Educação e capital humano como motores da revolução da IA

Monica Miglio Pedrosa
A inteligência artificial começa a ampliar a produtividade das empresas, mas seu impacto dependerá menos da disponibilidade da tecnologia do que da capacidade de preparar as pessoas para utilizá-la. No entanto, em um país marcado por lacunas na educação básica e altos índices de analfabetismo funcional, o avanço da IA pode abrir novas oportunidades ou aprofundar as desigualdades sociais.
Esse foi o ponto de partida de um painel que reuniu Paula Bellizia, vice-presidente para a América Latina da Amazon Web Services; Rodrigo Galindo, chairman da Cogna Educação; e Cristiana (Kika) Pipponzi, conselheira da RD Saúde e do Santander Brasil, no evento “A educação como infraestrutura de competitividade”, realizado pelo Experience Club em parceria com a Único Skill na semana passada.
O debate, mediado por Ricardo Natale, CEO do Experience Club, abordou ainda as novas habilidades que os profissionais precisam desenvolver nessa era de transformações, a responsabilidade coletiva de governos, líderes, pessoas e empresas pela educação, além dos caminhos para ampliar a inclusão produtiva e aproveitar as oportunidades das relações intergeracionais nas empresas.
Leia, a seguir, os principais insights do encontro.
[Ricardo Natale] No Brasil, 73% dos jovens estão abaixo do nível de ensino de matemática. A IA vai aprofundar essa desigualdade ou pode ser o fator de desenvolvimento dessa geração que ainda não está qualificada?
[Paula Bellizia] Sou otimista. Há uma oportunidade única com a IA. Nos últimos 50 anos temos tido ciclos de desenvolvimento tecnológico, mas nunca tivemos todos os vetores sendo mexidos ao mesmo tempo, na velocidade que temos agora. A IA, assim como o cloud, há 15 anos, democratizou o acesso à tecnologia, antes restrito somente às grandes empresas. Temos a responsabilidade de apoiar as pessoas nessa capacitação, senão elas serão profundamente impactadas. Na AWS vamos capacitar 1 milhão de pessoas em cloud e IA até 2027. Precisamos assumir o compromisso de capacitar pessoas dentro e fora da empresa.
[Rodrigo Galindo] Vamos sair do topo da cadeia do ponto de vista cognitivo, de formação e cultural e dar dois passos para trás, olhar para a educação de forma mais ampla. Temos 47 milhões de pessoas hoje na educação básica, 7 milhões na educação de jovens adultos e 40 milhões de jovens estudando. Não vamos ter 47 milhões de experts em IA. Essas pessoas não vão liderar processos de gestão nem processos de construção de soluções baseadas em IA, mas vão ser impactadas pela tecnologia. Merecem ter acesso à educação para ter uma vida mais digna. A Cogna atua em 3 mil municípios, com educação presencial e digital, e educa pessoas dos 2 aos 100 anos. Percebemos claramente como a educação impacta positivamente na evolução de renda e na qualidade de vida das pessoas. Forma gente crítica, capaz de tomar suas decisões, brigar por seus direitos e escolher seus caminhos. É esse acesso à educação de forma mais ampla que precisamos garantir a todos.
[Cristiana Pipponzi] Educação tem várias camadas, vários desafios diferentes dentro da sociedade. Acredito que há um risco real de amplificar a desigualdade social se não mudarmos nosso olhar para a educação. Temos que acrescentar a dimensão de desenvolvimento econômico com uma política social para a educação. É preciso trabalhar de forma mais integrada como país. Como indivíduos, temos que ser protagonistas da própria jornada e nos reinventarmos. As empresas têm um papel de inclusão produtiva que não vai dar conta dos gaps que temos na educação básica, mas que garanta que a desigualdade social não se amplifique. O governo traz o olhar de equidade e de escala para o tema. O desafio da inteligência artificial é a velocidade. Por outro lado, ela é também uma facilitadora para a educação. Alguns estudos com estudantes do ensino básico mostraram uma melhoria inicial na aprendizagem de quem usou IA mas, depois de seis meses, o desempenho ficou pior. É preciso ver que ir bem numa prova não significa estar adquirindo conhecimentos de forma perene. Como avançar com a agilidade que o contexto requer e ao mesmo tempo avaliar o que está ou não funcionando?
