Em ritmo de unicórnio, investimento anjo começa 2020 com R$ 1 bi no caixa

Em ritmo de unicórnio, investimento anjo começa 2020 com R$ 1 bi no caixa

Entrevista: queda da Selic melhora cenário para startups, diz diretora-executiva da Anjos do Brasil, Maria Rita Spina

Publicado em 21 de janeiro de 2020

Embora represente pouco mais de 1% do que movimenta nos Estados Unidos, o investimento-anjo promete entrar em 2020 com uma marca psicológica importante no Brasil: R$ 1 bi em recursos alocados em startups. O volume é pequeno em termos absolutos, mas equivale a um novo unicórnio, capitalizado por uma comunidade de quase oito mil investidores individuais.

A necessidade de buscar investimentos mais rentáveis em um cenário de Selic baixa e a perspectiva de um ano de crescimento econômico mais firme devem estimular a expansão do investimento-anjo no Brasil em 2020. Essa é expectativa de Maria Rita Spina, diretora-executiva da Anjos do Brasil, que reúne parte importante dos investidores individuais do mercado.    

Para fechar o quadro positivo, a entidade acredita que o projeto do Marco Legal das Startups chega na hora certa. “Participamos das discussões do projeto em diversas instâncias e estamos otimistas”, destaca a executiva, em entrevista ao Experience Club. Confira os destaques:

Quantos investidores-anjo atuam hoje no Brasil? Quanto movimentam e quantas são as empresas investidas? A última pesquisa da Anjos do Brasil, ano base 2018, aponta 7750 investidores-anjo no país, com a marca de R$979 milhões investidos. A expectativa é fechar 2019 com crescimento de 5%. Se olharmos somente para a rede de investidores da Anjos do Brasil, fecharmos 2019 com 440 investidores e 24 startups investidas. 

Queda de taxas de juros e perspectivas de crescimento econômico. Esse cenário é positivo para estimular investimento-anjo? A condição macroeconômica não é determinante para o crescimento das startups e do investimento-anjo. Podemos comprovar isso tanto olhando para os unicórnios brasileiros, que surgiram em um período de baixo crescimento, quanto para a experiência internacional. Naturalmente, porém, o crescimento da economia irá beneficiar as startups e, com isso, atrair mais investimento.

A queda da taxa de juros é um dos fatores que podem trazer mais capital para o investimento-anjo.

Estaremos em um cenário mais condizente com o padrão internacional, no qual para ter maiores rendimentos é necessário tomar mais risco. Sempre vale lembrar que o investimento-anjo é a combinação de capital e apoio ao empreendedor. Assim, quem pretende investir em startups precisa querer efetuar mais do que somente um investimento financeiro.

Qual o perfil desse tipo de investidor no Brasil hoje? O perfil dos investidores anjo brasileiros é similar ao que encontramos em todo o mundo. São, em sua maioria, empreendedores de sucesso e executivos, com alguma participação de profissionais liberais. Em geral, não são grandes fortunas, mas pessoas que desejam ganhar dinheiro e apoiar empresas nascentes com sua experiência, conhecimento e rede de contatos. Ainda é um mercado com baixa participação feminina. Estimamos que somente 12% dos investidores-anjo brasileiros sejam mulheres. Visto que inovação demanda diversidade, o aumento da participação de mulheres e afrodescendentes é fundamental.

Com um mercado crescente de startups no país, como um anjo seleciona onde aplicar dinheiro?

O investidor-anjo olha vários pontos para analisar as startups. O primeiro e mais importante critério é o time empreendedor. Uma startup é feita por pessoas com competências complementares e conhecimento do setor no qual vão atuar. Além disso, é preciso ter uma solução relevante, escalável e com diferencial para um problema real em um mercado amplo. Depois de identificar isso, o investidor também irá olhar a estrutura financeira da startup para entender sua viabilidade econômica.

Como a entidade viu o primeiro ano do governo?

