Dados e performance turbinam follow-on da Ânima

Dados e performance turbinam follow-on da Ânima

Recuperação de resultados e transformação digital embalam captação de R$ 1,1 bi na nova oferta da holding de educação

Publicado em 30 de janeiro de 2020

A reinvenção de negócios ocorrida após a redução dramática dos recursos do FIES – que levou o mercado de universidades privadas a uma profunda crise – chegou ao seu momento de coroação para a Ânima Holding. 

Os louros foram dados na noite de ontem pelos investidores, quando a organização anunciou em fato relevante à CVM a captação de R$ 1,1 bilhão em um follow-on com emissão de 30 milhões de ações. Em função da demanda pelo papel, o volume ofertado foi 35% maior do que a previsão original, praticamente sem deságio em relação aos preços correntes na B3. A valorização da ação da Ânima está acima de 20% em relação à cotação no início do ano. O valor total de mercado da holding passa agora a cerca de R$ 3 bi.

Mais de 90% dos recursos deverão ser destinados à aquisição de mais instituições. Uma fonte próxima à holding destacou ao Experience Club que o foco das aquisições se manteria nos segmentos de saúde, tecnologia e, possivelmente, hospitalidade. A ideia seria seguir o modelo de manutenção das marcas e da cultura das organizações.

Procurada, a Ânima declarou que, em respeito ao período de silêncio exigido pela CVM até 6 de fevereiro, não faria comentários adicionais ao fato relevante.

A holding é controladora das universidades São Judas, Unimonte, diversas instituições regionais e a representação no Brasil de marcas educacionais importantes, como HSM, Le Cordon Bleu e, mais recentemente a Singularity University. São 115 mil alunos matriculados em cursos presenciais por todo o país.

PREÇO DO SUCESSO

Além da forte liquidez e as altas históricas no mercado brasileiro, o que mais explica tamanha valorização de preços da Ânima?

O primeiro motivo é operacional. A derrubada do FIES arrastou várias instituições para o buraco nos últimos cinco anos. Dos R$ 13,7 bi de recursos do governo federal empenhados em financiamento estudantil em 2014, o volume caiu para R$ 1,3 bi no ano passado, inviabilizando o programa como principal sustento do setor.

Menos exposta ao fundo em relação a outros concorrentes, a Ânima arregaçou as mangas fez uma profunda reorganização na casa, o que se confirmou pela melhora no desempenho operacional.

A evolução da margem de ebitda da holding, que havia sido de -0,2% no terceiro trimestre de 2018, subiu a 2% no mesmo período do ano passado, o último divulgado (margem de 17,8% sobre a receita líquida). E a expectativa para o 4º tri também é positiva.

“O mercado confia muito no management da Ânima, que fez aquisições de qualidade nos últimos anos”. [autor]Murilo Breder, analista da Levante Ideias de Investimentos.[/autor]

Breder aponta que a holdind foi a última das “quatro grandes” a fazer seu follow-on. “De um lado, SER e YDUQS focaram em preço, enquanto a Cogna Educação (holding que nasceu em setembro de 2019, a partir da Kroton) e agora Ânima apostaram em ofertas restritas, privilegiando o valor”. O lançamento de ontem foi ofertado a R$ 36,25, em linha com o preço corrente dos últimos pregões.

DADOS E PESSOAS

A mudança mais profunda, observa uma fonte do mercado educacional, está na visão estratégica da Ânima em relação ao futuro do modelo de negócio. A holding estaria tentando se posicionar na liderança da transformação digital, a partir da construção de uma base de dados capaz de não só oferecer conteúdos, mas de entender a fundo a jornada de aprendizado, aperfeiçoando metodologias e a assertividade dos professores.

De acordo com uma fonte a par das mudanças na organização, o foco passa a ser não apenas na oferta de conteúdos, mas na capacidade de fazer com que o aluno desenvolva novas competências.

“Tem mais a ver com curadoria e mentoria do que cursos simplesmente”, afirma essa fonte. Com uma base de dados mais estruturada – com metodologias compartilhadas em todas as instituições – é possível entender os estudantes no detalhe, reduzindo a evasão e elevando a retenção, mesmo depois de formado, com a oferta de produtos continuados de formação.

O resultado, na visão de longo prazo, melhoraria a performance e, por consequência, a rentabilidade dos acionistas.

Texto: Arnaldo Comin

Foto: Reprodução