[Natale] Galindo, o Brasil está estagnado na taxa de analfabetismo funcional, em torno de 29%. Como conseguimos mudar esse ponteiro?
[Galindo] Eu questiono essa crítica estrutural, irrestrita e decisiva de que a educação brasileira não funciona e não evoluiu. Temos que ver e valorizar o copo meio cheio e isso passa por reconhecer o avanço que já tivemos. Na década de 1990, menos de 70% das crianças estavam nas escolas. Hoje, 99,5% das crianças em idade escolar estão estudando. Hoje existem outros desafios, como a permanência na escola e a qualidade do ensino. O Brasil não investe pouco em educação, investe em torno de 5,5% do PIB. Uma das frentes da Cogna é oferecer soluções educacionais de qualidade para estados e municípios, para aumentar a qualidade de seus sistemas. Mostramos para os gestores de sistemas públicos de educação que existem recursos adicionais quando o município atinge determinadas metas. Não falta dinheiro, falta boa gestão e temos diversos exemplos de sistemas de ensino que deram certo, como o da cidade de Sobral, no Ceará. Acredito na parceria entre iniciativa pública e privada e sou otimista em relação à educação, mas há muito trabalho a ser feito.

[Natale] Paula, como a AWS pode apoiar o Brasil nesse desenvolvimento?
[Bellizia] Quando comparamos o Brasil com a América Latina, o percentual de gestores públicos e corporativos que apontam que a falta de habilidades técnicas e de talentos vai ser um bloqueio importante para o avanço da adoção de IA e para a competitividade do Brasil é maior que em outros países. Entre 2010 e 2020, 75% do crescimento do PIB brasileiro veio da entrada de mais pessoas na economia. Na China, 95% do avanço foi resultado do aumento da produtividade. A IA pode ajudar a mudar essa equação no Brasil. Um ganho de apenas um ponto percentual de produtividade já acrescentaria centenas de bilhões de dólares à nossa economia. O Brasil tem condições de dar esse salto. O interesse das companhias internacionais reforça esse potencial. A Amazon, por exemplo, investiu R$ 75 bilhões no país em 15 anos, sendo R$ 19 bilhões somente no último ano. Esse nível de investimento mostra que a empresa não está aqui no curto prazo.
[Natale] A RD Saúde é reconhecida como uma empresa que dá oportunidades de primeiro emprego e investe em capacitação e qualificação. Como as pessoas chegam à companhia e qual a evolução delas na empresa?
[Pipponzi] Mais de 50% dos brasileiros de 18 a 29 anos abandonaram a educação básica ou não ingressaram no ensino superior. Muitos chegam ao mercado com lacunas de leitura, matemática, interpretação de texto e raciocínio lógico e esse é o universo das pessoas que chegam à RD Saúde. Desde 1997, a empresa contrata os profissionais da operação pelo primeiro nível e os desenvolve internamente. Essa decisão exigiu investimentos e escolhas difíceis no curto prazo, mas criou uma base sólida de pessoas preparadas e alinhadas à cultura da companhia. Na década de 2000 já havia um pool muito forte de pessoas alinhadas à cultura da companhia e que permitiu a expansão da marca em todos os estados, com nível de rentabilidade semelhante nas operações e padronização na entrega. Para a RD Saúde, o atendimento é um diferencial competitivo. Hoje temos olhado mais para as motivações, os incentivos que funcionam e os novos modelos de trabalho para construir soluções que, de fato, possam permitir que as pessoas assumam o protagonismo de construir sua própria jornada de desenvolvimento.
[Natale] Como vocês estão adotando, na prática, a IA nas suas companhias?
