Turco Loco traz economia criativa, rock e surfe ao debate eleitoral em SP

Turco Loco traz economia criativa, rock e surfe ao debate eleitoral em SP

Candidato a vereador pelo PSDB 13 anos após deixar a política, fundador da grife Cavalera, Alberto Hiar, quer conectar cultura de rua, esporte e empreendedorismo à campanha de Bruno Covas

Publicado em 5 de outubro de 2020

Um chamado do prefeito de São Paulo, Bruno Covas, mudou os planos do empresário e (novamente) político Alberto Hiar. Dono da marca Cavalera e atual presidente da Abest, a Associação Brasileira de Estilistas, que representa pouco mais de 100 empreendedores do segmento da moda conhecido como “autoral”, Hiar volta a concorrer a um cargo eletivo, algo que não estava nos seus planos até muito recentemente

Treze anos após deixar a Assembleia Legislativa de São Paulo, ele é candidato a vereador nas eleições de novembro na cidade de São Paulo pelo PSDB com seu famoso apelido de guerra, o “Turco Loco”. O empresário, curiosamente, é amigo próximo do deputado federal Celso Russomanno, principal adversário de Bruno Covas nestas eleições. Foi Russomanno que abriu alguns segundos em seu programa de TV, nos anos 1980, para Hiar vender, falando rápido à maneira do antigo candidato presidencial Enéas Carneiro, jeans a preços de liquidação. Foi ali que Hiar criou o bordão “o turco ficou louco” que lhe valeria a alcunha política, ainda que ele seja filho de libaneses.

Hiar, que falou com o Experience Club pelo aplicativo Zoom no vai e vem de carro pela cidade entre compromissos de campanha, contou que Covas precisava de um “interlocutor” no segmento jovem que o empresário representa, do “rock, hip hop, skate e surfe”, como ele mesmo enumera.

Tornar realidade o projeto de uma piscina pública de ondas, à maneira daquela do surfista Kelly Slater na Califórnia, e utilizada em uma etapa do campeonato mundial de surfe, é o sonho dourado de mandato. Bruno Covas manifestou interesse no equipamento ainda no ano passado.

Até meados deste ano Hiar mantinha um discurso bastante avesso à política. Disse numa live que “não se sentia mais útil como deputado” e que havia se tornado “despachante de luxo” de seu eleitorado. Chamava os políticos de “cafonas” e guardava pedras – e xingamentos – para o ex-governador Geraldo Alckmin. Em 2018, produziu camisetas ridicularizando os candidatos presidenciais e chegou a ser ameaçado de morte por um eleitor de Jair Bolsonaro.

Embora reclame constantemente da política tributária para o segmento de moda que encabeça, “que não pode ser tratado como commodity”, e tenha levado pleitos setoriais no fim de junho ao presidente do senado, Davi Alcolumbre, numa futura legislatura municipal, caso eleito, a conversa passaria mais pelas “minas” e pelos “manos”. Instado a dizer o que lhe deixaria satisfeito se pudesse ter uma única realização de mandato, afirmou querer que “todo o esporte, o skate, a música, o rock e o surfe sejam melhor atendidos pela classe política”. Hiar também pretende chamar atenção para o autismo – ele tem um neto autista.

O dono da Cavalera é um entusiasta das semanas de moda, momento em que “cenografia, música e roteiro”, ou seja, recursos de espetáculos de entretenimento, são utilizados para mostrar uma coleção. E já que um dos objetivos expressos da Cavalera é “contestar o status quo” – o que quer que isso signifique –, Hiar usa essas ocasiões, que sempre despertam grande interesse da mídia, para afirmar posicionamentos de marca. A Cavalera já chamou atenção para os povos indígenas e para o abandono do rio Tietê e pôs para desfilar modelos negros e transsexuais. A pandemia interrompeu esse canal de expressão por certo tempo.

Junto com o chef Henrique Fogaça e com o sócio Anuar Tacach, Hiar ainda toca o restaurante Jamile, no Bixiga, em São Paulo, que se destacou durante a pandemia por oferecer marmitas de comida de qualidade para moradores de rua. Ele não foi o único empresário a fazê-lo, mas mesmo assim não acredita que as diversas ações filantrópicas, muito mais comuns nas primeiras semanas da pandemia, irão deixar um legado de maior civilidade entre os brasileiros. Encontrar soluções para sustar o problema dos moradores de rua ou dar melhores condições de sobrevivência para eles, a propósito, não é prioridade de mandato. 

Filho de imigrantes libaneses que se tornaram feirantes em São Paulo e crescido entre o bairro do Ipiranga e a favela de Heliópolis, Hiar pretende olhar com carinho para a região sem fazer dela, contudo, um território prioritário, uma espécie de distrito feudal. “Amo o Ipiranga, mas não me considero um vereador do Ipiranga.” Veja os principais pontos da entrevista. 

DO DESENCANTO À VOLTA À POLÍTICA

“Ainda continuo batendo no ex-governador Geraldo Alckmin. Dentro do PSDB tem pessoas de todas as correntes políticas, e Geraldo não defendia as mesmas linhas que eu, por isso abandonei a política, não queria ficar discutindo com quem não entende a importância da cultura, do esporte, do hip hop na vida das pessoas. A gente tem quatro títulos mundiais de surfe graças a eventos de base do passado, e hoje não tem eventos de rock como tinha quando eu era vereador e deputado. Isso começou a me trazer certa tristeza. Nessa mesma linha, o prefeito Bruno Covas me chama, diz que precisava de um interlocutor no meu segmento e que poderíamos fazer muita coisa pelo rock, pelo hip hop, pelo skate, pelo surfe. Tem a proposta de trazer a piscina pública de ondas, quando você escuta isso de um cara que já é prefeito, isso te motiva muito a voltar. Se ele não tivesse conversado comigo, com certeza eu não sairia candidato.” 

