“Cannabis pode ser a nova soja brasileira”

“Cannabis pode ser a nova soja brasileira”

À frente da americana Knox Medical, empresário Mário Grieco desembarca a primeira grande operação do produto no país

Publicado em 10 de março de 2020

Assista no EXP TV entrevistas com Mário Grieco e os fundadores da GreenCare falando sobre cannabis medicinal no Brasil.

A liberação da importação de medicamentos à base de cannabis pela Anvisa no final de 2019 foi a primeira grande vitória da batalha travada há dois anos pelo médico e um dos mais importantes executivos da indústria farmacêutica no país, Mário Grieco. “É uma conquista extraordinária, que poderá beneficiar até 20 milhões de brasileiros que podem se beneficiar de terapias baseadas em derivados da maconha”.

Jovem recém-formado que foi aos Estados Unidos para se especializar em medicina da família no final da década de 1970, Grieco acabou construindo uma sólida carreira no mercado de medicamentos no Brasil, como presidente da divisão pharma da Pfizer, CEO da Bristol Meyer Squibb e VP da Moksha8 para a América Latina.

No final de 2017, o executivo aceitou o convite para montar no Brasil e Latam a estrutura da Knox Medical, produtora legal de produtos baseados na planta da maconha sediada na Flórida, tanto no mercado medicinal quanto recreativo. Lá, a companhia planta e comercializa uma infinidade de produtos, que vão desde cigarros manufaturados, cigarros eletrônicos, extratos e cápsulas para todo tipo de aplicação.

No Brasil, a companhia irá operar no limite da legislação. “Nosso foco nesse momento é estritamente medicinal, no tratamento de doenças neurológicas e dores crônicas, que continua sendo um dos maiores males da humanidade”, enfatiza Grieco. O mercado primário da Knox é a epilepsia refratária, que provoca convulsões em série em crianças e pode levar à morte do paciente por falta de oxigenação. Os produtos que combinam de formas variadas os princípios do THC (Tetraidrocanabinol) e CBD (Canabidiol) servem ainda para tratamento dos males de Parkinson, Alzheimer, ansiedade e epilepsia em adultos. No Brasil, os medicamentos vêm na forma de extrato. Versões fumadas não são permitidas pela lei.

Levantamento recente da organização internacional New Frontier Data com a aceleradora The Green Hub estima em R$ 4,7 bi o potencial da indústria da cannabis no Brasil, considerando os tratamentos mais recorrentes. 

Nos dois primeiros anos de atuação, Grieco se ocupou em arrumar a casa visando a liberação do mercado. Já licenciada para importação, a Knox Medical vinha trabalhando na facilitação da compra caso a caso, de acordo com receituário e pré-aprovação da autoridade sanitária, conforme previa legislação. O trabalho principal, porém, era o relacionamento e esclarecimento sobre as propriedades da cannabis junto ao canal médico, onde a experiência do executivo é o grande diferencial da empresa no país.

A experiência médica de Grieco o tem ajudado a abrir espaço junto à classe para os produtos farmacêuticos à base de cannabis

Com a autorização da Anvisa, a Knox Medical passa a importar regularmente sua linha de medicamentos. A limitação de drogas com até 0,2% de THC na fórmula, de acordo com o Grieco, não é um impeditivo para a maioria dos tratamentos. Somente casos de pacientes com câncer terminal é exigida medicação mais potente, que poderá importada mediante autorização especial.

PLANTANDO NO BRASIL

O próximo desafio da indústria é liberar o plantio da planta da maconha, que ajudaria a reduzir brutalmente os custos dos medicamentos. “Um tratamento que hoje chega a custar até R$ 400 por mês ao paciente poderia cair para R$ 40, dando acesso a uma condição de vida melhor para pessoas de menor renda”, calcula Grieco.

Mais do que isso, o plantio regulamentado criaria um novo e imenso mercado para o agronegócio, que pode superar os R$ 40 milhões anuais, segundo algumas estimativas de especialistas. Levantamento do Banco de Montreal aponta que a indústria da cannabis deverá se aproximar dos US$ 200 bi até 2025 no mundo. Essa conta inclui uso medicinal, recreativo, na produção de cosméticos e até têxtil, já que a variedade do cânhamo, que possui pouquíssimo THC, produz fibras resistentes que são usadas há milênios na confecção de roupas e acessórios.

O Brasil, onde o clima é extremamente favorável ao cultivo, é um candidato natural e se tornar um dos maiores produtores e exportadores globais. “A cannabis pode ser a nova soja para o país”, enfatiza Grieco.

O executivo avançou em um acordo aos moldes de Parceria Público-Privada (PPP) com a Tecpar – Instituto de Tecnologia do Paraná, para o cultivo indoor no Estado. O modelo do acordo previa que a Knox traria insumos e know-how já desenvolvidos nos Estados Unidos para iniciar o plantio aqui. A produção seria dividida entre as empresas, o que permitiria à Tecpar oferecer o extrato de cannabis medicinal para o sistema do SUS a preços ínfimos. A Knox exploraria o potencial comercial do mercado de farmácias e hospitais privados.

Com a negativa da Anvisa, o projeto segue à espera de que o tema do plantio volte à tona. Considerando o potencial econômico, será apenas uma questão de tempo para que o agronegócio abrace a causa da cannabis no Brasil.

Texto: Arnaldo Comin    

Fotos: Mário Águas | Experience Club