“Nem sempre as melhores soluções vêm da alta gestão”

Marcos Pupo, vice-presidente de cloud para a Oracle América Latina, fala sobre desafios e aprendizados da liderança remota na pandemia

Publicado em 26 de agosto de 2021

Se há uma competência que as empresas tiveram de aprender a calibrar, na raça, ao longo da pandemia, foi a da liderança remota. 

Com o distanciamento social e times trabalhando longe do escritório, a figura do chefe que controla todos os processos e tarefas realizados por seus colaboradores – já bastante enfraquecida nas grandes organizações –, perdeu, por completo, o sentido prático. 

Em seu lugar surgiu um líder com outro perfil. Capaz de supervisionar o trabalho, com foco em resultados. 

Esse profissional também precisa ter como competência dar maior liberdade aos funcionários, alinhando sua atuação aos propósitos da companhia. 

O objetivo é que esse conjunto de habilidades possa fomentar um ambiente que estimule a cooperação e a criatividade entre as equipes. 

Ao longo desse mais de ano e meio, essas foram algumas preciosas lições aprendidas ou reforçadas por Marcos Pupo, vice-presidente de cloud da Oracle para a América Latina.  

“Todo esse processo acaba gerando um círculo virtuoso. As pessoas se sentem mais motivadas. Mas, claro, para que isso aconteça, é preciso criar vínculos. O resultado é muito positivo, pois surgem ótimas iniciativas. Nem sempre as melhores soluções vêm da alta gestão”, diz o executivo, em entrevista ao Experience Club. 

Ele fala, ainda, de um desafio adicional, já que, nesse período, a empresa, que atua em 175 países, conta com cerca de 135 mil funcionários e alcançou receita global de US$ 39 bilhões no ano fiscal de 2020, vem passando por uma importante mudança em seu modelo de negócios.  

O objetivo é ser, cada vez mais, voltada à prestação de serviços, sobretudo de nuvem.  

A seguir, os principais trechos da entrevista:  

1 – Incentivo à liberdade 

“Isso gera muitos desafios, não só para o colaborador, mas também para o líder. Encontrar o equilíbrio, o balanço entre até onde você tem que ir, quando o colaborador precisa de ajuda e quando ele precisa do espaço dele para poder se desenvolver.” 

“Ao longo desse ano e meio da pandemia, conseguimos desenvolver várias atividades. Iniciativas que buscam estarmos conectados, mas não necessariamente estar interferindo na forma como as pessoas estão atuando, e dando muita liberdade.” 

“Foi uma experiência super válida e trazemos vários aprendizados para o mundo híbrido que vamos ter no futuro.” 

2 – Manter o time engajado 

“Conseguimos desenvolver muitos projetos novos por iniciativas que surgiram do próprio time. Aí cabe, de novo, o papel do líder em identificar essas iniciativas, esse momento de colaboração da equipe e incentivar cada vez mais.” 

“Isso acaba gerando um círculo virtuoso. As pessoas acabam se sentindo mais motivadas. E isso se conecta com um ponto fundamental: manter a motivação do time nesse modelo.” 

“Acho que passa um pouco por criar conexões e alinhar o propósito da empresa ao de cada profissional para que eles se sintam engajados e motivados porque estão fazendo algo além.” 

3 – Virada no modelo de negócio da companhia 

“Coincidentemente, neste ano e meio, foi um período no qual tivemos muita mudança dentro da Oracle, em termos de mudança de negócios, estratégia, de organização.” 

“Já vínhamos num processo de transformação, acelerando nosso modelo de negócio na nuvem. Mas, de um ano e meio para cá, os próprios clientes demandaram muito mais isso.” 

“Se você parar para pensar que tivemos que fazer todo um processo de mudança de modelo, de organização remotamente, foi um desafio adicional.” 

4 – Criando conexões reais, mesmo que remotamente 

“A conexão com o time é um tema muito importante. Você acaba tendo que balancear, reuniões mais formais e outras menos. É preciso equilibrar isso com momentos mais descontraídos, bate-papos mais abertos.” 

“Sempre tive a preocupação, como cara muito crítico, em saber se uma reunião trouxe realmente benefícios para as pessoas que participaram. Sempre busquei melhorar as reuniões, trazendo elementos para obter resultados práticos ou benefício concreto.” 

“As reuniões por Zoom foram uma loucura, pois acabaram com o tempo para respirar entre uma reunião e outra. No início, foi um desafio. Depois, com o tempo e organização, criamos momentos de pausa, café com o time, celebrações e momentos de falar e comemorar nossas conquistas.” 

5 – A diversidade de um time latino-americano 

“Antes eu ia para o México, fazia duas, três reuniões, voltava, e assim passava a semana inteira. Isso mudou completamente e é positivo. Existia muita ineficiência no modelo anterior, para alguém que é América Latina, regional, e precisa estar em vários lugares ao mesmo tempo.” 

“Hoje, eu consigo interagir com todo time e participar de reuniões com clientes de forma remota e, eventualmente, decidir viajar apenas quando fizer sentido.” 

6 – O aprendizado da pandemia e o legado do modelo híbrido 

“Eu acho que a pandemia trouxe à tona e reforçou muito a necessidade das pessoas se reinventarem. Todos ficamos numa zona de desconforto, tendo que repensar tudo. Isso é algo muito positivo, olhando do ponto de vista de desenvolvimento da sociedade.” 

“Você cria uma experiência, para todo tipo de profissional e pessoa que carregaremos para o futuro. É um aprendizado único para nós, como geração”.  

“Aprendemos que tudo o que tínhamos feito antes já não serve para o que vamos fazer depois. É um ativo que todos nós vamos levar”.  

7 – A força da agenda ESG 

“Muito disso a gente já fazia antes. A Oracle, seja em nível global, Brasil ou América Latina, já vinha desenvolvendo práticas e iniciativas nessa linha.” 

“São elementos muito importantes para o nosso negócio, a sustentabilidade e a questão da governança.” 

Texto: Luciano Feltrin

Imagem: reprodução e unsplash