AGRURAS LEGISLATIVAS

“Fiz o que pude em meus mandatos legislativos. Eu não tinha parceiros, não tinha pessoas que defendiam os projetos e as leis que eu defendia, e isso acaba frustrando um pouco. Querendo ou não, na vida pública você tem de fazer acordo com outros deputados, com os líderes. Eu chegava a parar a Assembleia inteira, dizia que não ia ter votação. Achavam meus projetos inexpressivos, diziam que não existia interesse por parte da população, mas eu dizia que tinha sido eleito justamente por essa parte da população, que ia brigar por ela.”

UMA REALIZAÇÃO DE MANDATO

“Uma realização acho muito pouco, mas que todo o esporte, o skate, a música, o rock, o surfe, e o autismo – que é uma bandeira que quero ter, eu tenho neto autista – sejam [temas] melhor atendidos pela classe política. Não estou dizendo que não são, mas precisa ser mais.

Não há mais eventos na periferia. Sou contra a Virada Cultural, a cidade de São Paulo não pode ter só um evento de cultura o ano inteiro, deve ter vários.

O prefeito [Bruno Covas] é um cara mais sensível, a piscina de ondas, ele topou na hora. Isso vai gerar turismo, podemos ter atletas campeões mundiais, dá para receber campeonatos de surfe.”  

MANDATO COLETIVO

“Na hora de votar, quem vota é o vereador eleito, não essa bancada coletiva. No meu novo mandato [caso eleito], terei gente de cada segmento, o que não deixa de ser uma bancada coletiva. Mas na hora do voto, é o Turco Loco. Serei assessorado por gente do rock, a [cantora e ex-vj da MTV] Madame Mim, gente do hip hop como o Primo Preto, do skate, o Pinguim. Eu vou escutar todos eles, mas quem vota sou eu.”

IPIRANGA E HELIÓPOLIS

“Amo o Ipiranga, mas não me considero vereador do Ipiranga. Vou ficar muito em cima com as ações de zeladoria e com a reabertura do museu do Ipiranga [prevista para 2022, no bicentenário da Independência]. Tenho muito orgulho da inauguração da Casa de Cultura Chico Science, que foi conquista minha no passado, soube que recentemente ela passou por reforma, isso é legal, mas não deveria demorar tanto para passar por reforma. Heliópolis precisa ter mais palcos culturais, mais atividades esportivas, enfim não vou nunca deixar de lado a questão da zeladoria, a limpeza, estarei sempre atento para os hospitais públicos municipais da região, para o problema das creches. Vou brigar sempre, mas isso não é plataforma eleitoral. Como morador sempre vou cobrar qualidade na educação, no transporte, na zeladoria.”

ECONOMIA CRIATIVA

“Dá para fazer mais pela economia criativa. Eu sou fruto dela, tenho marca de roupa autoral, de valor agregado, que é diferente de quem faz roupa popular. Tenho restaurante, o Jamile, que atrai turismo.

Sou empreendedor, e é preciso motivar a população a empreender, com isso geram-se empregos, recursos, a cidade fica mais pujante financeiramente. O grande problema é que a gente é sobretaxado, quem tem valor agregado passa a ter desvantagem [fiscal].

A briga é sempre essa, então vamos olhar áreas como o Beco do Batman, por exemplo, pode ter benefício de IPTU para as galerias de arte dali, elas são muito importantes para a cidade.”

MODA, E A DIFICULDADE DE FAZÊ-LA NO BRASIL

“Moda para mim é a cultura de um país, é o que ajuda a mostrar a cara de um país. O setor têxtil gera em torno de R$ 230 bilhões por ano, sem contar o varejo e o que entra na indústria automobilística, já que sempre tem um pouco da indústria têxtil no auto. É um número absurdo, o segundo maior gerador de emprego na indústria de transformação. Dentro disso tem o fator criativo, o produto que não pode ser vendido como commodity. Mas a carga tributária é alta, as leis trabalhistas não incentivam a empregar no Brasil e o mercado financeiro tem desinteresse pela indústria. Pega a Nike, ela não tem mais operação no Brasil, ou a Vans, que é da Arezzo [no Brasil]. O Brasil pode representar 2% do faturamento dessas marcas mundiais, mas tem 80% dos processos trabalhistas. A reforma trabalhista não foi suficiente. Eu estou desativando meu parque industrial e homologando um fabricante em Blumenau (SC), lá eles são mais competentes.” 

LÍBANO

“Sempre falei que o país é um barril de pólvora, um país entre dois extremistas religiosos como a Síria e Israel, e ao lado de bilhões de dólares em petróleo, cada país defendendo seu interesse. O Líbano é lindo, mas vem sendo gerido de maneira desastrosa, até confiscaram dinheiro das pessoas, como foi aqui com o [ex-presidente Fernando] Collor. Deixaram as pessoas em situação dramática, o dólar subiu muito, aí a explosão também ajudou a reduzir a autoestima do povo libanês. Quem conhece o país sabe que os prédios são cravados de bala de tantas guerras civis, mas os libaneses são guerreiros, vão conseguir sobreviver, vão passar por mais essa também. Meus primos vivem no norte, sofrem menos do que o pessoal do sul do país, às vezes têm algum problema de infra-estrutura, uma rede elétrica que é atacada… Mas não percebo neles vontade de deixar a terra natal.” 

Texto: Paulo Vieira

Imagem: Reprodução