Negócios Estelares – Parte 2

Negócios Estelares – Parte 2

Símbolo da Geração Marte, astronauta teen da Nasa Alyssa Carson está no time que pretende chegar ao planeta vermelho em 2033

Publicado em 10 de março de 2020

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NO EXP TV – Assista à entrevista na íntegra com Alyssa Carson

A americana Alyssa Carson, 18, é a astronauta mais jovem do mundo em treinamento e coleciona uma série de feitos nos quais foi pioneira. Aos 16, ela se tornou a pessoa mais jovem a se formar na Advanced Space Academy, um importante programa de treinamento da Nasa para astronautas, e a primeira a completar todos os sete campos espaciais da agência americana. Na ocasião, recebeu a certificação em astronáutica aplicada, o que permite oficialmente que ela faça um voo de pesquisa no espaço. Seu currículo é vasto e não para por aí. Depois de 14 centros de visitantes da Nasa, acompanhar alguns lançamentos e participar de três acampamentos da agência espacial, Alyssa está finalmente apta para participar de treinamentos oficiais para viagens espaciais.

Seu interesse pelo espaço remonta a uma memória da primeira infância. Aos 3 anos, ela conta ter assistido a um episódio do desenho animado Backyardigans, no qual os personagens fazem uma viagem a Marte. Alyssa contou sua memória de infância em uma entrevista exclusiva concedida ao Experience Club em São Paulo, durante sua participação no Innovation Lab.

“Um pôster do desenho ficou pendurado na parede do meu quarto por anos, então acredito que meu interesse pode ter surgido daí. Até porque, ninguém na minha família tinha envolvimento com ciências ou com o espaço”.

Atualmente, ela cursa o segundo ano de graduação em astrobiologia, no Florida Institute of Technology. Seus treinamentos, desde os 15 anos, são feitos pelo Project PoSSUM, uma organização científica privada, que conta com o apoio de um programa da NASA. Alyssa passou os últimos 11 anos se dedicando ao seu sonho maior: conquistar uma vaga na missão para Marte que a Nasa planeja fazer até 2033. Embora ela já tenha passado por um filtro de 18 mil inscritos, ela ainda tem pela frente a concorrência com outros 12 aspirantes à viagem espacial ao planeta vermelho, que deverá durar pelo menos 3 anos. Não há qualquer garantia de retorno.

Desde o término do programa Apollo, em 1972, e passados 50 anos da chegada à Lua, Marte se tornou o novo “Moonshot” da exploração espacial. Um projeto grandioso que, somente para a missão de 2033,

MARTE É POP

tem investimentos previstos em US$ 120 bilhões. E a geração de Alyssa é a aposta para assegurar o futuro da humanidade fora daqui. Previsões como as do físico Stephen Hawking de que seria necessário explorar outros sistemas solares se quisermos garantir a nossa sobrevivência reiteram os esforços para essa empreitada. Hawking chegou a fazer afirmações do tipo: “Não creio que vivamos mais mil anos sem ter que deixar este planeta”.

Mas a exploração e futura colonização de outros planetas causa desconforto e até mesmo polêmicas quando se considera o fato de que estamos enfrentando sérios problemas com aquecimento global e as mudanças climáticas. Alyssa, que também faz parte de uma geração que luta pelo meio-ambiente, como a sueca Greta Thunberg, não vê isso como uma contradição. “Marte não é apenas uma fuga dos problemas que causamos por aqui. O Sol, por exemplo, não estará aqui para sempre. Um dia ele vai explodir, e quando isso acontecer, nós todos iremos com ele. Ir para Marte faz parte desse pensamento a ultralongo prazo sobre a sobrevivência da humanidade”.

O longo caminho de Alyssa para chegar onde quer exige além de muita disciplina e restrições, a NASA não recomenda, por exemplo, ter uma família antes da missão a Marte, e os investimentos são graúdos. Um único curso pode chegar a custar US$ 100 mil dólares.

Ser o símbolo da “Geração Marte”, porém, tem seus benefícios econômicos. Além de receber por palestras e ações promocionais, ela possui produtos licenciados com sua marca. Em seu site, o Nasa Blueberry (sua insígnia dada pela agência), é possível comprar camisetas, adesivos, pulseiras, linha de bagagem para viagens espaciais e até mesmo um manual com instruções para quem sonha em um dia se tornar um astronauta. Ela também é autora do livro “So You Want to Be an Astronaut. Um guia realista para se tornar um jovem astronauta”. “O livro foi uma forma de mostrar às pessoas como seguir esse caminho por elas mesmas, tentar descobrir qual carreira seguir e como isso pode ser aplicado ao espaço”, explica.

MULHERES NO ESPAÇO

Em outubro de 2019, as astronautas Jessica Meir e Christina Koch protagonizaram um feito histórico: a primeira caminhada espacial 100% feminina, em missão que durou precisamente sete horas e 17 minutos. O feito estava programado para acontecer seis meses antes, mas um detalhe as impediu de prosseguir a missão: não havia dois trajes espaciais do tamanho adequado a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS). Até então, só homens ou um homem e uma mulher realizaram caminhadas espaciais, desde o início da montagem da estação, em 1998. Desde então, foram 214 saídas deste tipo.

A presença feminina na NASA começa agora a tomar outros rumos, caminhando para uma divisão mais igualitária das vagas: entre os 12 candidatos selecionados na turma de 2017, por exemplo, cinco são do sexo feminino. Atualmente, o time de exploradores espaciais da agência conta com 38 astronautas na ativa, 26 homens e 12 mulheres.

“Eu acho que ser uma mulher e trabalhar no programa espacial é muito legal, principalmente porque temos a chance de inspirar outras pessoas. É muito bom ver mais mulheres envolvidas em todas as funções da indústria do espaço”.

