“A transformação do mundo acelerou dez anos”

“A transformação do mundo acelerou dez anos”

Entrevista: Salim Ismail, autor de “Organizações Exponenciais”, aponta o início de um novo ciclo de inovação para empresas e governos

Publicado em 25 de Maio de 2020

A transformação dos modelos de negócios tornou-se um imperativo para todas as empresas no mundo. Não é mais uma questão de opção. Cinco anos após o imenso sucesso do livro “Organizações Exponenciais”, Salim Ismail, um dos fundadores da Singularity University, volta ao tema com seu novo trabalho, “Transformações Exponenciais”, que ele define como uma trilha com as metodologias para que qualquer negócio faça a sua transição. 

Salim Ismail é o speaker principal do Experience Club Lab, que acontece no dia 28 de maio, das 9h às 12h. Com o tema The Digital Storm, o encontro fará a conexão ao vivo de grandes referências da transformação de negócios direto de Toronto, Nova York, Pequim e São Paulo. Veja a programação completa e faça sua inscrição para participar aqui.

Nesta entrevista, Ismail comenta alguns pontos da sua apresentação ao público brasileiro, começando pelo impacto da crise da covid-19 e o efeitos positivos das novas tecnologias nessa mudança de paradigmas sem paralelo no mundo. Confira: 

O que mudou nesses cinco anos entre o lançamento de “Organizações Exponenciais” e seu novo livro “Transformações Exponenciais”?

Eu acho que há coisas boas e ruins. Se você olhar a tecnologia, houve uma explosão impressionante em relação há cinco anos. Essa parte é impressionante. Estamos vivendo um ambiente incrível de inovação em blockchain, Crispr [edição genética], carros autônomos, drones com passageiros, sistemas de Inteligência Artificial e outros. Essa parte avançou muito, mas, por outro lado, como isso entra no nosso dia a dia? Essa é o aspecto mais difícil de prever no momento em que estamos vivendo.

Algumas rupturas já foram confirmadas neste intervalo?

Está claro que os velhos sistemas não funcionam mais em várias formas.

Nós essencialmente crescemos a nossa economia nos últimos dez anos imprimindo dinheiro. Estamos criando US$ 4 em dívidas para cada US$ 1 em crescimento do PIB. Obviamente isso não é funcional. Estamos pagando pelos efeitos de uma economia baseada em extração, como as mudanças climáticas e o crescimento da desigualdade. Os avanços tecnológicos são fantásticos, mas os problemas também são exponenciais. O corona é um exemplo de problema exponencial. O nosso desafio agora é alinhar o sistema legal e de governança para enfrentar esses problemas. Infelizmente, isso está acontecendo neste momento.

A globalização vem sendo posta à prova por fatores políticos e tecnológicos. Estamos retrocedendo no enfrentamento dos problemas do planeta?

O mundo está profundamente conectado através da internet e a economia interdependente. Isso não tem volta. Mas o lado negativo é ver como problemas globais estão sendo enfrentados por soluções locais, o que não está funcionando. Isso cria um conflito nesse movimento de antiglobalização, porque você não consegue se isolar do resto do mundo. O coronavírus mostra que precisamos ter uma abordagem global para enfrentar os desafios. 

Onde está a raiz desse problema?

Nós conseguimos nos conectar econômica e tecnologicamente, mas não estamos conectados emocional e espiritualmente. A rigor, nós continuamos agindo dentro de uma estrutura tribal, tentando nos proteger. Parte do planeta está operando dentro de uma perspectiva de escassez e outra, de abundância. O que nós precisamos é alinhar todo mundo.

Quais são os benefícios, por outro lado, da aceleração da ciência no enfrentamento da covid-19?

O lado positivo pode ser visto no uso de drones para borrifar antivirais no ar, por exemplo, ou a aplicação de ferramentas de AI nas avaliações de risco. Além disso, temos 100 milhões de cientistas trabalhando em um só problema, é uma situação inédita e nós vamos encontrar logo uma cura para a doença. Um dos nossos colegas, Raymond McCauley [professor da Singularity University], afirma que o coronavírus é a primeira batalha na guerra final contra todas as doenças. Temos um potencial incrível, mas os governos tentam nos separar em cima de uma política do medo.

Como os governos e os sistemas econômicos podem mudar a abordagem da tecnologia na solução dos problemas da sociedade? 

Eu acho que estamos num momento fascinante, de inflexão da humanidade. Todo negócio nos últimos 5 mil anos está baseado na escassez. Se você não tem escassez, não tem negócio. Mas últimos cinco ou dez anos você passou a ter negócios baseados em abundância. O Airbnb é baseado na superoferta de quartos, o Uber, na abundância de carros que ficam parados a maior parte do tempo. Estamos no meio dessa mudança. 