O governo tem buscado soluções para aumentar a competitividade e colocar a regulação brasileira em sintonia com as regras internacionais, o que é muito positivo. O investimento hoje não tem limites de geografia. Assim, é preciso estarmos no jogo internacional, com regras que sejam alinhadas às melhores práticas internacionais.

A entidade tem agenda institucional perante o governo? Quais são as prioridades para este ano?

O volume de investimento-anjo no Brasil é apenas 1,2% do que é investido em startups nos Estados Unidos, que soma aproximadamente US$ 23 bilhões anualmente. Se levarmos em consideração o tamanho do PIB dos dois países, vamos ver que esse volume de investimento deveria ser no mínimo oito vezes maior no Brasil. O que falta são políticas de estímulo para investimento em startups, como as aplicadas por inúmeros outros países. E essas políticas não reduziriam o volume de arrecadação tributária.

Se tivéssemos, por exemplo, políticas de incentivo similares às do Reino Unido, teríamos a oportunidade de aumentar o volume de arrecadação tributária.

Quanto melhor as startups performam, maior será a contribuição tributária delas no futuro, conforme estudo elabora pela consultoria internacional Grant Thornton. Além da pauta de incentivo tributário para o investimento em startups, também estamos trabalhando para termos um melhor instrumento de investimento, tanto do ponto de vista de eficiência tributária quanto de proteção ao investidor.

Que avaliação faz da proposta de um Marco Legal das Startups?

É uma iniciativa positiva ao endereçar iniciativas que atualizem e adequem diversas legislações a um formato de negócios inovador como nas startups. Participamos das discussões do projeto em diversas instâncias e estamos otimistas, esperando que sejam incluídos instrumentos necessários para o aumento do investimento em startups, como os ligados à segurança jurídica e ao incentivo fiscal para o investimento em sintonia com as melhores práticas internacionais.

O que tem sido feito para ampliar a participação feminina entre os investidores?

O Brasil tem hoje 12% de mulheres investidoras-anjo. Esse número ainda está abaixo do que vemos em ecossistemas mais maduros, onde chega a 20%. A Anjos do Brasil atua para melhorar esse número com o MIA – Mulheres Investidoras-Anjo, uma iniciativa que fomenta a participação feminina em investimento e apoia startups que tenham pelo menos uma fundadora.

Qual o grau de interação da Anjos com universidades, incubadoras e o ecossistema de inovação?

Interagimos com todos os agentes, tanto formatando ações conjuntas como participando de eventos e palestras. Um bom exemplo de nossa atuação é a Rede Nacional de Associações de Inovação e Investimentos, uma iniciativa inédita de colaboração das principais entidades fomentadoras do empreendedorismo inovador e do ecossistema brasileiro de ciência, tecnologia e inovação, da qual a Anjos do Brasil é uma das fundadoras. Somos também membros do Conselho da Semana Global de Empreendedorismo, juntamente com nove entidades.

Que ações podem ser feitas para fomentar o investimento-anjo no país?

A Anjos do Brasil atua em 3 verticais: Rede de Investidores, Conhecimento e Políticas Públicas por entender que são necessárias ações integradas para fomentar o investimento-anjo. Entendemos a importância das redes de investidoras como agregadoras de boas práticas para o ecossistema. Assim, atuamos apoiando o surgimento de novas redes bem como fortalecendo a nossa própria rede e conectando todas as redes. Fortalecer as redes e construir conhecimento sobre investimento-anjo são as ações fundamentais para fomentar essa atividade juntamente com uma política pública de estímulo ao investimento-anjo.

Como o dinheiro inteligente dos anjos pode agregar valor às empresas investidas?

O apoio do investidor ajuda a startup a crescer mais rápido e de maneira mais sustentável, pois além do capital agregar valor, conhecimento de mercado, competências de estratégia e redes de contatos. Esses são alguns dos principais pontos que destacamos na atuação dos investidores-anjo. As startups começam com um time muito pequeno e poder contar com o apoio de pessoas sêniores faz toda a diferença para o projeto.

Texto: Luciano Feltrin

Imagens: Marcos Mesquita | Experience Club