O espaço feminino está garantido também na próxima missão que deverá levar o homem de volta à Lua em 2024. Até hoje, 12 humanos pisaram na Lua nas missões Apollo — todos homens e brancos. Por enquanto, ainda não se sabe quem vai ocupar o papel de primeira mulher a pisar na Lua. “Hoje, nosso corpo de astronautas é mais diverso e estamos ansiosos pelo momento histórico em que pousaremos a primeira mulher na Lua por meio do programa Artemis”, disse Sean Potter, da Nasa.

SINAIS DE VIDA

Entre meados de julho e o início de agosto 2020, a NASA enviará um novo rover para Marte, que dará continuidade ao trabalho que o Curiosity vem fazendo desde 2012, na busca por sinais de vida antiga no planeta, bem como preparar o local para a exploração humana, o que deve acontecer na década de 2030.

O atual Programa de Exploração de Marte da NASA segue uma estratégia conhecida como “Procure Sinais de Vida”. Descobertas recentes de uma calota de gelo no polo sul do planeta e de um antigo lago de água salgada há 3,5 bilhões reforçam as expectativas sobre as próximas missões. O objetivo é estabelecer uma colônia humana permanente lá, a exemplo da organização holandesa a Mars-One. Alyssa está sendo preparada para isso e é uma das sete embaixadoras do projeto.

Há controvérsias sobre a real viabilidade de uma missão como essa. E não são apenas desafios técnicos, mas também questões ligadas à saúde. Um estudo financiado pela própria NASA concluiu que os astronautas que conseguirem chegar a Marte estarão expostos, de maneira constante, a uma radiação cósmica prejudicial ao organismo.

Existe ainda um “aumento de risco alarmante” para funções cerebrais durante viagens ao espaço profundo, com potenciais impactos no humor e até na capacidade de tomada de decisões. A radiação no espaço pode significar câncer a longo prazo, além de as viagens afetarem densidade muscular, óssea e as capacidades mentais.

Os perigos parecem não assustar a jovem astronauta. “Estou fazendo coisas que gosto e que no futuro serão benéficas. Quanto aos riscos, tenho muita fé no programa espacial. Se a única opção fosse ter uma viagem de mão única, eu ainda gostaria de ir. A ideia de fazer algo que ninguém fez antes é emocionante”.

 

1610 – Galileu Galilei foi o primeiro astrônomo a ver Marte atráves de um telescópio. O planeta, no entanto, já era conhecido por estudiosos desde o Egito Antigo. Seu nome é uma homenagem ao deus romano da Guerra.

1965 – Primeiro sobrevoo de Marte pela sonda Mariner 4.

1971 – Primeiro pouso em Marte e com sinais inéditos da superfície do planeta.

1976 – Primeiras fotos e coleta de solo da superfície de Marte.

2011 – Lançamento do rover Curiosity que tem a missão de explorar o planeta Marte em busca de vestígios de vida presente ou passada.

2015 – Cientistas da NASA anunciaram a descoberta de córregos sazonais com água em estado líquido na superfície do planeta.

2019 – Pesquisadores guiados por dados do Curiosity confirmaram a existência de um antigo lago de água salgada na superfície de Marte, cerca de 3,5 bilhões de anos atrás.

2020- A NASA enviará um novo rover para Marte, dando continuidade ao trabalho do Curiosity.

2033 – Previsão de lançamento da primeira missão tripulada ao planeta vermelho.

TRÊS PERGUNTAS PARA ALYSSA CARSON

 

 

1. Em 2019 foi comemorado o aniversário de 50 anos da missão Apollo à lua. Nessa ocasião, você teve a oportunidade de conhecer algumas das pessoas que fizeram parte do programa. Como foi isso para você?

Celebrar o aniversário de 50 anos é importante para marcar o que foi conquistado, mas também levanta a questão de que ainda não chegamos em Marte. Sem dúvida, essa data nos inspira a continuar trabalhando para alcançar esse objetivo.

2. Qual você acha que é a responsabilidade da sua geração dar o próximo passo na exploração espacial?

Eu acredito que essa é a geração de Marte, que o interesse existe, muito tem se falado sobre o tema. Marte é o assunto de vários programas de TV, filmes, está em todos os lugares. Marte faz parte da cultura pop. Se o Matt Damon foi, então eu também posso. É mais ou menos isso que está no imaginário das pessoas. Acho que estamos mais perto de realmente ter a tecnologia necessária para alcançar esse objetivo. É por isso que eu acredito que essa geração realmente chegará a Marte.

3. Alguns estudos da NASA sugerem que estamos perto da primeira fase de exploração mineral espacial com um potencial econômico de 125 bilhões. A sua missão para Marte em 2033 prevê passar de dois a três anos colonizando o lugar, plantando comida e realizando experimentos científicos, basicamente em busca de sinais de vida. Na sua opinião, quais são os potenciais econômicos?

Sempre vi o espaço como ótima fonte de recursos para tudo aqui na Terra. Eu acho que quando as pessoas pensam sobre gastar dinheiro em missões para o espaço, muitas delas pensam em tirar dinheiro fora dentro de uma garrafa, colocando em um foguete e perdendo tudo no espaço. A mineração trará recursos para a Terra, seja na Lua ou em Marte, enquanto que o programa espacial em geral gera várias vagas de empregos. Existem tantas invenções que nós nem imaginamos, mas foram desenvolvidas para programas espaciais. Por exemplo, o velcro foi inventado neste contexto. Eu acredito que é daí que vem o retorno de investimento.

Texto: Luana Dalmolin   

Imagens: Mário Águas | Experience Club, Nasa e Reprodução

Publicado originalmente na Revista Experience Club nº22.