Qual é a evolução natural desse processo?

Quando você vê a situação mais ampla, temos abundância de energia solar e até mesmo abundância da capacidade de prover saúde e educação, com toda a disponibilidade de conteúdo e atendimento online. O mindset de segurança está baseado na escassez, então nosso desafio é mudar essa forma de pensar. Vou dar um exemplo: sistemas como eBay ou Craigslist permitem tanto realizar operações positivas quanto negativas, como roubar o dinheiro de alguém pela internet. Mas um estudo mostrou que a relação é de oito mil transações positivas para cada atividade negativa. Então, quando falamos de drones, a primeira resposta dos governos é banir a tecnologia, porque ela pode soltar bombas. Só que isso mata todos aspectos positivos. O problema é que nós não estamos manifestando os benefícios o suficientemente bem.

Você costuma dizer que estamos vivendo diversos momentos “Gutenberg” de ruptura simultâneos. Quais são os mais próximos?

A energia solar é um exemplo. Há três anos eu disse que nós teríamos um crash nos preços do petróleo e que ele não voltariam mais [aos patamares de pico]. Eu acho que agora que o corona vai ser esse turning point, porque nós vamos mudar para um modelo descentralizado de captação de energia e armazenamento por baterias, que não exigirá mais uma sistema unificado. Em países como o Brasil e Canadá, que têm muita disponibilidade hídrica, ótimo. Mas em muitas partes do mundo, os países irão direto para a energia solar e pular essa etapa. O último crash do petróleo ocorreu por uma alta de apenas 2% na produção. Ou seja, não é preciso muito mais para derrubar os preços de uma vez. Até porque, em dois ou três anos, nós vamos ver uma queda de transporte muito grande. Eu vejo a mesma transição com blockchain, AI e carros autônomos.

Que aspectos positivos poderão emergir dessa crise global?

Quando a gente fala em aquecimento global, o fato é que nos últimos 20 anos nós não tivemos sucesso. Mas agora estamos vendo claramente como é o sucesso.

Nós literalmente estamos vendo Los Angeles e Nova Déli. É uma transição poderosa. O coronavírus acelerou a transformação global em pelo menos uns dez anos. Muita coisa positiva sairá desse acontecimento, apesar de todos os aspectos negativos trazidos pela doença.

Como a ExO Works está atendendo o mercado nesse processo de transição?

No ano 2000, Jack Welch [ex-presidente da GE], comentou na divulgação de um report de resultados que, quando o metabolismo da empresa está abaixo do ambiente ao redor, isso significa que ela está morta. A questão apenas é saber quando. Isso está acontecendo de maneira tão rápida que o metabolismo de praticamente todas as grandes empresas está abaixo do meio externo. O sprint que a ExO Works faz é acelerar o metabolismo das empresas para que elas consigam reagir mais rápido às mudanças. Nós já realizamos esse processos umas 30 vezes. No Brasil, atendemos à Coteminas e também à Visa.

Como o novo livro Transformações Exponenciais se encaixa nesse modelo? 

O que ele faz é agir como um open source dessas metodologias, então qualquer empresa pode fazer isso sem precisar da gente. Nós estamos interessados em transformar os negócios em todo o mundo, e se quiséssemos ter controle da metodologia, só conseguiremos alcançar no máximo 0,5% das companhias. Dessa forma a gente, quem sabe, consegue chegar a 40% das empresas. Nós temos uma área de nonprofit fazendo o mesmo para o setor público, o Fastrack Institute, com sede em Miami. José Roberto Marinho, das Organizações Globo é, inclusive, um dos nossos doadores. Nós fazemos sprints de 16 semanas para transformação de serviços públicos. Trabalhamos com as prefeituras de Miami e Medellín, na Colômbia, para transformar o sistema de transporte. Portanto, nós atuamos basicamente numa frente privada e outra pública. Começamos com uns 100 consultores ajudando na construção do livro, isso cresceu rápido para mil e agora temos cinco mil pessoas trabalhando conosco ao redor do mundo.

Qual será a sua mensagem para o público no Brasil?

A minha mensagem é a de que essa crise mostrou como todas as empresas terão que se transformar. Não é mais uma questão de escolha. E quando mudanças tão grandes como essa acontecem, nós sugerimos que a transformação não comece pelo core da empresa, mas por uma extremidade. E agora nós temos a teoria e as ferramentas para fazer isso acontecer. O que eu quero proporcionar é uma trilha para que as pessoas consigam fazer essa transformação em suas empresas.

Texto: Arnaldo Comin

Imagens: Reprodução