[Galindo] Negar a inteligência artificial não vai mudar a realidade. A tecnologia já está alterando as relações de trabalho e a capacidade produtiva das empresas. Por isso a Cogna decidiu assumir um papel de protagonista nessa transformação. Há três anos, a companhia, que tem cerca de 25 mil colaboradores, investe em infraestrutura tecnológica e arquitetura de dados para poder capturar o maior benefício para nosso negócio. Hoje, temos aproximadamente uma centena de agentes de IA, com ganhos de produtividade que chegam a 30% ou 40% em alguns processos. Apesar dos ótimos resultados, percebemos que automatizar partes de processos antigos gerava avanços incrementais, não uma transformação disruptiva. A partir do fim do ano passado, passamos a questionar por que os processos deveriam continuar iguais se a IA permite alcançar o mesmo resultado de uma maneira completamente diferente. Mapeamos os 2.400 processos da organização e os organizamos em 12 grandes jornadas. Agora, estamos reconstruindo a primeira delas a partir do máximo potencial de agentização e orquestração por IA, como se a companhia estivesse sendo criada do zero. Cada jornada deve ser concluída em ciclos de três a quatro meses. A expectativa é que esse modelo permita reinventar continuamente a Cogna. A companhia já não é a mesma e, em seis meses, certamente terá mudado novamente.
[Natale] O que falta para as empresas brasileiras capturarem todo o potencial da inteligência artificial?
[Bellizia] Mesmo na AWS, que está na linha de frente do desenvolvimento da tecnologia, todos ainda estamos aprendendo. A IA já transformou minha própria rotina. Joje, um agente organiza minha agenda, prepara informações para reuniões, recupera documentos e apoia processos de leitura e aprovação. Com isso, aumentei minha produtividade em cerca de 40%. Ainda assim, considero que estou apenas no início dessa jornada. Em relação ao ambiente corporativo, porém, a adoção continua limitada. No Brasil, apenas entre 5% a 10% dos workloads das empresas estão na nuvem, com a infraestrutura necessária para processar o enorme volume de dados exigido pela IA. Poucas organizações possuem dados limpos, organizados e governados. Sem modernizar a arquitetura tecnológica e preparar essa base, a inteligência artificial continuará sem produzir uma transformação relevante no negócio. Isso exige educação corporativa em alta velocidade e capacitação em todos os níveis da organização. Sem capital humano preparado, nem a tecnologia mais avançada será suficiente.

[Natale] Como as empresas podem prolongar a vida produtiva dos profissionais e fortalecer a colaboração entre gerações?
[Pipponzi] Precisamos deixar de associar educação apenas aos jovens. O lifelong learning deve alcançar todas as idades, porque prolongar a vida produtiva das pessoas será uma necessidade econômica e social. As empresas têm um papel importante na criação de políticas que valorizem profissionais mais experientes e aproveitem seus conhecimentos, competências e repertórios.
A inteligência artificial torna essa colaboração intergeracional ainda mais relevante. A tecnologia tende a eliminar não apenas algumas funções, mas também etapas intermediárias do trabalho que hoje são fundamentais para a formação profissional. Se parte dessas atividades desaparecer, como os profissionais juniores adquirirão a experiência necessária para se tornarem bons seniores? A aproximação entre quem está começando e quem já acumulou vivência pode ajudar a preservar esse aprendizado. Ao combinar novos conhecimentos com experiência prática, as empresas prolongam a contribuição dos profissionais, desenvolvem as novas gerações e aumentam a qualidade do que produzem.
[Natale] Quais habilidades serão mais importantes para os profissionais, em um mundo transformado pela inteligência artificial?
[Pipponzi] A primeira é a capacidade de aprender continuamente, com curiosidade e disposição para acompanhar um mundo que sabemos que continuará mudando. A segunda é o discernimento. À medida que a IA assume etapas dos processos, as novas gerações nativas de IA podem perder experiências que hoje ajudam a formar julgamento e maturidade profissional.
Essa capacidade não depende apenas do conhecimento técnico, mas da vivência. Por isso, é importante ampliar repertórios, circular por ambientes diferentes e conviver com pessoas de outras realidades. O contato com o mundo concreto será essencial para formar profissionais capazes de avaliar situações e tomar boas decisões.

