev, apelando para que os governos comecem a dar o devido valor à água, enquanto elas se comprometem a reduzir a quantidade de água utilizada na produção de suas bebidas.

Branson ficou surpreso também por conhecer algumas iniciativas dos empreendedores e da comunidade local, inclusive aquelas homenageadas na cerimônia de entrega do Prêmio Equador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Mais de 800 grupos comunitários de 66 países foram indicados para os prêmios, evidenciando o progresso e a inovação da engenhosidade local.

Ray Chambres, empresário bem-sucedido, depois de fazer fortuna, resolveu dedicar-se a ações beneficentes, a mudanças positivas no mundo. Ao decidir enfrentar a questão da malária, tinha em mente um objetivo: até 2015 não haveria mais mortes por malária na África. Para isso, precisava criar uma instituição que vencesse a resistência dos silos [núcleos humanos fechados] e atacasse a malária em nível mundial.

Juntamente com Peter Cherne, um dos executivos de mídia mais influentes de mundo, fundou a Malaria No More. A instituição reúne parceiros de todo os setores com o intuito de alavancar a defesa de causas globais de alto impacto, as campanhas de conscientização e os investimentos sociais específicos.

Em 2008, Ray foi convidado pelo secretário-geral da ONU Ban Ki-moon, para ser o primeiro emissário especial do secretário-geral para o Combate à Malária. Ray Chambres foi um maravilhoso exemplo usando as suas habilidades empresariais e pessoais para criar nova forma de abordagem às lideranças mundiais na tentativa de erradicar a malária.

O poder das comunidades

Ao longo deste livro, homenageamos muitos indivíduos que efetuaram mudanças no mundo. Porém, as mudanças não acontecem pela ação de um único indivíduo, mas por meio do poder das comunidades. E nunca houve momento mais oportuno e estimulante para as comunidades promoverem mudanças do que agora em nossa aldeia global conectada. Afinal, o capitalismo 24902 tem tudo a ver com a comunidade.

Como parte do capitalismo 24902 e da missão de mandar para o espaço a maneira tradicional de fazer negócios, Branson pensou muito no papel da empresa na construção de comunidades que produzirão mudanças no mundo. As marcas globais construíram comunidades poderosas por excelência ligadas aos seus produtos e serviços. Imagine se todas essas empresas resolvessem imitar essas comunidades a fim de mobilizar mudanças no mundo.

Muitas empresas estão seguindo essa possibilidade e adotando uma visão comunitária em tudo o que fazem. Uma dessas empresas é a Cafédirect, que iniciou suas operações em 1991. A empresa tem por propósito “mudar vidas e construir comunidades”. Em 1989, com a queda de um acordo internacional do setor cafeeiro que fixava preços globais de acordo com o custo de produção, uma comunidade de cafeicultores do Peru, da Costa Rica e do México se uniu para impedir que os atravessadores comprassem toda a safra de café por preços irrisórios e destruíssem a vida de milhões de pequenos agricultores.

Os cafeicultores embarcavam seus grãos de café para o Reino Unido, onde o produto era vendido por meio de lojas de caridade em eventos locais. Era o começo de uma comunidade inspiradora entre muitas fronteiras.

Vinte anos depois, a Cafédirect é a maior empresa de bebidas quentes do mundo certificada pelo Fair Trade. A empresa construiu uma comunidade com mais de 260 mil plantadores de café, chá e coco em 14 países. Um perfeito exemplo de Capitalismo 24902 e do poder da comunidade de uma empresa.

Os Esquadrões Especiais da Virgin Unite – alguns reunindo especialistas de marketing de todo o grupo e outros com um diversificado conjunto de habilidades – são uma ótima maneira de incentivar a participação dos membros da equipe durante alguns dias de dedicação integral com o objetivo de usar suas habilidades profissionais para prestar suporte a uma instituição sem fins lucrativos. Em geral, acrescentam-se ao mix alguns recursos externos para dar uma dimensão diferente à missão.

Para cada Esquadrão Especial, embora seus membros estejam fazendo esse trabalho de graça, eles são tratados como se fossem remunerados pela elaboração de projetos de consultoria, a fim de ter certeza de que tanto a entidade sem fins lucrativos quanto a equipe levarão a missão a sério, estipulando tarefas claras a serem cumpridas. Essas sessões não são apenas uma ótima atividade para o moral da equipe, mas também uma excelente ferramenta de treinamento e desenvolvimento. O bom e o útil numa só tacada.

Durante sua participação no Jantar do Ano, Branson destacou seu esforço para minimizar o impacto ambiental da aviação. “A gente acredita que um jeito de proteger o meio ambiente é usar combustíveis mais eficientes. Estamos trabalhando constantemente de modo a reduzir a taxa de emissão de carbono das aeronaves”.

Por fim, Branson acredita que a principal missão de qualquer negócio é colocar as pessoas em primeiro lugar. “A empresa é apenas um grupo de pessoas e se você cuidar delas, tudo segue dali em diante”.

Texto: Rogério H. Jönck

Imagens: Marcos Mesquita | Experience Club e Reprodução

Ficha técnica:

Título: Ouse – fazer o bem, se divertir, ganhar dinheiro

Título original: Screw business as usual

Autor: Richard Branson

Primeira edição: Editora Saraiva – 2013

  

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