“Inclusão é o imperativo da nossa geração de líderes”, diz Luana Ozemela, do iFood

Monica Miglio Pedrosa
“Inclusão é o imperativo da nossa geração de líderes”. A afirmação, de Luana Ozemela, Chief Sustainability Officer do iFood, vem em um momento de extrema volatilidade geopolítica, em que as decisões precisam ser tomadas de forma cada vez mais rápida, por grupos cada vez menores na liderança das organizações. Em sua visão, esse cenário, somado ao avanço da inteligência artificial, aumenta o risco de exclusão no ambiente de trabalho.
Doutora em Economia pela University of Aberdeen, com a tese “Impactos da diversidade racial e de gênero nos resultados educacionais e trabalhistas do Brasil”, Luana construiu sua carreira na intersecção entre tecnologia e inclusão. Natural de Porto Alegre, fez mestrado e doutorado na Inglaterra. Atuou na HP e no Banco Interamericano de Desenvolvimento, onde liderou iniciativas ligadas a mercado de trabalho, inclusão e infraestrutura social em diferentes países da América Latina e desde 2022 está no iFood.
Na apresentação de encerramento do RH Experience, ela afirmou que o uso da inteligência artificial no RH pode agravar ainda mais a exclusão. O problema não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é treinada e aplicada dentro das empresas. Ao aprender com processos já existentes, ela replica falhas que muitas vezes já estavam presentes na gestão da organização. O risco, nesse caso, é reproduzir distorções em decisões sobre recrutamento, admissões, avaliação de performance, demissões e até na definição de quem ocupa espaços de poder.
Esse risco se torna ainda mais relevante diante da escala que a tecnologia já tem dentro das empresas. No iFood, segundo Luana, a inteligência artificial deixou de ser uma camada de apoio e passou a ser parte central da operação. Hoje, cerca de 30% da lucratividade da companhia vem de modelos de IA, que também são responsáveis por aproximadamente 25 bilhões de decisões todos os meses. “É a maneira de a gente se manter relevante em um mercado que está em constante mudança”, afirmou.
Em uma análise dos dados internos dos colaboradores, o iFood identificou que, mesmo com uma força de trabalho diversa, com mais de 50% de mulheres, que representam 45% da liderança, e 1.700 pessoas se autodeclarando como pretas ou pardas, a liderança negra é de apenas 22%. “Não assumimos que era um problema de pipeline. Não delegamos a responsabilidade para fatores externos, nem acreditamos que inclusão é algo ideológico ou político, que se resolve com o letramento dos líderes. Fomos olhar os padrões”, contou.
Com o apoio da inteligência artificial, o iFood conseguiu identificar padrões que explicavam essa diferença de trajetória. O principal deles foi um turnover mais alto entre pessoas negras, associado a uma menor tolerância à performance de líderes negros em comparação com líderes brancos. A partir desse diagnóstico, a empresa passou a tratar a inclusão como parte do próprio modelo de gestão.
Segundo Luana, esse tipo de distorção não necessariamente nasce de decisões conscientes, mas de critérios e práticas que, ao longo do tempo, acabam produzindo resultados desiguais. “Quando conseguimos mostrar esses padrões, fica claro que são falhas corrigíveis do processo”, afirmou. A partir daí, a discussão deixa de ser abstrata e passa a se apoiar em evidências, criando espaço para ajustes mais estruturais na forma como as decisões são tomadas.
A executiva fez então uma provocação aos mais de 100 líderes de RH presentes. Para ela, a agenda da inclusão não pode ser acessória. É preciso incorporar essas discussões aos próprios sistemas de gestão, com disposição para encarar conversas desconfortáveis, mas necessárias, sobre onde os processos falham.
Segundo um relatório do Banco Mundial, cerca de 1,2 bilhão de pessoas devem entrar no mercado de trabalho nos próximos dez anos. Ao mesmo tempo, há uma grande incerteza sobre o que essas pessoas farão, como serão absorvidas pelo mercado e quais ocupações estarão disponíveis. O paradoxo, na visão de Luana, é que essa nova força de trabalho chega mais preparada do que nunca. É a mais jovem da história, marcada pela maior entrada de mulheres e pelos mais altos níveis educacionais já registrados.
Nesse contexto, a IA pode ser tanto uma ferramenta de exclusão quanto de transformação e inclusão de oportunidades. “No iFood decidimos olhar para esta tecnologia como uma ferramenta que vai ajudar esse 1,2 bilhão de pessoas a transitarem entre a incerteza e as oportunidades”, finalizou, provocando as lideranças a decidir de que forma a IA será usada em suas empresas. Como instrumento de exclusão ou como ferramenta de transição, inclusão e acesso a novas possibilidades de renda e trabalho.
Foto: Marcos Mesquita

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