[Bellizia] Aprender e manter a curiosidade será a principal habilidade. Aqui na Amazon temos uma cultura baseada em 16 princípios da liderança e isso funciona como um sistema operacional da companhia. Um deles é aprender e ser curioso. Outro é o bias for action, a atitude para a ação. Hoje, muitas pessoas compreendem as mudanças e sabem o que precisam aprender, mas poucas transformam esse conhecimento em iniciativas concretas. Saber não será suficiente. Será preciso fazer acontecer.
[Galindo] Essa discussão precisa considerar as diferentes realidades do Brasil. Enquanto falamos de inteligência artificial, 25% das escolas brasileiras ainda não têm acesso à internet. Há um ano, esse percentual era de 45%, então é preciso considerar o avanço. Essas populações também serão impactadas pela IA, seja como consumidoras, seja nas oportunidades de trabalho. O desafio é permanecer na vanguarda sem ampliar a distância entre esses dois Brasis, criando condições para que mais pessoas participem dessa transformação.
Perguntas do público
[Carlos Domingues – Talent Management PepsiCo] O que as empresas ainda precisam fazer para reduzir o peso da origem social nas oportunidades profissionais?
[Galindo] Na pandemia, a Sinfônica de Berlim fez uma audição às cegas. Não lembro dos números exatos, mas antes desse processo as mulheres representavam em média 35% do total de pessoas e passaram a representar 62%. Não existe uma bala de prata para resolver essa questão, tem que haver intencionalidade para descartar vieses que, muitas vezes, são inconscientes. Ter políticas não discriminatórias é importante, mas o capital social fala mais alto que essas políticas. A sociedade está estruturalmente programada para fazer desta forma. É preciso disciplina e intenção para reverter isso.
[Pipponzi] O primeiro passo é colocar o problema abertamente em discussão. As empresas precisam aprender a falar sobre desigualdade, trazer exemplos concretos e incorporar esse debate aos processos de formação. O tema não pode aparecer apenas em ações pontuais, mas fazer parte do desenvolvimento cotidiano das pessoas e das lideranças.
[Bellizia] Além da intencionalidade, é necessário manter uma visão de longo prazo. Os últimos anos mostraram que avanços sociais podem retroceder rapidamente quando as lideranças deixam de acompanhar o tema. Por isso, a responsabilidade dos líderes é manter o foco nas políticas transformadoras e não permitir que estruturas históricas de desigualdade voltem a prevalecer.
[Leopoldo Jereissati – CEO da All Set] Na visão de vocês, qual é o papel dos líderes, das empresas e do governo na transformação da educação no Brasil?
[Pipponzi] A responsabilidade pela educação precisa ser compartilhada entre o indivíduo, as empresas e o governo. Aqui na RD Saúde fizemos um trabalho de construção de diferencial competitivo por meio da formação dos colaboradores. Temos muito orgulho do que desenhamos lá atrás. Havia uma preocupação com o momento de vida de cada profissional. É preciso entender as mudanças nos modelos de trabalho e nas expectativas das pessoas. O governo continua sendo um ator importante, que hora está mais perto da iniciativa privada, hora mais distante.
[Galindo] Ninguém conseguirá resolver sozinho o desafio da educação. O indivíduo precisa assumir a responsabilidade pelo próprio desenvolvimento, as empresas devem facilitar o acesso à formação e o governo precisa garantir qualidade e escala. Cada empresa deve encontrar seu caminho para incentivar e viabilizar a qualificação dos colaboradores. A responsabilidade é coletiva.
[Bellizia] Além de cada instituição cumprir seu papel, o Brasil precisa ampliar a articulação entre empresas, especialistas em educação e poder público. Companhias de tecnologia podem contribuir com sua capacidade técnica, mas precisam se associar a organizações que conheçam os desafios educacionais Parcerias com instituições como SESI, Senai e Senac podem ajudar a combinar tecnologia e educação para alcançar mais pessoas com rapidez. A tecnologia continuará avançando, mas o diferencial estará na preparação humana e no que seremos capazes de fazer pelas pessoas.
Fotos: Marcos Mesquita
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